O conflito Arménia-Azerbeijão.


Luís Menezes Leitão,

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Em 2014 fizeram-me a proposta aliciante de na Páscoa fazer uma viagem pela região do Cáucaso, repetindo o percurso de Calouste Gulbenkian em 1890, que o levou a escrever a obra La Transcaucasie et la Péninsule d’Apchéron: souvenirs de voyage. Apesar do trabalho intenso no escritório, que me levou a ter que atender telefonemas durante toda a viagem, não resisti à tentação e lá embarquei numa viagem que me levaria a percorrer sucessivamente a Turquia, a Geórgia, a Arménia e o Azerbeijão.

A viagem foi absolutamente fascinante, mas logo à chegada à Arménia a guia local fala-nos do problema do Nagorno-Karabakh, queixando-se de que a comunidade internacional não reconhecia a sua independência, apesar de autoproclamada, mas que o enclave tinha um governo próprio e até uma bandeira, praticamente igual à da Arménia. Nessa altura, o nosso guia acompanhante avisou-nos que o Azerbeijão tinha sido o único país da viagem a exigir visto de entrada e que uma das perguntas era precisamente se alguma vez tínhamos estado no Nagorno-Karabakh. Nessa altura manifestei logo a minha apreensão por irmos para o Azerbeijão com um passaporte carimbado na Arménia, mas o guia disse que não havia problema.

Percorremos de autocarro praticamente toda a Arménia até à fronteira para o Azerbeijão, mas estava combinado que não a atravessaríamos e que teríamos que regressar a Tblissi na Geórgia e daí apanhar um avião para o Azerbeijão. A guia arménia avisa-nos que quem se aproximasse da fronteira, se tivesse sorte seria abatido a tiro, se tivesse azar seria preso e torturado.

Viajámos assim de avião para Baku, e no controlo dos passaportes o polícia pergunta-me tranquilamente se vim no avião de Tblissi. Respondo afirmativamente e ele começa a folhear as páginas do passaporte, mas quando descobre o carimbo da Arménia desata aos gritos: “Armenia, Armenia!”. Sou imediatamente cercado por um conjunto de oficiais, que me pergunta o que venho fazer ao Azerbeijão e por que razão tinha estado na Arménia. Só depois de ter explicado que estava a fazer uma viagem turística por todos os países do Cáucaso e que não queria naturalmente omitir um país tão importante como o Azerbeijão é que me deram as boas-vindas ao Azerbeijão.

O ódio entre os dois países é tão evidente que é quase impossível compreender como é que alguma vez fizeram parte do mesmo país, a União Soviética. Em ambos os países se encontram monumentos de homenagens aos mártires causados por atentados com origem no outro país. Elucidativo foi, no entanto, ver em Erevan um monumento à amizade entre o povo russo e o povo arménio, enquanto que em Baku havia um monumento semelhante, mas dedicado à amizade entre o povo turco e o povo azeri. Desde essa altura que achei que o conflito entre estes dois países seria sempre também um conflito entre a Turquia e a Rússia por interposta pessoa. Acho que a situação actual o confirma.

9 comentários em “O conflito Arménia-Azerbeijão.”

  1. “Desde essa altura que achei que o conflito entre estes dois países seria sempre também um conflito entre a Turquia e a Rússia por interposta pessoa. Acho que a situação actual o confirma.”

    Não me parece que seja tão simples como isso.
    Devido à, na minha opinião errada, política europeia (leia-se alemã) de impedir a Turquia de aderir à UE, o encanto turco com Europa, basicamente uma criação de Ataturk, desvaneceu-se e acabou por desaparecer com Erdogan.
    Erdogan é um populista e tem necessidade de afirmar um papel internacional para a Turquia mas receia com razão, um conflito imediato com o Irão. Por isso parece procurar um estatuto de independência face aos super-poderes tradicionais na região, EUA e Rússia sem choque imediato com o Irão.

    Erdogan já afrontou os EUA e a NATO quando comprou os mísseis S-400 à Rússia mas sem fechar a porta à compra dos F-35 americanos e ao mesmo tempo, mostrando interesse nos SU-35 russos.
    A Turquia esteve sempre ao lado do Azerbeijão e este conflito em Nagorno-Karabakh, tal como o da Líbia, permite-lhe afirmar-se como potência regional sem conflito imediato com o Irão, onde, aliás, reside a maioria do povo azeri.

    A posição da Rússia é muito mais complicada. É aliada dos arménios, que são cristãos, mas não deseja aparecer como inimiga declarada dos xiitas. Ou seja, ao contrário da Turquia que intervindo directamente – a sua força aérea já abateu um avião arménio – não arrisca consequência de maior uma vez que já desistiu da Europa e os americanos ainda têm esperança de lhes vender os seus F-35, a Rússia arrisca consequências inconvenientes na Síria. Por outro lado, a aliança arménia terá muito menos interesse estratégico de que o enfraquecimento da NATO, pelo afastamento da Turquia. Tudo motivos para não desejar qualquer confronto com a Turquia.

    Neste quadro muito complexo, o desinteresse da administração Trump que já se adivinhava quando nomeou um funcionário que nem era embaixador para a Troika no grupo de Minsk – que pretendia mediar o conflito de Nagorno- Karabakh – deixa a Rússia numa posição delicada, pois sem os EUA, não teria relevo uma maior intervenção da França ou seja, também não parece ser ao nível da OSCE que o conflito poderá ser mediado.

    Abstraindo dos que sofrem directamente com a guerra e por quem lamento sinceramente, parece-me um xadrez político empolgante e de resultado imprevisível.

  2. À força de importar para a Europa os “ingredientes de uma guerra civil” acabaremos mesmo por ter uma guerra civil portas adentro da Europa.

  3. Parabéns, pouca gente se apercebe do que se está a passar, bem como do potencial para escalar fortemente, e internacionalmente.E parecem haver outros focos a despontar.
    Eu sou apenas um “coleccionador de coincidências”. 2020 tem sido excepcionalmente fértil.
    Deixe-me cumprimentá-lo pela sua visão para além da cortina de fumo que nos é imposta pelos “media” que nada mais fazem que vender medo do bicho mau e “reality shows” e esqueceram o jornalismo.
    Uma nota curiosa: o internamento de DJT despoletou de imediato (protocolo militar ?) a decolagem de um segundo E-6B “Doomsday Plane”.
    “‘Doomsday plane’ flights preplanned, not tied to Trump COVID-19 diagnosis, Pentagon says”
    https://www.washingtontimes.com/news/2020/oct/2/doomsday-plane-flights-preplanned-not-tied-trump-c/

  4. O ditador Recep Tayyip Erdoğan quer reerguer o império Otomano também conhecido como Império Turco ou Turquia Otomana. Mesmo que tenha de repetir outro massacre. Um número total de pessoas mortas como resultado do genocídio é estimado entre 800 mil e 1,5 milhão durante a I Guerra Mundial.

  5. Uma “proxy war”. Mas a causa não são gaseodutos? Há a Rússia e a Turquia, mas também há a China. E já li que há um grande problema com os rios, a disputa pela água.

  6. A minha postura é a mesma : grato pela partilha.

    Mas contava ler informaçao sobre o que os divide.

    (claro que li a simpatia de uns por y e outros por z, e os atentados, mas é pouco, ou nada )

  7. quanto ao mapa : a parte escura que cerca Nagorno é de exclusao ?

    E depreendo que o enclave a laranja seja pertença de Azerbaijan.

    1. A parte escura corresponde a território exterior ao Nagorno-Karabach ocupado pela Arménia, uma vez que o Nagorno-Karabach, embora com população arménia, não tem fronteira com a Arménia.
      O enclave a laranja é o território do Nakichevan, que pertence ao Azerbeijão, embora não tenha fronteira com ele, mas antes com a Arménia.

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