Penso rápido (98)


Pedro Correia,

Demasiadas pessoas passam um ano sem ler um livro, seja de que género for. Há gente que se gaba até de nunca ter aberto um livro desde os bancos escolares. Há indivíduos que nunca folheiam sequer uma revista, excepto nas salas de espera dos consultórios médicos. Muitos eleitores presumem andar informados e esclarecidos passando ao lado de conteúdos certificados pela deontologia jornalística: preferem imaginar o que se passa espreitando tuítes da trincheira mais próxima, vídeos acéfalos na Rede ou o primeiro boato que lhes é remetido através de compinchas no WhatsApp. 

Alguém que jamais trocaria o cirurgião pelo curandeiro, o hotel pela pensão manhosa ou o produto de qualidade pela quinquilharia do chinês prefere “informar-se” recorrendo às versões digitais da intriguista do prédio, do bisbilhoteiro do bairro ou do tasqueiro fala-barato.

Quando se fala na degradação da cidadania, não podemos culpar só os políticos. Há que começar a apontar o dedo a quem anda desinformado e ainda se orgulha disso.

49 comentários em “Penso rápido (98)”

  1. conteúdos certificados pela deontologia jornalística

    Uau, que expressão grandiosa!

    A deontologia jornalística anda pelas ruas da amargura. Já bem pouca “certificação” pode oferecer!

  2. O problema também passa muito pelo processo de certificação de conteúdos pela deontologia jornalística. Já não é o que foi.
    Tenho a teoria de que se os jornais tentassem imitar menos as redes sociais, teriam mais leitores. Poderiam não ser *todos* e não alcançar os fanáticos do Feice, mas teriam mais. E fiéis.

    1. O mote “se não podes vencê-los junta-te a eles”, nestes casos, será um erro lapidar. Mais um, somado a tantos outros – dos “jornais gratuitos” aos “conteúdos abertos” na Rede. Com os resultados que sabemos: quase todas as empresas jornalísticas se foram descapitalizando com estas disparatadas tentativas de fuga para diante.

      1. Eu sei porque desisti ser assinante de jornais digitais, foi pela barreira de publicidade que não desaparece quando se é assinante. Não sei como está a situação agora, mas perco a vontade de responder aos apelos para assinar, justamente porque não consigo encontrar informação sobre se vou ficar livre de anúncios. O único jornal digital que assinei e que valeu a pena foi o Finantial Times, nos idos de 2008, para tentar perceber o que estava a acontecer à economia – e era um monstro, uma enciclopédia, creio que podia passar 24 horas por dia a ler e não lia tudo.
        O problema da publicidade, para mim, é o primeiro. A qualidade de informação é outro, muito jornalismo é opinião, quando deviam ser factos. A opinião formo-a eu, muito obrigado.

          1. Não estou a perceber se há algum problema, deontológico ou de outra natureza, que o impede de me dar umas dicas. Não me está a ajudar.

          2. A lista seria enorme.
            Limito-me alguns, a título de exemplo.

            O jornal “Ponto Final”, que se publica em Macau.
            https://pontofinalmacau.wordpress.com/
            “A Semana”, de Cabo Verde.
            https://www.asemana.publ.cv/
            O “Novo Jornal”, angolano.
            http://www.novojornal.co.ao/
            “O Estado de S. Paulo”, referência do jornalismo brasileiro.
            https://www.estadao.com.br/

            Costumo ler “El Nacional”, da Venezuela.
            https://www.elnacional.com/
            E “La Prensa”, da Nicarágua.
            https://www.laprensa.com.ni/
            Sem esquecer o “Clarín”, histórico título argentino.
            https://www.clarin.com/
            Sou leitor regular do “South China Morning Post”, que se publica em Hong Kong.
            https://www.scmp.com/

            Em Espanha, “El País”.
            https://elpais.com/
            E “El Español”.
            https://www.elespanol.com/
            Em França, “Le Figaro.
            https://www.lefigaro.fr/
            Em Itália, “La Repubblica”.
            https://www.repubblica.it/
            Em Inglaterra, “The Guardian”.
            https://www.theguardian.com/international

            E muitos mais.

          3. Numa altura em que a América é o centro das atenções e onde a influência descarada dos media se faz como em nenhum outro lugar, ou tempo, num regime democrático, sugiro, se m2 permite, alguns órgãos CS onde poderá beber informação isenta, sem agendas nem influência.
            Alguns apenas reportam factos, outros poderão conter opinião. Mas a diferença é que por cada opinião, publicam a contraponião. O que para o leitor é muito esclarecedor. Permite-lhe criar a sua própria ideia sobre um assunto, sem lhe ser omitido nenhum dado.
            PBS e AXIOS. Para notícias diretas. Facts only.

            THE INTERCEPT E REVEAL. Contêm por vezes artigos de opinião. Mas fazem um esforço para publicar artigos de diferentes prismas do mesmo problema.
            E se quiser, os jornais de tiragem local americanos também são bastante bons. Ainda não sofreram as pressões normais, por causa da sua pequena tiragem. Mas grandes jornalistas nascem nesta imprensa.

  3. Sem dúvida que seria uma grande ajuda na formação ética e cívica do cidadão.
    Permita-me no entanto expor aqui um factor, que na minha opinião pode contribuir para a falta de apetite para a leitura dos portugueses.
    Temos uma herança literária riquíssima, disso não há dúvida. Mas o adolescente de hoje não é o mesmo do há 30, 40, ou 50 anos atrás.
    Até acho que hoje demoram mais a crescer, são demasiado protegidos e ganham maturidade mais tarde. Antigamente o adolescente tornava-se “homenzinho ” mais cedo.
    E isso fazia com que compreendesse e retirasse dos livros outros valores, que os incorporasse, identificando-se com a obra.
    Isto para dizer o quê? Para dizer que o fomento da leitura, que se dá normalmente entre os 14 e os 18 anos, deveria ser progressivo. As obras escolhidas pelos planos nacionais de leitura, apesar da sua riqueza e valor, não são atrativos para os jovens de hoje. E isso acaba por se refletir no gosto pela leitura. Os jovens criam resistência. A leitura é vista como uma seca.
    Em 2014, um liceu do Novo México optou por uma estratégia diferente. Alterou os agendamentos das obras literárias curriculares e tentou uma nova estratégia. Começou a fomentar a leitura de forma gradual, com livros e autores que jamais constariam nas listas lecionáveis. Quebrou inclusive a barreira dos autores ingleses e americanos, fazendo constar também obras de autores de língua estrangeira, como Gabriel Garcia Márquez ou Erich Maria Remarque. Sugeriu aos alunos lerem livros de James Bond, de Daniel Silva, ou Lee Child e o seu Jack Reacher. Depois foram introduzindo obras cada vez mais complexas e mais exigentes. Mas o bichinho já lá estava e os alunos evoluíram naturalmente e ofereceram muito menos resistência. Aos alunos da middle school deram-lhes Enid Blyton e Os Cinco, depois Harry Potter. Claro que os intelectuais avisparam-se. Nos EUA, para além do inglês, existe a disciplina de literatura inglesa e constar dos planos autores do circuito comercial, foi criticado por algumas personalidades.
    Mas o certo é que trouxe resultados. Os alunos gostaram, melhoraram os seus resultados e ganharam gosto pela leitura, que teve continuidade.
    Este exemplo foi mais tarde copiado por uma universidade inglesa, também com bons resultados.
    Porquê aqui não optar pela mesma estratégia?
    Por muito que custe a muita gente, as obras dadas a partir do 7° ano, com excepção de uma outra, são uma seca para as crianças. As crianças não se sentem motivadas para ler. Ao passo que se se começasse por obras atrativas para os jovens e que os seduzisse, poder-se-ia introduzir gradualmente outras de maior valor literário. É uma ideia apenas. Mas que achei muito positiva na altura.

    1. Para completar o meu comentário, devo referir que desde 2014 para cá, vários autores foram entretanto retirados do projeto. Daniel Silva e Nelson deMille, após algumas queixas da comunidade muçulmana, foram deixados de parte, apesar de serem autores best sellers.
      Mas seja como for, não deixa de ser curioso e estimulante, ver-se escolas a sugerirem aos alunos que leiam Jeffrey Archer, Michael Crichton, Stephen King ou John Grisham.
      Aqui poderíamos tentar algo do género e até com autores portugueses. Os bet sellers não são best sellers por acaso. Podemos não apreciar, mas provavelmente um adolescente iria gostar do ritmo, do suspense, do assunto de uma qualquer obra de José Rodrigues dos Santos, ou do Equador, ou do Rio das Flores.
      Para o bem dos jovens e das futuras gerações, é tempo de quebrar tabus intelectualóides e de evitar as cunhas de certas editoras e personalidades no ministério da educação.

    2. Sempre me estive (inserir expressão do Exmo Presidente da AR) para o Plano Nacional de Leitura.
      A minha filha sempre teve diferentes interesses, portanto tentei arranjar-lhe livros de acordo com esses interesses.
      Já comeu os Harry Potters, boa parte d’Aventura, gostava de princesas Disney, toma lá a Alice no país das maravilhas, Irmãos Grimm e tudo quanto era contos e fábulas, hoje anda embeiçada pelo Percy, portanto está virada para a mitologia, já lá tem a Odisseia para ler.
      Obrigar os putos a lerem algo que não lhes interessa vai dar ao certo em quê? Se os miúdos têm a mania que são góticos, leiam Poe, se gostam de histórias de amor, leiam os Maias, se gostam de fantasia existe o Senhor dos Anéis.

      1. Essa é precisamente a minha opinião. No projeto que mencionei, os alunos não eram obrigados a lerem todos as mesmas obras. Tinham um leque variado de livros e escolhiam aqueles de que mais gostavam. Não raramente experimentavam vários estilos e assuntos.
        Claro que isto dava mais trabalho aos professores que eram obrigados a estudar e a ler várias obras. Mas o ensino é completamente diferente do português. Melhor ou pior, não vou tecer comparações, mas o facto de um professor ser contratado por determinada escola e o seu contrato não ser vitalício e estar sujeito a avaliações, que de facto trazem consequências, positivas ou negativas, resulta obviamente numa dedicação e aplicação superiores por parte dos docentes. O ensino é mesmo só para quem o ama. Só quem o ama tem um futuro garantido e de sucesso no ensino.
        Mas isso são outros assuntos.

  4. Bom dia Pedro Correia.
    Exactamente. Nada de fazer como o hipopótamo – coitadinho do crocodilo com uma boca tão grande! Saúde.
    António Cabral

  5. O problema é mais complexo do que parece.
    Apesar de haver inúmeros factores a contribuir para a falta de leitura, há dois que são fundamentais; o programa escolar e o corpo docente. Enquanto não houver uma formação adequada para adaptar o corpo docente às novas gerações, bem podem pôr os livros e as obras mais apelativas que não funciona. Quer dizer, funciona como está.

    1. Tem razão, mas o problema de fundo começa antes disso: em casa, com os maus exemplos que muitas vezes os pais dão. Neste caso, por omissão.
      Uma criança que nunca viu a mãe ou o pai ler um livro em casa tenderá a mimetizar esse comportamento.

      1. Podemos também pôr na equação os meios de dispersão ou distracção.
        Nasci no ano da televisão em Portugal, nessa altura o conhecimento do mundo era escasso e filtrado pela comunicação social. Na escola tínhamos a mocidade portuguesa e tínhamos de levar com a xaropada dos clássicos.
        Veio o 25 de Abril, as passagens administrativas para a faculdade e muita confusão.
        Mais tarde aparecem os computadores e na escola é proibido o uso de máquina de calcular mas continua a xaropada dos clássicos.
        Neste momento temos os telemóveis, a informação é instantânea e ao alcance da mão mas na escola os putos continuam a enfardar os clássicos.
        Por muito que o ambiente em casa seja propício à leitura e por muito boa vontade que a criança tenha, se tiver professores que passam as aulas a encher chouriços dificilmente essa criança resistirá ao apelo das novas tecnologias.

        1. Não sei o que entende por “xaropada dos clássicos”. Eu no ensino secundário estudei “Os Lusíadas”, as “Viagens na Minha Terra” e “Os Maias”. Clássicos, sem dúvida. Mas obras imprescindíveis.
          A escola serve também para isto: para nos revelar os clássicos. Para ler BD e livros de aventuras eu não precisaria da escola para nada.

          1. Nunca entendi porque é que os alunos de ciências tinham de ter a mesma exigência a português que os alunos de letras se os alunos de letras não tinham a mesma exigência a matemática que os alunos de ciências.
            Você gostava de ler os clássicos, tudo bem. Eu gostava mais de matemática e desenvolvi o meu gosto pela leitura muito mais tarde porque só o facto de me obrigarem a ler eliminava qualquer tipo de prazer.
            Penso que se passaria o mesmo consigo se fosse obrigado a estudar lógica matemática, integrais e algoritmos.
            Da forma como o ensino está estruturado é muito difícil criar motivação nos alunos para não falar da falta de preparação dos professores.

          2. Há um tronco comum nas chamadas disciplinas humanísticas que deve ser veiculado e transmitido aos miúdos. Só assim podem verdadeiramente desenvolver a sua vocação. O mesmo se aplica às disciplinas científicas. Compete aos programas escolares preverem isso.
            Nivelando por cima, não por baixo. Para nivelar por baixo, infelizmente, já basta o que os miúdos aprendem (ou desaprendem) fora da escola.

          3. Então mas não foi isso que fizeram com a matemática quando criaram os métodos quantitativos? Porque não fazer uma coisa semelhante com o português?
            Será que não estaremos a nivelar por baixo quando estamos a obrigar os miúdos de ciências a ler obras com uma grafia antiquada e depois fazer os testes ao abrigo do novo acordo ortográfico?
            O tipo de ensino não pode ser o mesmo que eu tive há 50 anos. Continua a ser dividido da mesma maneira, três períodos, dois testes por período e avaliação descendente.
            O mundo mudou, as gerações são diferentes, os métodos de ensino têm de ser forçosamente diferentes. Não podemos exigir que as crianças estejam focadas quando os meios de dispersão são enormes e não fazemos o mínimo esforço para alterar os métodos de ensino.
            Não tem a ver com o nivelar por baixo ou por cima. É apenas compreender que houve uma grande evolução tecnológica e tentar adaptar o ensino às novas gerações.

  6. «Deontologia jornalística»? Caro Pedro, com todo o respeito que tenho por si – é muito – não o sabia humorista. Ou cínico, vá (seria preferível, mas isso é outro debate).

    1. Sim, caro Luís, deontologia jornalística.
      Onde não há ética nem deontologia de espécie alguma é nas “clocas sociais” – começando pelo anonimato de 90% de quem lá bolça injúrias e dislates e terminando na total incapacidade de distinguir entre facto e boato.

    2. Para resguardar Costa não se olham as manhas e rodeios que Rio não esconde.
      É ou não verdade abafada, que o líder PSD afirmou que o Estado deve cumprir a sua parte do contrato, depois da verificação-auditoria em curso, que a outra parte, Novo Banco, cumpriu corretamente o estabelecido?

  7. Boa tarde, Pedro.
    Aqui passando de fugida, deixo uma sugestão de leitura, Iron Curtain: The Crushing of Eastern Europe 1944-56, Anne Applebaum.

    Esclarecedor, muito bom.
    Grande abraço
    Fernando Antolin

  8. Com o Acordo até é bom que não leiam em Português! Aquela ortografia socialista não transmite nenhum tipo de conhecimento, apenas o cocó fumegante desses canalhas suburbanos.

  9. Leopedro
    ‘Alguém que jamais trocaria……..’ (todo o parágrafo) é o desejável constatar.
    O problema são os vendedores de calcitrim e os eternos do palavra d’honra qu’é verdade sou eu que lhe digo, conseguirem enganar desinformando em momentos de confusão, sejam de crises sistémicas ou, agora, pandémica.

  10. Nunca li um livro na vida!
    Tirando tv guia revista olá. E não é por aí que sou menos culta, olhando para estes escritos, fico admirada com a pobreza de ideias.
    Como diria o meu ti Zé , vão mas é plantar batatas!!!

  11. O pessoal político é somente a expressão mais exposta do povo que somos. Os primeiros são do pior que podemos ter, aliando ao atávico analfabetismo funcional a maior arte da manha com que se arreiam.

  12. “informar-se” recorrendo às versões digitais da intriguista do prédio, do bisbilhoteiro do bairro ou do tasqueiro fala-barato.”

    É uma vergonha numa altura de dificuldades! O senhor querer acabar com o tradicionalismo popular, insurgindo-se de forma injuriosa contra estes dignos representantes da informação fidedigna, bem mais deontológica do que alguns jornaleiros do boato e da maledicência.

    Alberta Cruz

  13. «Quando se fala na degradação da cidadania, não podemos culpar só os políticos. Há que começar a apontar o dedo a quem anda desinformado e ainda se orgulha disso.»
    E então onde é que está o dedo apontado aos que, a coberto de reclamarem a suposta inocência de que apenas expressam a sua “opinião”, persistem no delito de desinformar?
    Qualquer tentativa de passar entre os pingos da chuva, desencantando novos culpados, não durará para sempre… mais dia, menos dia, vão descobrir-se molhados!

    1. Há uma diferença enorme entre quem procura informar-se e esclarecer-se lendo jornais de referência, em papel ou por via digital, e aqueles que só lêem “memes”, graçolas e bojardas injuriosas que recebem nos telemóveis ou no computador. Mas antes disso há uma diferença enorme entre aqueles que lêem e os que não lêem: limitam-se a ver vídeos com gatinhos, a usar a tecnologia para jogos e apostas e passam anos sem abrir um livro.

  14. Existem armas de destruição massiva no Iraque !
    Onde está a lista dos “jornalistas” dos papeis do Panamá !
    O Pedro Correia ao falar de deontologia e ética deveria 1º citar os jornalistas que fazem e fizeram as capas e as noticias que sustentam os poderes instituídos.

    WW

    1. Você, se tem razão de queixa de alguém, é que devia concretizar. Com factos, datas, nomes.
      Enlamear tudo e todos é que não. Se quer lama, chafurde nas cloacas “sociais”.

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