Fernando Savater, um dos autores espanhóis que mais admiro – professor de Filosofia, agnóstico e homem convictamente de esquerda -, proclama o direito de qualquer criança a ter simultaneamente um pai e uma mãe. Parece um lugar-comum, mas já não o é nestes tempos de constantes engenharias sociais em que a ciência, através da inseminação artificial, satisfaz não só a natural pretensão de casais inférteis a ter filhos mas também, em grau crescente, de pessoas que não formam um casal.
“Afirmo a existência do direito a ter pai e mãe, o direito a possuir uma filiação. Os avatares históricos podem privar-nos do pai ou da mãe, podem fazer com que tenhamos pais adoptivos. O que não se pode fazer é programar órfãos. Não há o direito de se preparar o nascimento de um ser que será privado de pai ou de mãe, como se estes fossem simples aditamentos supérfluos. Creio que a nossa origem simbólica de uma dupla filiação masculina e feminina, e o apaixonamento ligado a essa dupla filiação, nos cria um imaginário que ninguém tem o direito de pôr de lado.”
Palavras oportuníssimas do filósofo incluídas no seu livro Os Dez Mandamentos no Século XXI, editado pela Dom Quixote (Lisboa, 2004), com tradução de Miguel Serras Pereira – um livro que só posso recomendar.


Linear, este raciocínio de Savater. E exemplar, face a tantos apressadinhos desta oportunidade social duvidosa por que estamos a passar.
Discordo.
Savater vive atualmente. Se vivesse noutros tempos, saberia que, ao longo da histótia, milhões de crianças foram órfãs. Era normalíssimo, noutros tempos, mulheres morrerem de parto, homens jovens morrerem em acidentes de trabalho, etc. São sem conta os grandes vultos da história, homens e mulheres notáveis, que foram educados só pela mãe, ou só pelo pai, ou por familiares, etc.
É claro que o ideal é ter pai, mãe, avós, primos e tutti quanti. Mas esse ideal raras vezes se realizou, ao longo da história. Por exemplo, o meu pai só conheceu o seu pais quando ele voltou do Brasil, tinha ele 24 anos de idade; ou sja, foi educado apenas pela mãe.
«Savater vive atualmente. Se vivesse noutros tempos, saberia que, ao longo da histótia, milhões de crianças foram órfãs.» Salvater deve ser um bocado tapado, porque V. também vive actualmente e sabe essas coisas todas.
A diferença, porém, é que ele lê e escreve e V. escreve sem ler. Leia o ‘post’ e descubra sozinho como ele não se refere a quem perde pai e/ou mãe.
:)))
Concordo e entendo o conceito em termos ideias, mas a verdade é que as normas sociais estão a mudar (quer queiramos, quer não). Criar resistências a essa mudança não só não adianta muito como cria ainda mais sofrimento. O que não impede, naturalmente, que se estabeleçam regras bem claras para ela, e o menos penalizadoras possível para quem atravessa a fase de transição (sempre as maiores vítimas).
ideais (livra, hoje não acerto uma…)
Esta é uma questão muito complexa que eu também coloco no caso de homens ou mulheres que recorrem à ciência para ter filhos sem os respectivos parceiros.
Também me parece que a abordagem da questão tem de se ligar a esses casos. Recolocar a questão. Não em termos de direitos, mas em termos do que seja adequado à convivência humana, no seu sentido mais profundo.
:9
Essa agora, e porquê? Era o que mais faltava, toca de proibir quem enverede por “produção independente”? Por alma de quem? Duma alegada “origem simbólica”? Deixemo-nos de falsas questões; o que um flh@ precisa é de quem o ame e que o guie o melhor possível, pelo menos até à idade adulta, pouco importando se é uma mãe, uma mãe e um pai, dois pais ou duas mães, o qe interesse é reunirem os requesitos acima citados. Já os simbolismos da treta que fiquem com que os pratica, têm todo o direito de o fazer, mas não venham é meter o bedelho em família alheia.
Muito bem, apoiado. Savater que filosofe lá para a família dele, não venha é dar lições – e muito menos impôr normas – aos outros.
Não se filofofa para a família, mas para o mundo, Luís Lavoura. E filosofar não é dar lições, é PENSAR, uma actividade muito útil que cada vez se faz menos.
filosofa, claro.
Ninguém fala em ‘impor’ ou ‘proibir’. Savater é um pensador, não é um político. Os políticos é que ‘impõem’ e ‘proibem’. Savater coloca, e bem, a questão no plano ético: é inaceitável retirar-se à partida, ainda por cima com a chancela do Estado, o direito a uma criança – qualquer criança – de ter pai e mãe. Diz ele, e eu concordo, que não devemos programar órfãos. Uma coisa é uma criança ficar órfã de pai ou mãe pelas contingências do destino, sempre lamentáveis mas quase sempre inevitáveis: outra é já nascer órfã por um capricho de engenharia genética.
É só isso. Mas é o essencial.
O problema, Ana, está no pensamento de Savater aqui realçado. É que este se se limita a reproduzir o velho argumento (claro que com as roupagens de quem trata a linguagem escrita por tu) de que uma criança “precisa” (tem o direito, se prefere) duma figura paterna e duma outra materna…, compreende as implicações do raciocínio?
Cumprimentos
Compreendo as implicações do raciocínio e também compreendo que ele se presta a várias leituras. Eu não vejo homofobia nesta declaração, mas presumo que o Carlos a encontra em cada palavra. Não posso deixar de concordar com Savater numa coisa: enquanto a norma da maioria for esta – ter (ou ter tido) um pai e uma mãe de sexos diferentes – qualquer criança que pertença à minoria sofrerá por isso, porque será discriminada (quanto mais não seja pelas outras crianças, que não têm filtros sociais como os adultos e são, frequentemente, cruéis entre si). Um dia não será assim, provavelmente, mas por enquanto, é. E há que pensar nisso quando equacionamos este tema, que é complexo de mais para ser abordado com a ligeireza que vejo por aí. É fácil defender os direitos dos adultos (eu defendo-os, também nesta matéria), mas as crianças que são envolvidas por arrasto não podem ser esquecidas. É delas que se trata, até porque não podem defender-se a si próprias.
Começa a faltar-me a paciência para os detectores de ‘homofobia’ a cada esquina. Savater sublinha algo que é do mais elementar senso comum. Carlos Pimentel, pelo contrário, foge ao senso comum ao sustentar que tanto faz ter só uma mãe ou só um pai. Diz que pouca importa. Lamento contradizê-lo, mas importa.
Em que medida é que importa Pedro? Quais os critérios adequados para definir os conceitos “simbólicos” que “importam”? O facto de serem plurais i.e., de pai/mãe biológicos, ou de “filiação”, como titulaste? Afinal de contas, de que estamos a falar? Parece-me que estamos a falar de coisas diversas. Eu estou a falar da PMA e da adopção. You?
Um abraço da Guilhermina Suggia,
Ana, lamento sinceramente, mas quem falou em homofobia foi você e não eu 🙂
Claro, foi o que inferi da sua frase “compreende as implicações do raciocínio?” Se não era a essas implicações que se referia, então não percebi mesmo. Já agora, quais eram então as implicações?
São normativas minha cara, normativas. É um raciocínio que conduz a normas de conduta e (por inerência) normas de censura. Nada tenho contra o mero floreado, bem pelo contrário, só descurto é das prescrições inerentes.
Até aí ainda chego, meu caro. Mas volto a perguntar-lhe: normas de que conduta, na sua opinião? Se não é de homofobia e de direitos dos homossexuais que falamos, então de que é?
Por outro lado, todo o pensamento é normativo na medida em que qualquer raciocínio exposto pretende transmitir uma mensagem e influenciar quem o ouve (ou lê, no caso). É o que estamos a fazer neste momento, esgrimindo os nossos argumentos. Não vejo nada de mal nisso, apenas liberdade de expressão. Segue as “prescrições” quem quiser, apenas. Seja como for, Savater não é exactamente o papa para ter esse grau de influência que lhe confere.
Finalmente, e embora eu aprecie muito floreados literários, não lhes vejo grande utilidade ou interesse se não servirem um pensamento estruturado qualquer.
* Requisitos
.. irónico e mordaz este hoje escolhido, Pedro, que conheço bem 🙂
(a contraposição de valores em “não cobiçarás a mulher do próximo” é hilariante)
:))
Quanto a isto “O que não se pode fazer é programar órfãos” concordo em absoluto.
Inteiramente de acordo também.
Se o problema é conservar o simbolismo mítico da Criação, aquietando assim consciências em estado de inquietação, então aqui fica uma sugestão de leitura de uma passagem do Livro do Génesis: “Deus criou então o homem semelhante ao seu Criador; assim Deus criou o homem. Homem e mulher – foi assim que os fez.”
Não há orfãos programados, porque mesmo simbolicamente cada ser humano é homem e mulher, é actividade e passividade, é acção e paixão. Não posso julgar o texto de Savater, porque conheço apenas o excerto aqui citado, mas a utilização da imagem da criação para a defesa deste tipo de posições é, no mínimo, absurda, e não é a afirmação de um pretenso agnosticismo que a salva. Seja no contexto bíblico, ou num contexto filosófico secular, o mito da criação refere-se à criação do género humano, do Homem, um género que é, na sua origem, plural, homem e mulher. Assim, cada indivíduo humano, independentemente do sexo a que foi votado pela sua estrutura genética, é, do ponto de vista simbólico, homem e mulher. Tudo o resto diz respeito a uma visão liberal da política, da organização comunitária, que tem a família dita tradicional como princípio de concatenação e fundamento sempre presente, mas escondido, do espaço público (isto demoraria algum tempo a discutir, mas Hannah Arendt, por exemplo, denuncia esta tendência da tradição política de uma forma bastante interessante. Também interessante e esclarecedor para determinar a origem de alguns dos nossos preconceitos políticos é o tratamento dado por Hegel a esta imagem, no contexto da sua filosofia política). Não é uma questão de simbolismo, mas de política escondida sob a capa legitimadora de um pretenso simbolismo que não é mais que uma leitura ideológica do mesmo. Mesmo que não tenha acertado em tudo, Marx acertou numa coisa (e aqui aproprio-me do sentido das teses, sem ser totalmente fiel à letra): a moralidade, a religião e a metafísica e todas as formas de ideologia dependem das relações entre indivíduos e reflectem essa capacidade relacional – de ser activo e passivo – presente em cada um. As formas da consciência não determinam a vida, mas a vida determina as formas da consciência. E a concepção tradicional da família como algo fixo, não-relacional porque absolutizado, é algo que a vida histórico-política – relacional – dos indivíduos mostrou ser insuficiente para responder aos anseios e às condições materiais – isto é, efectivas e não na esfera de um mundo de faz de conta – dos indivíduos contemporâneos. É a independência da constituição do espaço público e das diferenças nele presentes a respeito do carácter identitário da unidade familiar em que se baseia a teoria política tradicional que assusta esta tradição do liberalismo político, e não a orfandade dos indivíduos. Se no espaço privado podemos ter pai e mãe, ou só mãe, ou só pai, ou nenhum, não é o espaço público, no qual todos podemos ser orfãos em virtude da nossa liberdade, que deve determinar quem é e como se constitui a família. Isso é algo que, por definição, diz respeito à privacidade de cada um. E o direito, pelo menos da última vez que lhe dei atenção, é algo apenas reconhecido num espaço político, tomado em sentido lato.
Já por causa destas coisas, tive o cuidado de sublinhar que Fernando Savater é agnóstico: jamais o veremos a fazer proselitismo religioso. Escusado: aqui vem o argumento de que se pretende “conservar o simbolismo mítico da Criação” e citações do Genesis totalmente fora de propósito.
Nada a fazer nesta matéria.
Certamente por deficiência minha, não percebo algumas das restantes frases. Sobretudo esta: “Todos podemos ser órfãos em virtude da nossa liberdade.” Vou meter explicador a ver se entendo. Se calhar o meu conceito de liberdade é muito diferente deste.
Uma coisa é certa no que diz: não percebeu nada, nem sequer a referência ao mito da criação bíblico, cuja influência na cultura ocidental não se limita ao contexto religioso. Daí a minha referência a contextos filosóficos, sublinhando a sua secularidade. Daí a legitimidade da referência que, sendo agnóstico, o seu Savater lhe faz. A Bíblia, bem como outros livros ditos de religião, são também livros de Filosofia. E foi como tal que eu – assim como o agnóstico Savater , estou certo – a ele me referi. Mas reforço: não percebeu nada, de facto. Mas não faz mal. Aquilo que importa sublinhar é o facto de a posição de Savater , pelo menos conforme é por si retratada, não ser politicamente isenta, sendo perpassada por elementos provenientes de uma concepção filosófica de comunidade humana representada maioritariamente pelo liberalismo, e não constituir uma perspectiva filosófica “que nada impõe”. Ela não impõe, mas propõe algo político travestido de isenção filosófica, independentemente de ser ou não essa a sua intenção. Eu, por outro lado, faço questão de o fazer perceber apenas uma coisa: não é pela tentativa de redução ao ridículo e pelo lançamento do fantasma do preconceito religioso sobre a opinião que aqui expus que lá chega. Isso resulta bem em quase todos os contextos e com boa parte das pessoas, atraindo uma turba de apoiantes em auxílio da “tolerância religiosa” – soundbyte sempre eficaz de quem se refugia no apelo ao politicamente correcto e ao consensual para produzir um ruído que impede qualquer discussão honesta e uma exposição consequente de argumentos racionais (não sou eu que o vou contrariar a respeito da legitimidade dessa tolerância, e muito menos contribuir para alimentar polémicas inexistentes e que, em qualquer caso, não constituem o objecto do meu comentário anterior). Neste caso, em que a última coisa que me preocupa é a religião de cada um, a qual, tal como a família, diz respeito à sua vida privada, essa forma meio passive-aggressive de evitar a questão diz mais acerca de si do que de mim. Está no seu direito, desde que não ponha na minha boca aquilo que eu não disse. Ah! Uma última nota: acertou quando disse que o seu conceito de liberdade é muito diferente do meu. Afinal, para um tão veemente defensor da liberdade privada, parece ter muito a ditar acerca do modo como os outros vivem a sua, nomeadamente no que respeita às modalidades de constituição do seu núcleo familiar. É uma perplexidade! Enfim, mas é de contradições que o mundo parece ser feito.
De facto, os nossos conceitos de liberdade são diferentes. Não vem daí qualquer mal ao mundo, antes pelo contrário.
Pedro
Só hoje é que dei com este post! Nem sei como o deixei passar… acho que foi porque me distraí com as críticas ao PSD…
Gostei imenso de ler a opinião de um filósofo considerado que coincide com a minha, embora tímida, posição neste assunto. Uf!!! Cheguei a pensar que tinha reservas ou preconceitos quando procuro respeitar todas as diversidades e excentricidades pessoais que por sua vez respeitem o próximo…
Assim, sinto-me mais confiante da próxima vez que defender os direitos legítimos da criança (neste caso, a um pai e a uma mãe), e a colocar os seus direitos à frente do direito de adopção.
Registo a sintonia, Ana. Com natural agrado.