O escândalo Volkswagen.


Luís Menezes Leitão,

O escândalo Volkswagen constitui um exemplo típico da forma como as empresas podem usar os desenvolvimentos tecnológicos para a fraude e como tantos discursos sobre a corporate responsability afinal podem conduzir a isto.

 

O software na indústria automóvel tem contribuído para tornar os automóveis mais seguros. Um dos exemplos é o ABS que permite perceber quando o carro está em derrapagem com uma roda a deslizar sem rodar, compensando a situação travando e libertando as rodas. A empresa lembrou-se de usar o mesmo princípio para detectar se o carro estava a ser usado não em estrada, mas num banco de ensaios, recolhendo como indícios só estarem a rodar as rodas da frente (as únicas com tracção) ou o volante estar fixo, ou o carro estar numa altura maior ou sem alterações na pressão atmosférica exterior. Nesses casos, o motor reduzia a emissão de gases poluentes, permitindo bons resultados nos testes.

 

Como aqui se explica, o assunto só foi descoberto porque na América surgiu uma associação privada, o International Council on Clean Transportation, que decidiu fazer testes às emissões dos carros na estrada, descobrindo que o VW Passat tinha emissões 5 a 20 vezes superiores aos resultados anunciados. Contactada a Volkswagen, esta respondeu que tinha sido um erro de medição nos testes feitos pelo ICCT. Este não ficou, porém, satisfeito, denunciando o assunto publicamente, desencadeando a intervenção da United States Environmental Protection Agency (EPA). Esta pressionou várias vezes a Volkswagen para explicar o que se estava a passar, mas esta limitava-se a dizer que se tratava de meras falhas técnicas. Até que a EPA informou a Volkswagen de que, se o assunto não fosse esclarecido, proibiria a comercialização dos carros nos Estados Unidos. Só com essa ameaça a Volkswagen confessou a criação do software. A EPA deu então uma resposta lapidar: o assunto deixa de ser da nossa competência e passa para a esfera do Departamento de Justiça. Ao mesmo tempo, nos Estados Unidos estão a ser preparadas inúmeras class actions contra a Volkswagen, com um exército de advogados americanos a querer representar os compradores de carros enganados.

 

A Volkswagen corre o risco assim de enfrentar inúmeros processos a nível mundial, que no limite podem pôr em causa a sua própria sobrevivência. É extraordinário que uma fábrica que sobreviveu à destruição total após a II Guerra Mundial e chegou a ser um ícone da cultura pop com modelos como o Carocha e o Pão de Forma, tenha agora a sua sobrevivência ameaçada por um escândalo desta proporção. E que sucedeu ao seu CEO Martin Winterkor, responsável por este escândalo? Foi para casa com uma indemnização de 28 milhões de dólares. Há algo de muito errado em tudo isto.

0 comentários em “O escândalo Volkswagen.”

  1. Não vejo nada de errado, refiro-me à sua última afirmação. E não vejo porque a VW não é Martin Winterkor.

  2. É o capitalismo predatório no seu melhor, a diferença é que agora os factos dizem respeito a uma empresa conhecida e ainda por cima alemã, não uma qualquer fábrica desconhecida que faz iphones que avariam por tudo e por nada e que pratica salários de miséria e tem condições de trabalho iguais em quase tudo ao inicio do séc. XX.

    Depois temos o reverso da medalha que é o facto da industria automóvel Norte-Americana estar absolutamente obsoleta e não conseguir competir com os carros japoneses e europeus. De modo que tem de “pedir” que as autoridades locais inventem esquemas para lixarem as vendas aos japoneses alegando graves defeitos nos airbags e problemas no acelerador e agora aos Europeus quando se sabe que que a maioria dos carros produzidos na América por marcas americanas tem cilindradas muito altas com eficiência em performance e consumo muito baixa.

    Temos o caso da Ford e da GM em que os seus melhores (mais eficientes) modelos não foram pensados nos USA mas sim na Europa e também são produzidos na Europa.

    A ofensiva das marcas Japonesas e Europeias na América estava a dar cabo das marcas Americanas e algumas até já tinham sido absorvidas como a FIAT fez ao Grupo Chrysler.

    Obviamente que o que escrevo nos 3 parágrafos anteriores não pode justificar nunca a atitude da VW pois também mentiu aos consumidores europeus e aos Países que deram dinheiro dos impostos para que as pessoas comprassem veículos mais recentes e amigos do ambiente e podem ter a certeza que este apelo ao ambiente era cada vez mais considerado na hora da compra de uma viatura nova pelos potenciais compradores.

    Este esquema da VW é só mais uma das inúmeras variantes de um capitalismo sem regras e em que todos os meios são considerados legítimos para atingir os fins.

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