O comentário da semana


Pedro Correia,

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«A miúda de 17 anos (ou quem criou o símbolo que ela é) tem evidentemente, e num plano abstracto, ideal, razão: a actividade humana é largamente agressiva para o ambiente; estragamos mais e mais depressa do que a Natureza repõe. Haverá quem discorde disto, mas arrisco dizer que a quase todos não provoca especial repulsa.

As imagens de satélite mostram os céus chineses despoluídos. Os venezianos notam uma inusitada transparência nas águas dos seus canais e afirmam que nelas se vê bem mais peixe. Eu, residindo em Lisboa, ouço um raro silêncio, paz, na minha permanentemente caótica rua.

Mas é isto sustentável? A nossa forma de vida é predatória, aceite-se, mas estamos prontos para outra? Temos escolha realista? Um punhado de dias, apenas, de chamado isolamento social e anuncia-se já o descalabro económico, a economia de guerra, o terror. Uma crise como ainda não conhecemos. E nós estamos aqui a elaborar sobre o pensamento – ou coisa análoga – da jovem de dezassete anos, usando recursos não exactamente amigos do ambiente.

É-nos a todos possível regressar “à terra”? Temos todos uma horta a que recorrer (diga o que disser certa figura)? E já agora um poço farto e salubre chova muito ou quase nada. Temos todos a casa dos avós, já nem sabemos onde, ainda habitável? Milhões de urbanos – e de rurais – estão dispostos, ou de todo podem, de um momento para o outro, ir cavar a terra, trabalhar a bosta da vaca, abandonar as centenas de canais televisivos, a electricidade, a água corrente e quente e o telefone irrestritos e usados com um clique distraído e irrelevante, “os copos” nas movidas, as selfies nos sítios da moda e a meio mundo de distância, a banalidade de falar com toda a naturalidade e sem contar períodos com um familiar a meio mundo de distância (a jovem de dezassete anos saberá o que são, o que foram, “períodos”?), a roupa de marca, a electrónica que (se) exibe a maçã, a cozinha de autor, o carro que nos leva onde quisermos – ou precisarmos – sem egoisticamente pensar duas vezes; ou porque não há escolha praticável? É tal mudança viável sem ser num contexto de day after?

Admito que caminhemos todos para tal desfecho. Admito que ainda se consiga evitar o pior (o pior). Creio que há nas mutações em curso mais do que a acção humana. Mas suponho que para a jovem de dezassete anos estas questões sejam menores. O cenário num horizonte que se vai, parece, aproximando, é distópico. E as distopias, as romanceadas e as reais, sempre tiveram a sua vanguarda, a sua elite. A que nada falta.»

 

Do nosso leitor Costa. A propósito deste meu texto.

22 comentários em “O comentário da semana”

  1. a jovem de dezassete anos saberá o que são, o que foram, “períodos”?

    Qualquer jovem (do sexo feminino) de 17 anos certamente sabe o que são períodos!

  2. “a actividade humana é largamente agressiva para o ambiente”

    Sempre foi.
    Dizia um cientista (daqueles que normalmente não são chamados às tv) que foram os romanos os responsáveis pela actual falta de fertilidade dos terrenos no Norte de África, devido à exploração excessiva do cereal.
    Dois mil anos antes dos mauzões que destroem o planeta com as suas sojas (ah não, soja é bom).
    Será pior a agricultura que se faz hoje ou as campanhas do Trigo e os planos quinquenais?

    Continuo sem perceber o porquê das zonas rurais estarem vazias. Com tanta paixão pelo campo, esperaria ver migrações em massa das zonas urbanas para essas aldeias isoladas, para que finalmente pudessem abraçar a sua vocação da agricultura de subsistência e do pastoreio da cabrinha sapadora.

  3. Como diz o povo: nem tanto ao mar, nem tanto à terra. A dicotomia entre “ir cavar batatas” e “business as usual” é falaciosa. Como pergunta Vaclav Smil: «a vida em Bordéus nos anos 60 era assim tão má ?». O consumo de energia per capita era para aí quatro vezes mais baixo e não andavam todos pelas eiras de costas curvadas. (Se fossemos todos cavar batatas era a fome generalizada).

    Temos enormes margens por onde poupar e para onde redirigir actividades (fazer decrescer drasticamente sectores importantes da economia, por exemplo a aviação, e fazer crescer ou criar outros). Exemplos: O isolamento e optimização térmicos do parque habitacional e edifícios públicos ocuparia muita gente e implica milhares de milhões de euros de negócio em cada país. A reconversão da indústria automóvel incluindo a diminuição da cilindrada, do peso, da electrónica incorporada, pondo fim à obsolescência programada e a criação/multiplicação de oficinas de reparação e de renovação (em vez de trocar de carro todos os 3/4 anos) poderia criar muito emprego também. Acabar com a troca de smartphones todos os 18 meses, aumentar a sua duração de vida para 5-10 anos, acabar com os débitos 4K (!, ou mesmo HD tout court) das plataformas tipo Netflix que fazem rodar as máquinas a todo o vapor com as consequentes emissões de CO2, ….

    Há muito trabalho pela frente para engenheiros e técnicos de todos os tipos.

    1. O problema, Miguel, é que as discussões construtivas, intelectualmente honestas, não são sexy. O debate de trincheira, agora que o futebol está suspenso, é que faz subir a adrenalina.

    2. Caro Miguel.
      De tudo quanto já ouvi, li e vi sobre o assunto actual, a sua descrição foi a coisa mais perfeita e verdadeira que me foi dado conhecer.
      Temos tudo. Tudo quanto era inimaginável há escassos 20 anos ter, e nada chega. Mais, sempre mais e mais. Não há limites para aquilo que a condição humana quer.
      E ao querermos o actual, a última maravilha da tecnologia, – serve esta, a tecnologia, como paralelismo para tudo quanto seja inovação ou perfeição de tudo o resto,- não nos preocupamos em pensar no mal que ocasiona o que largamos para trás para adquirir o novo.

    3. Estou convencido que você percebeu a existência deliberada, no meu comentário, de um grau de exagero visando demonstrar um ponto de vista. A figura existe. Verá que eu próprio, nesse comentário, procuro acreditar que o que descrevo será evitado, salvo cataclismo de literatura ou cinema (até agora, enfim). Se um tal cataclismo, a ocorrer, será fruto de fenómenos naturais, potenciados ou não pela acção humana, de acções militares (armadas, pelo menos), ou de colossais derrocadas económicas, essa é outra questão. E escrevi esse comentário depois de escutar, e já lá vão uns dias, previsões de puro terror económico. Entretanto os dias passaram e essas previsões, salvo meu fraco entendimento, não se alteraram para melhor sentido. Esperemos em qualquer caso que não se chegue a tais extremos de desagregação da sociedade. É de crer que as coisas resultem “apenas” numa crise. Mais uma grande crise, paga penosamente pelos do costume e sob as patrióticas exortações, culpabilizações e ordens dos do costume. Até aqui, nada de novo.

      O ponto de vista que eu procurava demonstrar (algo lateral, face ao que domina o tempo presente, reconheço; mas a figura da jovem nórdica foi suscitada) é o de me parecer largamente hipócrita a actuação dos profetas da desgraça ambiental. E note que eu não afasto a possibilidade de se estar a pouca distância de uma verdadeira desgraça ambiental de escala planetária. Creio é que pessoas como essa jovem e sobretudo aqueles que a inventaram enquanto símbolo, sempre estarão resguardados dos malefícios do que aí possa vir. Mais não seja porque (vanguardas, dirigentes, líderes, etc.) terão sempre acesso às alternativas que lhes sucedam e assim não se privarão dos confortos que agora demonizam. E não são abjectas palhaçadas de cinismo multimilionário, como a travessia do Atlântico em veleiro (e que veleiro…), descritas ao vivo e em directo pelas “redes sociais”, de absoluta impraticabilidade como exemplo do que quer que seja de realisticamente exequível para o futuro (a não ser, cá está, num mundo fechado em comunidades auto-suficientes, reduzidas a pouco mais do que a subsistência), que, francamente, convencem do realismo do que propõem.

      É que aquilo que a jovem propõe e encanta os seus seguidores é um corte abrupto, radical, que se adoptado levaria ao descalabro. As coisas não se mudam desta maneira. Salvo, cá está, um “day after”. E as criancinhas que a escutaram em beatitude histérica em Lisboa, por exemplo, teriam o desgosto das suas vidas se os ditames de Greta fossem de facto postos em prática já e sem mais. Era só deixar o Iphone ou afim, sem o qual não vivem, ter – como muito bem aponta – a sua fatal crise de obsolescência programada.

      Mas chega da questão da jovem de dezassete anos. Quanto ao resto, percebo a bondade de muito do que sugere, ainda que a analogia com a Bordéus dos anos de Sessenta, interessante sob o ponto de vista retórico, me possa parecer algo extremada. Cá está, aceitaremos sem verdadeira convulsão social (salvo hecatombe que a torne irrelevante) voltar a viver – passar a viver, grande parte de nós – como se vivia nesse tempo? Mas note que percebo a pergunta, o que demonstra e o que sugere: era (é) possível e não é o fim do mundo.

      Acompanho-o no que diz quanto à obsolescência programada (de quase tudo o que se compra por estes dias). Nos automóveis divergimos um pouco – e falamos sempre, temo, de automóveis enquanto “ligeiros de passageiros”, minimizando a terrível acção dos “pesados”: não sei por exemplo em que ganharíamos ao reduzir a electrónica, cuja generalização reduziu consumos, emissões e aumentou a segurança. E os pequenos automóveis da Bordéus dos anos Sessenta poluiam bem mais do que os de hoje, pequenos ou grandes. Mas como parece que o futuro é dos eléctricos, e que se danem condições de sua produção e recarregamento de baterias, o tema é de discussão largamente ociosa. Não sei em que se fundamenta quanto aos tempos de seu uso: eu, que sei ser um privilegiado por definição legal, tenho trocado de carro em intervalos de mais de dez anos. E do que vejo nas ruas, estou longe de integrar uma minoria. Com uma desvantagem: quanto mais velhos, mais poluentes. E menos seguros.

      (…)

      1. Caro Costa: no que responde ao Miguel, e não pretendendo meter catana em lavra alheia mas apenas porque algumas interrogações me merecem a sua resposta, não contraditando o que diz acho que não precisamos de tanto para viver bem.
        E nem precisamos de recuar muito; bastam cinco anos para deduzirmos o que desde então se fez de lá para cá.
        Em minha opinião não se justifica o que se estraga para melhorar o que se tem.

        Os meus parabéns pelo destaque, inteiramente merecido.
        Cumprimentos e votos de excelente semana.

          1. Não, nada. Nenhumas interrogações.
            Não interpretei devidamente o seu comentário e precipitei-me.
            Não sucede muito, uma coisa e a outra, mas por vezes sucede.
            Lamento e peço desculpa.
            Resto de uma excelente noite.

      2. Caro, Costa!

        Sabe qual é a grande diferença entre leis económicas e leis naturais?

        As primeiras são arbitrárias, criadas por nós, podendo, por isso, ser recriadas a nosso “belo prazer”. As naturais, não. São objectivas, não dependendo, o seu curso, da vontade do homem. Assim é claramente mais fácil mudar as primeiras, haja para isso vontade. A economia, assenta, funciona por símbolos. A natureza, não

        1. Sei. E?

          Mas, Vorph, foi você quem, há não muito tempo, aqui escreveu que (cito de memória, mas certo de não ferir a substância) lhe era “sumamente penoso” ler o que eu escrevia. E como tal eu deveria deixar de comentar, de responder, ao que você luminosamente aqui vertesse. Assim escreveu você, como se este blogue fosse seu e seu o privilégio de decidir do que aqui se pudesse comentar. Eu, fulminado, muito justamente aterrorizado pela faíscante grandeza das suas palavras, curvei-me em obediência. E agora vejo que você não só lê como devota parte do seu demiúrgico tempo a escrever-me.

          Eu fico honradíssimo, Vorph. Mas é isto sincero, sentido, ou fruto de um bom Douro experimentado em deleite menos morigerado?

          Costa

    4. (…)

      Tenho mais dificuldade em acompanhar o que aponta quanto à aviação, a nova ovelha ranhosa dos ecologistas. É sempre bom quando se pode culpar algo ou alguém de todos os males do mundo. Mesmo sem solução, lava-nos a alma ter em quem bater larga e livremente. E depois, bem vê, pagam-me para os pilotar.

      O que me remete para o comentário logo a seguir ao seu. Pelos vistos o meu é debate de trincheira.

      Mas foi um gosto lê-lo.

      Costa

    5. Miguel,

      Permita-me a ironia, mas quando fala em “Temos enormes margens por onde poupar e para onde Redirigir Actividades (fazer decrescer drasticamente sectores importantes da economia, por exemplo a aviação, e fazer crescer ou criar outros)”, preconiza Intervenção Estatal na Economia de mercado? Uma Planificação, uma Novaya Ekonomiceskaya Politika?

      Estou a brincar. Subscrevo o que escreve. Para alguns, muitos, Greta devia comer carne crua e voltar às cavernas, seguindo os seus (deles) argumentos ad absurdum.

      1. Carne crua porquê?
        Se alguma coisa predominava na pré-história era fogo por tudo que era sítio.

  4. “a actividade humana é largamente agressiva para o ambiente; estragamos mais e mais depressa do que a Natureza repõe.”

    A vida de qualquer organismo é “agressiva” para o “ambiente”.

    Acontece o mesmo com todas as espécies e organismos. Só se me disser que há um organismo que não se alimente e todas as suas relações sejam simbióticas.

    Também há organismos, espécies que beneficiam da actividade humana. Até temos plantas criadas/cruzadas pelos humanos.

    Caça às bruxas em preparação.

    lucklucky

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