Justa ou injustamente, do último governador português de Timor guardar-se-á sobretudo a memória de um gesto: a sua retirada, acompanhado do contingente militar estacionado na que era então a nossa mais antiga parcela ultramarina, para a ilha de Ataúro, fronteira a Díli, deixando o território mergulhado numa sangrenta e dilacerante guerra civil cujas feridas ainda hoje não cicatrizaram. Esse gesto decisivo na vida e na carreira do major-general Mário Lemos Pires, agora falecido aos 78 anos, fazem-me lembrar a frase que Shakespeare atribuiu a Júlio César: "O destino, meu caro Bruto, não está nos nossos astros, mas em nós mesmos."


Os acontecimentos subsequentes à sua retirada devem ter-lhe dado muito que pensar, mesmo sem a intermediação de Shakespeare.
Certamente, Teresa. Aliás esta frase sábia deve fazer pensar qualquer de nós.
Caro Pedro muito oportuna esta citação, não é por acaso que uma das minhas séries preferidas da TV se chamava Eu, Cláudio.
Essa passou-me ao lado quando foi exibida, Ariel. Tenho de compensar essa lacuna, com o DVD.
Especialmente quando o próprio Lemos Pires forçou conscientemente esse destino. Quando o próprio se deixou manobrar por uns quantos donos do poder abrilista de que Timor-Leste tinha de ser obrigatoriamente entregue à Indonésia. Costa Gomes, Mário Soares, Álvaro Cunhal, Almeida Santos, Melo Antunes, Vítor Alves, Jorge Campinos, Garcia Leandro, Suharto, Ali Mouertopo, Ali Alatas, Benny Murdani, Garreth Evans, Gerald Ford, Henry Kissinger e Frank Carlucci sabiam disso…
Injustamente, do último governador português de Timor guardar-se-á sobretudo a memória do gesto em que foi vil e cobardemente abandonado pelos «descolonialistas no activo» ao tempo do PREC. Injustamente, do último governador português de Timor guardar-se-á sobretudo a memória da ocultação, pelo poder vigente em Portugal, do abandono de um homem íntegro e corajoso e da recusa em escutar os seus pedidos de apoio no sentido de salvar os timorenses de uma sangrenta e dilacerante guerra civil cujas feridas ainda hoje não cicatrizaram. Injustamente condenado pelos que, parceiros de interesses vários, o «largaram às feras» soube, como ser humano excepcional que foi em toda a sua vida, calar-se num gesto de dignidade que este país não pode, porque não lhe sabe compreender o alcance, reconhecer.