O dia mais longo


Pedro Correia,

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Lembro-me perfeitamente. Estava em casa, com a televisão ligada, quando surgiu no ecrã a surpreendente imagem de uma torre do World Trade Center em chamas. Já não consegui desviar os olhos da CNN, lembrando a primeira vez que estive em Nova Iorque, ainda miúdo, em 1974: as Twin Towers, recém-inauguradas, eram então o mais recente cartaz turístico da cidade por terem roubado ao Empire State Building um título de quatro décadas – o edifício mais alto dos EUA e do mundo. Na sua aparente simplicidade arquitectónica, funcionavam como uma proclamação à escala global, numa espécie de alegoria da superioridade do sistema capitalista em plena Guerra Fria. Tornaram-se, deste modo, um símbolo odiado por todos os inimigos dos Estados Unidos.

Assisti em directo ao embate de outro avião contra a segunda torre. E adquiri naquele instante a certeza de que se tratava de um ataque terrorista – o mais inimaginável, brutal e espectacular alguma vez registado. Pela primeira vez desde Pearl Harbor, os norte-americanos viam-se atacados no seu próprio território. Minutos volvidos, quando um terceiro avião caiu sobre o Pentágono, ganhou-se consciência de que o século XXI começava verdadeiramente naquela data inscrita em letras de sangue na História – 11 de Setembro de 2001. E começava da pior maneira, com uma autêntica declaração de guerra do terrorismo islâmico contra Washington que prometia restringir direitos, liberdades e garantias à escala global.

Ainda não sabíamos então que um quarto aparelho, despenhado na Pensilvânia, visava inicialmente o Capitólio ou a própria Casa Branca, tendo os terroristas sido impedidos de concretizar este macabro plano pela valentia de um punhado de passageiros que os enfrentaram desarmados sabendo que nada mais os esperava senão a morte. A quem ainda não viu, recomendo a propósito o filme Voo 93, de Paul Greengrass (2006), que narra este emocionante acontecimento, parcela de um drama mais vasto.

Foi o dia mais comprido de que tenho memória. Um dia que para mim viria a terminar só a meio da madrugada seguinte, após uma maratona de trabalho no Diário de Notícias, integrado numa equipa de dezenas de jornalistas que produziram uma edição especial sobre o 11 de Setembro. A História escrevia-se em directo, frente aos nossos olhos.

Vinte anos depois, as imagens dos edifícios em chamas perseguem-nos. O mundo está mais perigoso, mais crispado, mais inseguro. E menos livre.

26 comentários em “O dia mais longo”

  1. Foi em 1987, em Agosto. A primeira e única vez, até ver. Há, não ao meu alcance por estes tempos, algures fotografias no topo de uma delas. São estas as memórias das torres.
    E há esse almoço demorado, bem disposto, entre colegas, sabendo que a tarde não traria verdadeiramente “trabalho”. A televisão ao fundo da sala mudaria tudo. Há longos anos trabalhando no escritório de Lisboa de uma empresa americana, o sucedido nesse dia representaria – pretexto bastante – meses depois o fim de uma carreira.
    Houve, felizmente, uma outra que lhe sucedeu. Egoisticamente, foi assim.

  2. Assisti às imagens num centro comercial. Não percebi logo o impacto. Talvez uns dias depois. O ultimo parágrafo espelha na perfeição a realidade actual. Foge à compreensão que a evolução da sociedade nos torne mais primitivos.
    Maus tempos para os vaticinadores.

  3. Boa noite Pedro.
    O 11 de Setembro de 2001 foi uma visão terrível para toda a humanidade.
    Igual mente terrível foi a visão de ver aviões sobrevoarem Santiago do Chile no dia 11 de Setembro de 1973. Golpistas preparados, apoiados, pela CIA e a diplomacia dos EStados Unidos da América do Norte derrubaram um governo legitimamente eleito pelo Povo Chileno, “assassinando” Salvador Allende. Milhares de mortos, milhares de torturados, milhares de desaparecidos, milhares de refugiados.
    Será que esse 11 de Setembro foi menos horrível do que o de 2001?
    Paremos um minuto em memória dos mortos do 11 de setembro de 2001.
    Paremos um minuto pelos Chilenos mortos e torturados pelo 11 de setembro de 1973.
    Zé Onofre

    1. Pois, mais do mesmo para não destoar.
      Allende, eleito com uma percentagem de votos semelhante à de Hitler estava a fazer alterações legislativas que equivaliam a uma revolução constitucional para que nem tinha legitimidade nem o apoio da maioria dos chilenos.
      Foi preciso outra tragédia,, a Venezuela, para se perceber o que o Chile teria sido sem Pinochet.
      Depois do relativo sucesso económico e de já haver riqueza para distribuir, o socialismo já recuperou poder e seguir-se-à o costume. Para não destoar.

      1. Francisco Almeida sabe, e atira com areia para os olhos, como Hitler com os seus nazis armados fizeram para ganhar eleições. De 1933 a 1939 foi alterando a Constituição, matando, prendendo e proibindo todos os dos outros Partidos. E quase todo o mundo bajulou o nazi: de H. Ford, Krupp e até da família Real Inglesa vieram simpatias e nem pensar em bloqueios ou o quer que fosse. Depois foi o que se viu.
        O Chile de Allende não tem nada de parecido, antes pelo contrário começou logo a sofrer bloqueios económicos. O mesmo não aconteceu para com as ditaduras militares que nasceram por toda a América Central e do Sul que foram sempre ajudados financeiramente. Se não tivesse havido bloqueios e sanções económicas como é que estariam as criticadas Cuba e Venezuela que até tinha petróleo e não se importariam de vender Coca-Cola ou McDonald’s?. Veja-se o caso da China.

      2. Bom dia
        Allende foi eleito com maioria tinha o apoio parlamentar necessário, e as suas medidas faziam parte do seu programa eleitoral.
        Mas supondo que não foi assim, mas como os sr. diz. Que direito tinham os EUA de meter o bedelho nos assuntos internos de outro País?
        Será que as vítimas inocentes do Chile, são menos vítimas por serem vítimas dos EUA?
        Um minuto de silêncio por todas as vítimas da prepotência de uns sobre os outros.
        Zé Onofre

        1. Allende foi eleito com maioria relativa. Significativas medidas ultrapassaram o seu programa eleitoral.
          O Chile tinha um conjunto de jovens economistas que tinham estudado em Chicago (os “Chicago boys” da escola neoliberal de Milton Friedmann) que tinham influenciado empresários chilenos, incluindo jornais, que logo desencadearam campanhas contra as medidas de Allende.
          Independemente de contactos ou mesmo promessas que podem efectivamente ter existido, a revolta chefiada por Pinochet, que era o chefe do estado-maior e foi seguida por todo o corpo militar sem riscos de guerra civil, não foi desencadeada nem por agentes americanos nem sequer pela direita empresarial chilena. A intervenção militar deu-se no seguimento de uma prolongada greve dos camionistas independentes que já ameaçava de fome muitas zonas interiores e montanhosas.
          Se quer acreditar que as relações internacionais se fazem por “direito” ou mesmo por princípios, faça-lhe muito bom proveito. É típico da irresponsabilidade e imcompetência das esquerdas.
          Nesse tempo, a chave da economia ocidental era a electricidade e a electrificação dependia do cobre. Só existiam duas grandes companhias produtoras de cobre, uma no Congo ex-belga, aliás no Katanga que levou à violenta intervenção da ONU quando Mobutu declarou a independência; a outra explorava o cobre chileno. Se acha que as potências ocidentais – com destaque para a Suécia, além dos EUA – poderiam na época sequer equacionar o controlo do cobre do Chile pelo comunismo internacional, é mais ignorante do que o que devia ser permitido.
          Situação com algum paralelismo, existe hoje em Taiwan que fabrica cerca de 55% dos “chips” mundiais e só estranho não ver ainda manifestações na Europa de apoio à integração de Taiwan na China continental.

          1. Boa tarde, sr. Francisco
            Tenho pautado sempre as minhas intervenções dentro do respeito e da civilidade para com os que partilham das mesmas ideias e para com os outros. Nunca insultei qualquer contraditor, como o sr. hoje faz – «é mais ignorante do que o que devia ser permitido».
            Não lhe vou responder à letra. Apenas lhe digo que ter opiniões diversas das minhas não faz de si ignorante. Revela apenas que temos princípios diferentes, o que é nosso direito.
            Segundo a carta das Nações Unidas Todos os Povos são Livres e Independentes e não podem sofrer ingerências nos seus assuntos internos. Será que a ONU é uma organização de esquerda. Será que ser de esquerda é crime?
            Zé Onofre
            .

          2. Eu escrevi “Se acredita … … é mais ignorante …”. Repito: as relações internacionais processam-se por interesses. Não é por princípios morais, nem sequer pela Carta da ONU. O sr. reconheceu isso mesmo quando acusou os EUA de interferirem no Chile.
            É de facto apanágio da esquerda criticar actos internacionais por cartilhas ideológicas. Como propaganda, terá a sua utilidade clientelar mas diplomáticamente a utilidade é zero. E pode ser tremendamente prejudicial, por exemplo quando Biden para vincar internamente diferenças de Trump, chamou assassino a Putin e depois teve de engolir tudo e mais algumas concessões na cimeira que teve com ele.
            As Nações Unidas não são objectivamente de esquerda mas têm na AG fortes maiorias do politicamente correcto e do anti-ocidental, ou sejam, partilham sectores ideológicos e “inimigos comuns” com a esquerda. Claro que a AG para pouco serve a não ser para propaganda. O que conta é o Conselho de Segurança, um orgão não democrático por definição. Depois do Conselho de Segurança, contam as contribuições que permitem funcionamento da organização e, mais uma vez, quem acaba por contar são os EUA. E se se atrever a citar a carta da ONU para me dizer que a organização é formada por países iguais em direitos, terei de insistir na ignorância pois todas as alternativas serão piores.
            Ponha a ideologia de lado e foque-se nas realidades. Como disse a carta das N.U. reprova ingerências internas de países terceiros. Leia a legislação que enforma a CIA. Se a carta servisse para alguma coisa a CIA devia ser liminarmente considerada ilegítima pela lei internacional, os EUA condenados e, no limite, expulsos da organização. Só dá para rir.
            Claro que ser de esquerda não é crime. Nem é crime opinar sobre relações internacionais por cartilhas de esquerda ou, mais simplesmente anti-americanas quando não anti-ocidentais. Isto porque, como é óbvio a incoerência não é ética mas não é crime.
            Sobre o Chile de Pinochet, apenas lembro que, ao contrário de Cuba e da Coreia do Norte, a sua população não foi impedida de emigrar.
            Aproveito finalmente para corrigir um disparate que escrevi. Quem declarou a independência do Katanga foi Moisés Tshombé.

          3. Boa noite, Sr. Francisco
            O que eu não aceito, nem nunca poderei aceitar é a lei do mais forte, que é a lei da selva.
            Se isso é ser de esquerda, eu sou de esquerda.
            O que eu defendo é Igualdade, Fraternidade, Liberdade – para todas as pessoas e para todos os povos. Se isso é ser de esquerda, eu sou de esquerda.
            O que eu não aceito é “Césares” que impõe a “Paz Romana”.
            Se isso é ser de esquerda, eu sou de esquerda.
            O que eu não aceito é que qualquer nação – seja ela q1ual for – rasgue acintosamente os acordos que livremente assinou e jurou respeitar.
            Se isso é ser de esquerda, eu sou de esquerda.
            Se defender estes princípios é ingenuidade, então sim sou ingénuo.
            Mas prefiro ser ingénuo a baixar a cabeça aos violadores da liberdade dos outros.
            Zé Onofre

  4. Como, quando e porquê haverá sempre pesadas faturas a pagar, por bons e maus conforme os julgadores de cada fita.

    1. Mais uma vez sem querer saiu anónimo, passando a assinar aproveito para acrescentar que há caçadores que ao que parece nunca lhes chega a vez de serem caçados.

  5. Um dos lugares-comuns que mais me espécie me fazem é esse de dizer que o século XXI começou com o atentado 11/09. Pergunto-me quantos séculos começaram antes e depois do 11/9 no Médio Oriente, em África, na América do Sul. O Afeganistão está, neste momento, a mudar mais uma vez de século. Deve ser o país que nos últimos 50 anos mais vezes de século mudou. Os afegãos são um povo de viajantes no tempo!
    Além disso, anos antes, em 93, tinha havido uma primeira tentativa de atentado nas Torres Gémeas, mais ou menos falhada, portanto nem sequer é correcto dizer que foi a primeira vez desde Pearl Harbor que os americanos foram atacados no próprio território. As imagens têm um poder incrível, as que vemos, mas também as que não vemos.

    Anos mais tarde, lá para 2008, aí sim, iniciar-se-ia uma nova fase nas nossas vidas…

  6. deitado alentejano
    «quem semeia ventos … colhe tempestades

    bibó multiculturalismo
    deixem o Islão no seu lugar

  7. Tinha passado um dia fabuloso à beira mar. No regresso ao ligar o rádio do carro comecei a ouvir tocar musica pouco usual por cá e depois ouvi a noticia.
    Foi um dia inesquecível
    Dno

  8. “Fixem esta data porque, a partir de hoje, o mundo não será o mesmo” – Foi a minha palavra deixada a quem me escutava ao fim daquela tarde de 11/09/2001. Também vi, em directo, o impacto do avião na segunda torre. Acabava de entrar no restaurante onde almoçava habitualmente. Ao ver as primeiras imagens, antes ainda desse segundo impacto, pensava que a TV estaria a transmitir um qualquer filme de ficção. Logo me dei conta de que não…

  9. A realidade é uma coisa, a percepção e o entendimento que temos dela é outra e muitas das vezes não são coincidentes.

    Porque razão os destroços de ambas as torres apresentam um perfil de demolição controlada?
    Porque razão na torre que tinha uma antena no topo aquilo que começa por aluír é a parte central do edifício, o que é característico de implosões?
    Porque razão o tempo que ambas as torres demoram a caír é próximo do tempo que um objecto lançado do cimo delas demoraria a atingir o solo, tendo apenas como oposição a resistência do ar?
    Porque razão cai o edifício 7, não atingido pelos aviões, aluindo primeiro a parte central?
    Porque razão os destroços do edifício 7 apresentam um perfil de demolição controlada?
    Porque razão “Financial transactions in the days before the attack suggest that certain individuals used foreknowledge of the attack to reap huge profits [1]. The evidence of insider trading includes:

    Huge surges in purchases of put options on stocks of the two airlines used in the attack — United Airlines and American Airlines
    Surges in purchases of put options on stocks of reinsurance companies expected to pay out billions to cover losses from the attack — Munich Re and the AXA Group
    Surges in purchases of put options on stocks of financial services companies hurt by the attack — Merrill Lynch & Co., and Morgan Stanley and Bank of America
    Huge surge in purchases of call options of stock of a weapons manufacturer expected to gain from the attack — Raytheon
    Huge surges in purchases of 5-Year US Treasury Notes” ?
    Porque razão “On Sept. 6-7, when there was no significant news or stock price movement involving United, the Chicago exchange handled 4,744 put options for UAL stock, compared with just 396 call options — essentially bets that the price will rise. On Sept. 10, an uneventful day for American, the volume was 748 calls and 4,516 puts, based on a check of option trading records [5].” ?
    Porque razão “The Bloomberg News reported that put options on the airlines surged to the phenomenal high of 285 times their average.”?
    Porque razão ninguém fala destes factos?

    (fonte de citações em inglês https://911research.wtc7.net/sept11/stockputs.html)

    1. A maioria das questões que coloca foram dadas ontem à noite
      no canal História. Extraordinário documentário.

      1. Vou procurar ver o documentário que classifica de extraordinário. Mas a maior parte das questões levantadas são tão válidas como o fabrico chinês do vírus para enfraquecer as economias ocidentais.
        Nem os autores esperavam o colapso das torres que se deu por um motivo perfeitamente identificado. Toda a estrutura arquitectónica das torrres estava baseada numa viga central de betão a toda a altura, de que irradiavam as estruturas de suporte dos pisos. É o que na gíria se chama construção em espinha.
        O que aconteceu é que os aviões tinham acabado de decolar e tinham os tanques de combustível cheios. Isso provocou uma temperatura de tal forma alta que comprometeu o aço no interior do betão. Por isso as torres colapsaram pelo interior, levando os teóricos da conspiração a fazer especulações de demolição controlada.
        Desculpe a franquueza mas não há pachorra.

        1. Não tem que pedir desculpa nem tão pouco perder tempo
          a ver um documentário que achei extraordinário.
          Por vezes a arrogância veste-se de franqueza .

          1. Se quero ver o documentário é porque, à partida, valorizo a sua opinião. Já não valorizo a informação do “site” e as questões trazidas a esta caixa de comentários.
            A frase que mentalmente construí seria “já não há pachorra para teorias da conspiração” o que supuz subentendido pela anterior referência a essas teorias. Lamento o atavio de arrogância e peço desculpa pela parte de responsabilidade que me cabe.

          2. Agradeço mas provavelmente o documentário teve mais
            interesse para mim que terá para si. Não entendo nada de arquitetura
            nem de engenharia .

  10. leria inevitávelmente o post. Até porque o titulo me intrigou.
    Pronto, compreendi o titulo, e nao é nada que pudesse supor.
    Agora passei a estar intrigado mas com a quantidade de comentários, e mais fossem, melhor ainda. Mas é que o post é retrato, pacifico. .

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