O comentário da semana


Pedro Correia,

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«Temos uma herança literária riquíssima, disso não há dúvida. Mas o adolescente de hoje não é o mesmo de há 30, 40 ou 50 anos.

Até acho que hoje demoram mais a crescer, são demasiado protegidos e ganham maturidade mais tarde. Antigamente o adolescente tornava-se “homenzinho ” mais cedo. Isso fazia com que compreendesse e retirasse dos livros outros valores, que os incorporasse, identificando-se com a obra.

Isto para dizer o quê? Para dizer que o fomento da leitura, que se dá normalmente entre os 14 e os 18 anos, deveria ser progressivo. As obras escolhidas pelos planos nacionais de leitura, apesar da sua riqueza e valor, não são atractivos para os jovens de hoje. Isso acaba por se reflectir no gosto pela leitura. Os jovens criam resistência. A leitura é vista como uma seca.

 

Em 2014, um liceu do Novo México optou por uma estratégia diferente. Alterou os agendamentos das obras literárias curriculares. Começou a fomentar a leitura de forma gradual, com livros e autores que jamais constariam nas listas leccionáveis. Quebrou inclusive a barreira dos autores ingleses e americanos, fazendo constar também obras de autores de língua estrangeira, como Gabriel García Márquez ou Erich Maria Remarque. Sugeriu aos alunos lerem livros de James Bond, Daniel Silva ou Lee Child e o seu Jack Reacher. Depois foram introduzindo obras cada vez mais complexas e mais exigentes. Mas o bichinho já lá estava e os alunos evoluíram naturalmente e ofereceram muito menos resistência. Aos alunos da middle school deram-lhes Enid Blyton e Os Cinco, depois Harry Potter.

Claro que os intelectuais avisparam-se. Nos EUA, além do inglês, existe a disciplina de literatura inglesa e constar dos planos autores do circuito comercial foi [algo] criticado por algumas personalidades. Mas o certo é que trouxe resultados. Os alunos gostaram, melhoraram os seus resultados e ganharam gosto pela leitura, que teve continuidade.

 

Este exemplo foi mais tarde copiado por uma universidade inglesa, também com bons resultados.

Porquê não optar aqui pela mesma estratégia? Por muito que custe a muita gente, as obras dadas a partir do 7.° ano, com excepção de uma outra, são uma seca para as crianças. As crianças não se sentem motivadas para ler. Ao passo que se se começasse por obras atractivas para os jovens e que os seduzissem, poder-se-ia introduzir gradualmente outras de maior valor literário.»

 

Do nosso leitor O Inconveniente. A propósito deste meu texto.

23 comentários em “O comentário da semana”

  1. Estou totalmente de acordo com o exemplo apresentado, a fim de estimular a leitura nos jovens.
    Mas não gosto da expressão “homenzinho”, desculpe.
    E o “homenzinho” engloba a “mulherzinha”?

    1. Sim, e “o” adolescente engloba “a” adolescente? Acho bem que se adopte a (ou “o”) correcção identitária, até porque uma menina pode muito bem vir a ser um homenzinho. Mas como resolver a questão (e porquê “a” questão) quando se diz “a” juventude? É certo que também se diz “os” jovens, será que contrabalança? Será que é assim tão importante?

      1. ” É certo que também se diz “os” jovens,”
        Penso que a construção de uma Novilíngua é tarefa difícil e que leva muito tempo, talvez séculos e o resultado, por norma, é diferente do que se pretende. Já houve tentativas que fracassaram. Acho que esta ideia de alterar a Gramática do modo como está a ser feito vai fracassar e tornar-se ridícula (já muita gente se ri e ironiza). Não é pela Gramática que se ultrapassa a secundarização da mulher. As alterações gramaticais vão ser consequência e não causa. É frequente, quando se quer alterar alguma coisa, começar-se pelas consequência (é mais fácil) e não pelas causas. Não resulta.

          1. “têm uma linguagem naturalmente neutra no género.”
            E os que têm 3 géneros (alemão, russo,etc.). Sem falar de línguas que têm outras esquisitices. Tem tudo de ser alterado. As mulheres vão ter uma luta árdua. Oxalá sejam bem sucedidas. Terão de existir muitos linguistas a colaborar. Se calhar alteram a Gramática e … tudo fica na mesma (o diabo seja surdo, cego e mudo).

      2. Quando, perante um texto como este, creio que muito justamente merecedor do destaque obtido, se invoca essa “magna questão” do género (absurda, lamento, face à dimensão daquela outra de que ele, o comentário, se ocupa; aliás géneros, creio, tem a literatura – e vários -, de resto há dois sexos), só posso perguntar se além da mulherzinha se engloba também, o(a) tranzinho, o(a) bizinho, o(a) queerzinho e sei lá que mais.

        Anda de rastos, coitado, o bom senso. Brave new world, enfim.

        Costa

        1. Caros Costa e Anónimo das 15:18
          As vossas observações fazem-me lembrar da Medicina Homeopática em que se ataca o que não interessa e se esquece o essencial. Ou, continuando com a Medicina: por vezes atacam-se os sintomas e deixa-se a doença.
          Isto de ir pela Gramática (caminho condenado á risota) também me faz lembrar o dito “é preciso mudar alguma coisa para que tudo fique na mesma”. Ir ao que importa é muito difícil e a luta pela parte folclórica é mais vistosa.

        2. Caros Costa, António, Zeca e Anónimo das 15:18:

          Sim: os homens inclui as mulheres; os adolescentes inclui as adolescentes, os jovens inclui as jovens. Mas “homenzinho” inclui “mulherzinha”? Como nunca tinha ouvido, fiquei na dúvida e perguntei ao autor do comentário. Apenas isso. Escusavam de ficar tão abespinhados!

          1. Minha senhora, sejamos sérios. A senhora é portuguesa, deduzo do que de si leio, ainda que vivendo há muito tempo fora de Portugal (novamente pelo que de si vou lendo). E manifestamente não é exactamente iletrada. Bem pelo contrário. Saberá muito bem o significado de “homenzinho” no contexto em que foi escrito. Terá as suas opiniões, muito legitimamente diversas das minhas. Por favor não se insulte

            Costa.

          2. ” Escusavam de ficar tão abespinhados!”
            Penso que abespinhado não é a palavra própria. Há apenas diferenças de opinião sobre o que e como fazer.

          3. Confesso que não acho pertinente esta nova ordem social. Mas tenho de aceitar quem se sente ofendido, diminuído, desprezado, ou injustiçado.
            Acho que é um bocadinho picuinhas, mas as minhas desculpas se ofendi algum leitor.
            Respondendo à sua questão, note antes de mais que a palavra em causa está entre aspas. Ora as aspas servem para, entre outras coisas, indicar um sentido diferente, ou mais abrangente, do que a palavra em si.
            Mais ainda, na mesma frase, falo de os adolescentes. Ora, não sendo um conhecedor profundo da língua portuguesa, penso que ao falar em os adolescentes, teria necessariamente de utilizar a palavra homenzinhos. Masculino com masculino.
            Acho que ainda se utiliza o masculino para se generalizar. Compreendo que haja pessoas que não gostem particularmente. Para mim é um não assunto e um exemplo da riqueza e variedade da língua portuguesa.
            Mas compreendo-a. No seu lugar também gostaria mais de homenzões, do que de homenzinhos.

          4. Estava então a pensar nos dois géneros e não apenas em metade da humanidade. Obrigada pelo esclarecimento. Acrescento, porém, que na frase em questão, não era obrigado a usar apenas o masculino para a escrever gramaticalmente correcta. Podia muito bem dizer: «Antigamente o adolescente tornava-se “homenzinho” ou “mulherzinha” mais cedo». Até porque, quando se diz Homem como sinónimo de humanidade, se deve escrever com letra maiúscula. Ora, sendo ridículo escrever “Homenzinho”, penso que não custava nada ser mais abrangente.

            Mas adiante: de qualquer maneira, detesto as palavras “homenzinho” e “mulherzinha”. Há bebés, crianças, adolescentes/jovens e adultos. Não sei o que são homenzinhos nem mulherzinhas (embora até haja um livro com esse título, resultado aliás da tradução portuguesa).

            Mas já agora reitero que subscrevo inteiramente a sugestão apresentada, a fim de despertar o gosto pela leitura nas crianças e nos jovens.

          5. Obrigado… ou obrigada

            Vou tomar nota e tentar passar a ser mais abrangente. E quando não for, agradeço o alerta.

          6. “Vou tomar nota e tentar passar a ser mais abrangente”
            Utilize aquela coisa das palavras terminadas na letra grega alfa. Nem a nem o. É feio, concordo, mas o pessoal do politicamente correcto cala-se.
            Como é que farão em russo e em alemão com os 3 géneros? Eles que se amanhem, não é connosco.

  2. Pois, há 50 anos….
    Há 50 anos a rapaziada ainda tinha o hábito de ir para o café ler o jornal e fazer as palavras cruzadas, talvez fosse mais “A Bola” mas mesmo assim lia um jornal. E também havia quem se sentasse a beber um café e a ler um livro.
    Mas já se estava a entrar naquela do ‘é proibido’ nos cafés: é proibido fazer malha, é proibido estudar, é proibido ler o jornal.
    Também nos transportes públicos, principalmente nos comboios suburbanos, havia o hábito de ler o jornal da tarde e muitos passageiros aproveitavam a viagem para ler um livro.
    Agora, talvez seja utilizado o tablet pra ler as notícias da treta.

  3. É uma abordagem interessante para a resolução dum problema que já dura há décadas. Duvido da sua aplicação, não só pela resistência em alterar o “syllabus” como também pela falta de formação dos professores.
    O acordo ortográfico é um exemplo de como foi seguido pelas escolas.

  4. Quando era puto lia Júlio Verne, já tinha lido as colecções dos 5 e dos 7, mais a Aventura, e ia coleccionando uns clássicos: Alice, Tom Sawyer.
    Ter que mamar Eça ou Pessoa aos 12 anos servia para quê?
    O que não falta são livros atraentes para miúdos e adolescentes, e com temas que lhes interessem. Policiais, ficção científica, até banda desenhada. A minha pequena já leu uns estrumfes, yakari, passou pelo Garfield e pela Mafalda.

    1. O que interessa é dar às crianças o gosto lerem livros (físicos) em conformidade com a idade, e se apanharem o gosto da leitura vão se interessando pelos livros.
      Aos 12 anos ler livros de Alexandre Dumas é provável ser mais interessante que de Eça de Queirós, no entanto o “A Relíquia” até seria lido com muito interesse.

    2. “quando era puto lia Júlio Verne” Esta do puto é que embaraça os do politicamente correcto. Bote um alfa e resolve tudo. Assim nasce uma nova língua.

  5. Muito bem . Comecei assim também. Primeiro Andersen e irmãos Grimm , La Fontaine , as Mil e Uma Noites ( fabulosas) e depois a Enid… e depois milhares e milhares de “histórias em quadradinhos” , algumas delas versões curtas de clássicos , por exemplo Ivanhoe ou A ilha do Tesouro.

    1. O seu comentário recordou-me uma BD que li centenas de vezes, o Ivanhoe.
      Lembro-me ter começado a ler os patinhas, ainda em português do Brasil, da editora Abril.
      Depois veio o Asterix, o Ivanhoe e o Robin dos Bosques.
      Com 9 anos peguei pela primeira vez n’Os Cinco. O n°2, Nova Aventura d’Os Cinco. Li-o em dois dias. Depois devorei-os todos.
      O bichinho já lá estava, foi só continuar a ser alimentado. Passei ao Triângulo Jota e fiquei por aí, no que respeita a literatura infanto-juvenil.
      Nessa altura, o meu avô que era um fã da Coleção Vampiro e que me deixou de herança a coleção que juntou durante a sua vida, abriu-me as portas da literatura criminal. Os livros eram de fácil absorção. Lia-se rapidamente, o ritmo era intenso, os suspense prendia. Quanto mais se lia, mais vontade se tinha de saber como desvendar o crime.
      Quando na escola a literatura passou a ser obrigatória, o trabalho estava feito. O gosto estava lá, a maturidade literária avançava, por isso não estranhei, nem criei obstáculos.
      Hoje em dia, com tantas distrações disponíveis, mais rápidas, menos trabalhosas e cada vez mais atrativas, só na escola é possível adquirir o gosto pela leitura. E é preciso começar devagar, é preciso seduzir o jovem e fazê-lo apaixonar-se por um livro, uma história. A partir daí, da primeira paixão, eles próprios continuam o seu caminho.

      1. Muito engraçado , tenho um percurso muito infantojuvenil muito parecido. Lembro-me de a minha mãe apagar a luz no quadro por minha causa e de eu , com uns 8 ou 9 anos , ir para a janela acabar de ler aventuras dos 5 à luz do letreiro dum restaurante ao lado de casa. os vampiros devorei-os , ainda gosto imenso de policiais. Depois passei para Steinbeck, , London , Dumas , sei lá , foi tão bom -:)

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