O eclipse do Sol


Rui Rocha,

 

No passado, fui um leitor assíduo de jornais. Se bem me lembro (já lá vai algum tempo), considerava aqueles que lia como interlocutores amáveis e respeitadores que eu próprio convidava para os meus espaços e para os meus momentos. Esperava deles, como espero dos amigos, o melhor comportamento. Isso inclui sensibilidade e sentido estético. Mesmo, ou sobretudo, quando se trata de transmitir as piores notícias. É exactamente isso que continuo a pensar a propósito da exibição de fotografias violentas ou de cadáveres em jornais, agora que sou um leitor ocasional. Como em tudo, a decisão de publicar violência apela a uma regra de equilíbrio e de bom senso jornalístico. Publicar sempre ou nunca publicar são, por natureza, atitudes desequilibradas. O bom senso diz ainda que não é a mesma coisa publicar na primeira página ou nas páginas interiores, a cores ou a preto e branco. Tratando-se de situações de fronteira, é evidente que qualquer meio de comunicação tem o seu próprio código de ética ou livro de estilo, nos quais estão definidas orientações para este tipo de situações. Deste modo, a publicação pelo Sol da imagem de um cadáver, em primeira página, na sua última edição, não pode ser considerada um acidente. Trata-se, pelo contrário, de uma atitude deliberada e consciente. Sem ter a pretensão de ser um especialista na matéria, não me parece arriscado supor que a generalidade dos livros de estilo jornalísticos devem adoptar como critério a relevância da publicação da imagem para a compreensão dos factos. E que esta deve ser entendida não apenas como a apropriação dos factos pelos sentidos mas, mais do que isso, como a possibilidade de construção de significados inteligentes. E será ainda assim (até será mais) no contexto dos jornalismos de causas ou de investigação. Isto é, se o critério puramente estético aconselharia que nunca se publicassem imagens de violência, este poderá ser afastado sempre que tal se imponha por um critério utilitário que, em todo o caso, estará ancorado em princípios éticos e deontológicos. Ora, no caso concreto do Sol, o que está em causa é a investigação jornalística sobre o assassinato de alguém e a eventual responsabilidade de um suspeito em tal desfecho. A publicação da imagem do cadáver na primeira página é absolutamente neutra desse ponto de vista. Não aquece, nem arrefece. Mas, já não o é do ponto de vista estético. A violação do critério estético sem nada que o justifique pelo ângulo da compreensão da notícia coloca esta decisão fora do domínio do deontologicamente aceitável. Não posso afirmar que deixarei de comprar o Sol porque, em geral, já não o compro. Mas, lamento que este esteja deliberadamente a eclipsar-se, numa vertigem de mau jornalismo. Coerente, aliás, com outros momentos recentes (veja-se este editorial de José António Saraiva). Por cada jornal que se degrada, há um espaço de cidadania que fica por ocupar. A mera tentação de vender não justifica tudo. Em rigor, não justifica nada. Dir-me-ão que exijo mais ao Sol do que ao Correio da Manhã. Contraponho que este último já não é, em rigor, um jornal e que ao Sol ainda o tinha nessa conta.

10 comentários em “O eclipse do Sol”

  1. Obrigada pelo link para o artigo. Fiquei enjoada com o texto do jas e nem consegui lê-lo até ao fim. Como é possível o director de um jornal pensar e escrever tamanhas barbaridades? ou melhor, como é possível alguém que escreve e pensa o que escreveu ser director de um jornal?!

  2. Ontem como hoje….Portugal não muda!!!!

    …” A Imprensa de Lisboa não tem opinião. Aqueles dos seus membros que por excepção pressentem as ideias próprias, vivas, originais zumbindo-lhes importunamente no cérebro, enxotam-nas como vespas venenosas. É que a missão do jonalismo português não é ter ideias suas, é transmitir as ideias dos outros. Por tal razão em Lisboa o jornalista nunca se concentra, nunca recolhe com o seu problema para meditar, para o estudar, para o resolver. Nunca procura a verdade. Procura apenas a solução achada pelo público, pelo público dele,pelo seu partido político, pelos consócios do seu clube, pelos amigos, pelos seus protectores, pelos seus assinantes”…
    … O jornal não é uma fonte de critica, de análise, de investigação. O jornal é o barril de transporte das ideias em circulação, das soluções previamente recebidas e aprovadas pelo consenso público. O jornalista é o aguadeiro submisso e fiel da opiniao.. Não a dirige, não a corrige, não a modifica, não a tempera.. O único serviço que lhe faz é este: tansporta-a dos centros públicos aos domicilios particulares. O público é a nascente, é o veio, é o manancial; a Imprensa periódica é simplesmente — o cano”

    Ramalho Ortigão, 1873

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