Entrou em casa, pousou a pasta, largou os sapatos e antes mesmo de tirar o casaco e a gravata ligou o computador e a televisão. Depois do palco, aquele silêncio doméstico incomodava-o sempre. Ainda pensou em telefonar a alguém, mas imaginar o tipo de conversa que fatalmente se estabeleceria foi o suficiente para o demover.
Despiu-se, serviu-se do whisky e pegou no comando da televisão. No ecrã, às imagens fragmentadas dos diversos canais sobrepunham-se os sorrisos bajuladores dos seus fãs. Havia gente que o seguia para todo o lado, mulheres que lhe davam o número do telemóvel, homens cuja dependência o assustava.
Sabia que a essa hora já o Facebook fervilhava de comentários. Olhou o computador de relance. Não iria lá. Responder-lhes era prolongar o trabalho. Instalou-se no sofá. O corpo pesava-lhe. Pousou o copo na mesa de apoio e estendeu-se. O sono apanhou-o de bruços, a vogar numa sala juncada de jornais atrasados e livros a cheirar a novo, alguns empilhados, outros espalhados sem critério pelo chão, todos iguais. De pescoço torcido e braço pendente, acabou por libertar o comando para cima de um deles, tapando parcialmente a foto da capa que era a do seu rosto sorridente, encimado pelo título “Aprenda a Ser Feliz”.

Os outros podem-nos roubar a vida…
😀
«Tinha 50 teorias sobre a vida e nenhuma prática. Agora, vivi 50 anos e não tenho nenhuma teoria»
😉
Boa frase 😀
Muito bom, Teresa!