O comentário da semana


Pedro Correia,

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«Sou polícia há 17 anos.

Comecemos pelo vencimento: em 2003, acabado o estágio, auferia facilmente 900 euros, tinha 20 anos, solteiro, fui colocado em Lisboa antes dos voos low cost e do airbnb. Alugava um quarto por 100 euros e a farda ainda valia alguma coisa. Raramente era ofendido e, quando era, normalmente era num quadro de alcoolismo, onde todos somos uns fortalhaços.

Dezasseis anos depois, trago para casa 1080 euros. Tenho duas filhas, casa para pagar e todas as despesas normais de uma família. Ou seja, em 16 anos de serviço recuperei 180 euros do meu rendimento. Dezasseis anos a trabalhar noites, manhãs, tardes, em horários sempre diferentes de dia para dia, Natal, ano novo, directas em cima de directas, para ir a tribunal com os criminosos apanhados de madrugada.

Hoje um polícia que inicia a sua carreira ganha de ordenado base 789 euros. Vai para Lisboa, muitas vezes com casa para pagar na terra, onde ficam os filhos e a mulher, e ainda tem de pagar a renda na capital cujo mercado imobiliário está super-inflacionado.

O polícia conduz carros com 25 anos. Sem segurança e incapazes de dar a resposta adequada no confronto com o criminoso. O polícia não tem acesso a bases de dados, numa altura em que a informação é crucial no combate ao crime. O polícia não tem acesso directo à base de dados do IRN, não tem acesso à base de dados de cidadãos procurados e com mandados de detenção pendentes, mas o escrivão do tribunal tem. Deve ser mais idóneo. O polícia até identifica um criminoso, liberta-o a seguir, pois a lei assim obriga, e mais tarde, quando ele não aparece em tribunal, onde o polícia se desloca, sem ter dormido, descobre que o indivíduo é um criminoso procurado.

O polícia patrulheiro recebe da instituição uma farda, uma arma e um coldre. Tudo o resto é pago por ele. Até poderia requisitar algum material, se houver disponível, mas no final do serviço tem de entregar. A instituição dá ao polícia uma arma e três carregadores, mas não fornece porta-carregadores, têm de ser os polícias a comprar, como as algemas, o porta-algemas, as luvas, a lanterna, o gás pimenta, o bastão extensível. Claro que as instituições também os têm, mas não para todos.

Sou polícia e no ano passado gastei 700 euros em material. Recebi 600 de subsídio de fardamento.

Há falta de equidade: em 17 anos recuperei 180 euros de rendimento, na mesma instituição há elementos que recuperam 1600 euros.

Em 17 anos fui promovido uma vez. Sem problemas disciplinares e com cinco louvores. O colega que me deu o curso foi promovido quatro vezes. Claro que não posso ganhar tanto como ele, óbvio, mas caramba: 1400 euros de diferença é muito. Se ele duplica, ou triplica, o seu rendimento em 17 anos, eu também deveria ter esse direito… e mesmo assim nunca ganharíamos o mesmo.

Claro que há policias incompetentes… mas com cursos de sete meses querem o quê? James Bonds? Sete meses para preparar um homem a conhecer a lei, para saber relacionar-se com o cidadão, com a pressão. Sete meses para aprender a reagir em segundos.

E depois quem comanda, ou manda, tem cursos de cinco anos. E nunca interagem com as pessoas, nunca passam pelas situações críticas, nunca se expõem ao perigo e ao juízo público.

Por que não cursos de três anos para todos, preparar bem os polícias para se poder exigir deles mais e permitir aos melhores chegarem lá acima?

Com isso não precisaríamos de tantos chefes, porque estaríamos preparados para resolver as coisas, sem o paizinho atrás a ver se está tudo bem.

Mais de 50% do efectivo da PSP são chefes e oficiais. Impensável.

Isto não é o que acontece nos países mais evoluídos.

Aqui vocês ligam para o 112 e a vossa chamada, até chegar ao polícia que está na rua, demora dez minutos.

Num país de jeito o operador 112 transmite de imediato a ocorrência ao carro-patrulha, até enquanto fala com a vítima. Num país moderno, o 112 escolhe o carro-patrulha mais perto. Aqui não: se a rua é da PSP vai o carro da PSP, mesmo que o carro da GNR esteja a dois minutos.

Num país deste tamanho existem duas forças idênticas. Absurdo.

Bater num polícia dá até cinco anos de prisão… nunca acontece e, se acontece, lá vêm as penas suspensas. Polícia não tem direito a advogado, tem de o pagar. Não tem comparticipação em consultas de psiquiatria, no país dos suicídios de polícias.

Ser polícia é uma merda neste país.»

 

Do nosso leitor Guarda Serôdio. A propósito deste texto do Diogo Noivo.

20 comentários em “O comentário da semana”

    1. A diferença está em que logo que se mude de cor politica tudo passa a estar muito bem e as policias como antigamente não lhe é reconhecido qualquer comentário mas é novamente concedida a vantagem do cidadão que lhe cair nas mãos puderem fazer dele o quiserem.

  1. Se este é o paradigma dos polícias, paguem-lhes bem.
    Coragem, assim, merece ser respeitada e valorizada!
    Ou alguém anda a brincar com a … polícia??

    1. Se este é o paradigma dos polícias

      Como pode ser este o paradigma dos polícias, se boa parte do texto é a queixar-se dos outros polícias? É a queixar-se que os outros são promovidos mais vezes, que são aumentados de salário mais vezes, que trabalham no escritório em vez de trabalharem na rua, que metade deles são oficiais e graduados… Grande parte do texto deste polícia é a queixar-se dos outros polícias! Portanto, este não é certamente um polícia paradigmático…

      1. Paradigmático é o carreirismo na função pública.
        De generais a chefinhos é à dúzia.
        Quanto mais sobem menos fazem!

  2. Muito bem. Por isso e por todo o tipo de pessoas que tem de aturar (incluído eu…que me arrependo) relevei algumas faltas de “correcção”, (artigo 10º nº 1, alínea b) e i) – Lei n.º 7/90 – DR n.º 43/1990″ em desempenho de funções, e por causa delas, enquanto autoridade de administrativa, como oficial público director. E ex advogado.

  3. Pois, os Polícias ganham pouco.
    Em Portugal os trabalhadores ganham pouco.
    Os salários são baixos, e ai de quem reivindicar melhores salários ‘querem levar as empresas à falência’ é o que normalmente é afirmado.
    A profissão de Polícia é diferente das outras profissões? Ser Polícia é como um ‘serviço militar obrigatório’? Não, ser Polícia é uma profissão do Estado e tem que ser paga com um salário digno, como os outros funcionários públicos.
    Os Polícias sempre ganharam mal. Antes de haver, proliferarem, as Empresas de Segurança, sempre havia ‘uns gratificados’ que compensavam os baixos vencimentos dos Polícias.
    Não estou a pensar no Manel Zé, mecânico, que pediu aumento de ordenado, mas lembro-me de o patrão lhe dizer ‘se não estás bem, escolhe outra profissão’. Nem me estou a lembrar do Gestor de Recursos Humanos ‘o que quer qu’eu faça, isto é a lei da oferta e da procura’.
    (…’ta bém, não podem chamar a Polícia e apresentar queixa do patrão, paciência, no privado é o patrão que chama a Polícia para apresentar queixar por lhe estarem a pedir aumento de ordenado)

  4. A minha falecida avó, analfabeta mas inteligente, dizia que estes políticos não gostam da autoridade porque são todos uns bandidos. Acho que ela tinha razão. Se a autoridade funcionasse ( e isso inclui polícia, tribunais, exército – a Justiça, no fundo ) a política era muito diferente. Não só a política, todo o pequeno crime e corrupção teria consequências. As pessoas honestas agradeceriam. Quem manda pelos vistos não está interessado. A única autoridade que funciona em Portugal é a Tributária e Aduaneira, e mesmo essa só funciona nos pobres. A reforma da Justiça seria a semente que poria ordem no país, quase tudo o resto viria por acréscimo. É por isso que não se faz. A Justiça e a Educação são dois pilares fundamentais, mas um país culto e justo não interessa aos Donos Disto Tudo. Assim como estamos esses passam entre os pingos da chuva sem se molharem.

  5. 1) Metade das queixas neste post são queixas de outros polícias. Tipo: eu tenho que trabalhar na rua, muitos outros ficam sempre na esquadra. Ou: eu sou soldado raso, metade dos polícias são oficiais e graduados. Ou: eu fui promovido uma vez, outros foram promovidos quatro vezes. E ainda: au ganho mais 180 euros do que ganhava, o vizinho ganha mais 1500 euros do que ganhava. Eu digo: polícias, entendam-se entre vocês, não é a fazerem queixinhas uns dos outros que vamos lá!

    2) Em 2003 ganhava 900 euros, agora ganha 1080, é um aumento de 20%. A inflação de 2003 até cá terá sido de 20%? Duvido. Portanto, não ganha pior agora do que ganhava em 2003. E faz o mesmo trabalho que fazia, provavelmente até pior, porque já não está tão novo e atlético como era. Portanto, não vejo porque é que há de ganhar mais do que o que ganhava em 2003.

    1. ‘não é a fazerem queixinhas uns dos outros que vamos lá!’

      É assim que as ‘cunhas’ e a ‘boyada’ prolifera!
      É assim que há mais chefes que soldados!

  6. Comparar polícias a funcionários públicos
    Responsabilidade (nem que seja por terem uma arma na mão) e garante da segurança. E digamos que é mais perigoso que ser funcionário da seg social.

  7. Como colega de profissão do autor deste post, só posso partilhar e publicamente manifestar a minha concordância com tudo o que foi escrito. Só não entendo como é que os comentadores estão mais preocupados com a queixa deste homem sobre o vencimento, do que com tudo o resto. Numa instituição hierárquica como a polícia, que deveria ser uma pirâmide, afinal é um paralelepípedo… e acham normal. Andam a pagar impostos para manter uma polícia onde metade não faz serviço operacional, não responde às ocorrências nem às chamadas que vocês fazem. Metade fica nas secretarias, a compilar estatísticas, multas e burocracia… metade está nis tachos e a outra metade é que anda na luta diária.
    Na polícia existem 3 carreiras… agentes, chefes e oficiais… e não percebo como é que vocês acham normal, dentro da mesma instituição, haver uma carreira com uma progressão meteórica e outra que anda a passo de tartaruga. Uma carreira em 15 anos ganha 150% de rendimento e outra ganha 20%. Isto é normal? É justo? Não são estes que se sujeitam ao perigo, que morrem atropelados a ajudar-vos quando têm um acidente. Não são estes que se arriscam a ir presos porque o disparo saiu 10cm mais ao lado. Mas são estes que sobem na carreira e no ordenado a um ritmo enorme. O colega tem toda a razão. Vamos acabar com as cunhas e os lugares privilegiados dos doutores e vamos fomentar a meritocracia…

  8. “As dívidas não são para se pagar”.

    Esta frase está inscrita na testa de todos os governantes socialistas.

    O Largo do Rato está nesta altura sob o efeito de gases intestinais com efeito de estufa não permitindo uma elaboração de ideias coerentes……

    A.Vieira

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