Um pormenor, em política, pode fazer toda a diferença. Que o diga Enrique Peña Nieto, o próximo candidato à presidência do México pelo Partido Revolucionário Institucional, de má memória. Favorito nas sondagens, este advogado de 45 anos deslocou-se no passado dia 3 à Feira do Livro de Guadalajara, onde deu uma conferência de imprensa. Preparado para se pronunciar sobre temas muito complexos da política nacional e internacional, claudicou no entanto quando Jacobo García, o correspondente do jornal espanhol El Mundo no México, lhe fez uma pergunta muito simples e muito concreta: quais os três livros que mais o marcaram?
O local e a circunstância sugeriam tal pergunta. Surpreendente foi o que se seguiu: Peña Nieto pareceu ter ficado verdadeiramente embaraçado, enrolou-se nas palavras durante cinco intermináveis minutos e acabou por deixar a pergunta sem resposta. Limitou-se a aludir à Bíblia, embora admitindo que nunca a leu integralmente, e ainda se lembrou do romance La Silla del Águila, embora atribuindo-o por flagrante lapso ao historiador Enrique Krauze (é uma obra de Carlos Fuentes, o mais célebre novelista do México).
O vídeo tornou-se um dos mais vistos na Internet pelos mexicanos, com 80 mil visualizações nos primeiros três dias, contribuindo para reforçar o embaraço do candidato. Agora apontado como uma das figuras mais ignorantes da vida pública do país, o ex-governador do Estado do México tem vindo a ser alvo de chacota generalizada. Um político da oposição gracejou: “Ele ao menos podia ter citado a Branca de Neve e os Sete Anões.” Enquanto um humorista, especulando sobre qual seria a escolha do candidato para figura mais inspiradora do século XX, foi cáustico: “Martin Burger King.”
Em política, não existem irrelevâncias: tudo é importante. Nem nunca se deve baixar a guarda. Porque, quando menos se espera, o desaire espreita. O diabo está nos pormenores.

Oh senhor que maldade de post. E se alguém se lembra de fazer a mesma pergunta em Portugal? E se um “deles” responder “ah Os Maias”,os “Os Bichos” (se calhar este já não…) ou “O Ano da Morte do Almirante Reis”, se alguém se lembra de pedir que resuma o enredo ou dizer o nome de uma das personagens?
“Haveriam” surpresas, estou certo.
Eu se fosse apanhado numa armadilha dessas diria que o nome do livro que mais me marcou foi «A Fenomenologia do ser». Faria cá um figuraço…
Aposto que o primeiro nome de livro que mencionaria era a ‘Apologia de Sócrates’.
Se tivesse sido escrito por Heraclito ou Aristóteles, seria uma hipótese a considerar.
Não tenho a menor dúvida.
A Neo-Cultura é aristocrata.
Odeia números. Gosta de palavra.
Demonstração mais uma vez da a péssima qualidade do jornalismo.
O jornalista não lhe perguntou como se calcula um juro.
Ele se calhar sabia.
Isso também é Cultura.
E assim quem poderia ser a melhor pessoa para gerir o país é trucidada por algo pouco relevante.
Duvido muito que o candidato do PRI – partido que geriu o México durante 70 anos, asfixiando todas as forças de oposição – seja o melhor para gerir os destino do país. Mas com franqueza: não saber nomear três livros que o marcaram é mau de mais. Ao menos, como na anedota, que tivesse nomeado o livro de cheques…