Dando continuidade à divulgação da nossa História e do nosso património, e depois de um blogue dedicado à cidade do Porto, escolho, desta vez, Coimbra. É considerada (erroneamente) o berço da Universidade, mas a importância de Coimbra é bem mais remota. Depois de ter sido definitivamente conquistada para o lado cristão, em 1064, por Fernando Magno (avô de D. Teresa), Coimbra permaneceu a cidade mais importante do Condado Portucalense* e do reino de Portugal, até meados do século XIII. Até à conquista de Lisboa, não havia outra cidade que se lhe igualasse em grandeza. O Porto, apesar da sua importância comercial, era, à altura, bem mais pequena. A arqui-episcopal Braga, a cabeça da Igreja portuguesa, há muita perdera a grandeza da Bracara romana. Quanto a Guimarães, serviu de quartel-general a D. Afonso Henriques, quando ele entrou em conflito aberto com sua mãe, até à Batalha de São Mamede, cerca de ano e meio mais tarde. Porém, foi em Coimbra que o nosso primeiro rei estabeleceu a sua corte, apenas dois ou três anos depois da referida batalha.
O meu blogue da semana é, por isso, A’Cerca de Coimbra.
* O condado de Coimbra, instituído por Hermenegildo Guterres em 878, foi perdido para os mouros de Almançor em 987. D. Afonso VI incorporou-o no condado Portucalense em 1093, depois de ter casado a filha D. Teresa com o cavaleiro borgonhês D. Henrique.

Não sabia isso que a Cristina nos diz, que Coimbra fosse mais importante do que o Porto e Braga. Acho isso deveras espantoso, ainda mais quando foi o Porto que deu nome ao Condado Portucalense. Seria talvez por Coimbra ser um porto interior. Os portos interiores, as últimas cidades às quais se podia aceder subindo um rio (exemplos: Mértola, Alcácer do Sal, Santarém) tinham grande importância comercial, pois permitiam fazer chegar produtos do interior ao litoral, e vice-versa.
Bem, a importância é sempre discutível. Porto e Gaia (Portus-Cale) eram um importante centro comercial e Bracara Augusta tinha sido a capital da Galécia e feita cidade arquiepiscopal muito cedo (confesso que não sei se já com os Suevos). Mas Coimbra desenvolveu-se muito durante a ocupação muçulmana. Calcula-se que teria cerca de 5.000 habitantes ao tempo do condado Portucalense de D. Henrique e D. Teresa. O Porto teria apenas cerca de 1.000 e Braga ainda menos. Mas é verdade que o centro comercial Portus-Cale dominava toda uma região: o Entre-o-Douro-e Minho, essencialmente rural (região que não incluía o nordeste transmontano).
Coimbra era a única cidade do condado com uma alcáçova, ou seja, uma área muralhada dentro da cidade, onde vivia a elite muçulmana (fora Coimbra, só Santarém e Lisboa, além das cidades alentejanas e algarvias, tinham alcáçova – do árabe “al-qasaba”). O desenvolvimento das cidades sob domínio muçulmano ultrapassava grandemente o das cristãs. Já D. Teresa formara uma corte na alcáçova de Coimbra e o filho, assim que se viu senhor do condado, foi aí que se estabeleceu. Aliás, o conflito entre mãe e filho reacendeu a rivalidade entre o condado Portucalense e o condado de Coimbra e, não fosse a vitória de D. Afonso Henriques em São Mamede, poderia ter-se verificado nova divisão.
Da alcáçova de Coimbra, nada sobreviveu, mas parece certo que se situava no local da Universidade velha.
Já lá fui espreitar, é sempre interessante ver a História por trás de coisas que nos parecem mundanas, de tal modo que nem lhes prestamos devida atenção.
Fiquei a saber que tenho por trás de mim umas (reproduções de) gravuras famosas, pelo que fico habilitado a participar em conferências via skype.
De qualquer modo, Coimbra bem precisa de olhar para o presente e futuro, e não tanto para o passado.
Coimbra bem precisa de olhar para o presente e futuro, e não tanto para o passado
Todas estas cidades que no passado foram muito importantes por se encontrarem no ponto-limite de navegabilidade de um rio (Mértola, Alcácer do Sal, Santarém, Coimbra) estão atualmente em crise. Aquilo que outrora lhes dava grande importância (a navegabilidade do rio até esse ponto) deixou de existir ou de fazer sentido. E as cidades desde então arrastam-se, sombras do que outrora foram.