O Delito de Opinião


#$&%#,

Na semana passada acompanhei um amigo a uma consulta médica num hospital privado. O médico recomendou-lhe exames imediatos, que precisaram de preparativos. Escrevi um breve resmungo e publiquei-o no meu mural de FB e no meu blog. O que me levou a isso foi ter esperado uma longa tarde à porta do hospital pois o acesso às instalações está vedado a acompanhantes. Não contesto a decisão sanitária. Mas não creio ser impossível ou custoso deixar algumas cadeiras à sombra e borrifá-las periodicamente com algum desinfectante, para sossegar os mais temerosos com o contágio de covid-19. E mais me irritou, como disse no postalito, que ao mesmo tempo que há estas regras sanitárias emitidas pela DGS haja também um conjunto de acções e proclamações estatais, e da própria DGS, que vão em sentido contrário a estas preocupações sanitárias. Isso é incoerência estatal. E falta de simpatia, para não dizer outra coisa, da administração daquele hospital privado pelos acompanhantes dos seus clientes.

Dois dias depois fui com uma familiar muitíssimo próxima a um hospital público no distrito onde estamos a residir durante esta era de Covid. Dei conta disso neste postal (que coloquei também no meu mural FB). Que disse eu? Que na triagem o incómodo fora classificado como pouco grave (ainda bem), que uma médica amiga conhecedora do hospital me informou do previsível tempo de espera, o qual até acabou por ser um pouco menor do que a previsão. E de que eu, estoicamente, aceitei a previsão dessa demora (um “grande seca” pouco sonoro pois acima de tudo a preocupação, ainda que não exagerada, com a “carne da minha carne”, como a descrevi). E de que tudo acabou bem, a familiar bem tratada do seu incómodo.

Mas juntei-lhe o meu resmungo. Este das condições votadas aos acompanhantes, sem um mínimo de comodidade. Insisto, 20 ou 30 cadeiras de plástico espalhadas por um parque de estacionamento fronteiro à porta, para que não nos sentemos no chão. Borrifados periodicamente por algum “segurança”. Mas juntei-lhe o meu resmungo-mor, pois lá dentro, onde visitei (de facto fui entregar água e comida) o meu “ai-jesus”, os doentes não estavam minimamente apartados, em função de qualquer perigo de contágio. A tal incoerência estatal no exercício dessas regras sanitárias que vêm sendo propaladas.

Juntei as experiências narradas por essa minha familiar, explicitando que eu as relativizara, contextualizara, com a voz da minha experiência. Mas que lhe eram motivo de espanto, pois é uma jovem sem experiências hospitalares, porque cresceu em Moçambique (onde nunca foi aos hospitais públicos, que são desgraçados), na Bélgica e vive agora no Reino Unido. Países nos quais também não tem, e felizmente, experiência de hospitais. Pois é jovem e saudável. E no meio de tudo isto resmunguei que o funcionalismo público se apartou do SNS – através de convénios estatais com a medicina privada, adianto agora – o que significa que se aparta, sociologica e politicamente, da urgência sobre a melhoria das condições desse sistema nacional de saúde. Esse que é o meu, que não tenho seguro de saúde (não é uma obrigação legal) nem dinheiro para ir para privados. Um SNS que sofre pressões que aludi num outro texto que publiquei há pouco, e onde ecoei o que me disse um profissional que muito respeito: “estamos a seguir um rumo como o britânico, um duplo sistema, o privado dos ricos e um pior, para os pobres” (quem quiser a parte sobre o SNS nesse texto, está nas páginas 8-10).

É possível que eu esteja errado, é possível que a minha mediocridade me impeça de sentir, analisar e escrever com alguma pertinência. Mas olho para o teor de vários comentários ao meu “hospital de aquém-Tejo“. Oriundos de vários que nem olham os textos, apenas botam fel. Não é a discordância ou desapreço pelo que escrevi. É mesmo a atitude, que é recorrente e constante. Alguns são “alcunhas” residentes, outros só anónimos. Não compreendo este afã, em alguns casos de anos, em visitar um sítio para botar comentários quase sempre sob esse espírito. E esse é o ambiente dos comentários, o ambiente da interlocução aqui no DO. Não é o único, mas é constante. Composto de fel. Isso é doentio. Contagioso. Desinteressante. 

No DO aceitam-se comentários, é uma regra. E eu cumpro-a. Mas a partir de hoje não dialogo mais com comentários, independentemente da sua autoria e do seu teor. Perdi, definitivamente, a paciência.

6 comentários em “O Delito de Opinião”

  1. Toda a razão – tanto na questão hospitalar como na dos comentários (em que , proporção mais que ínfima, sou parte interessada)
    Cpmts.

    JSP

  2. Ok. É um direito que lhe assiste e, neste caso, compreensível. Tenho pena que não responda aos comentários, mas seria pior se deixasse de escrever e dizer de sua justiça. Costumo ler com interesse os seus textos.

  3. O Delito de Opinião não é, nem de longe, o pior. Mas as redes sociais são isto, pode até fazer um blogue sobre a paz de espírito que lá cairão trolls. Alguém disse que as caixas de comentários são as retretes da internet. E são. E não me excluo da merda, há dias em que sai, porque me enchem de tanta.
    Mas num blogue moderado só entra quem o moderador quiser. A razão porque este blogue deixa, aparentemente, entrar tudo, sendo talvez meritória, é um pau de dois bicos. É um dos que tem mais tráfego.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *