A manifestação das Forças de Segurança


Diogo Novo,

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Por dever de um ofício passado, dialoguei e negociei diariamente com os sindicatos da PSP e com as associações profissionais da GNR ao longo de quase três anos. Terminadas essas funções, o respeito que tinha pelas Forças de Segurança transformou-se em profunda admiração.

Sei que muitas das reivindicações que estão na base da manifestação de hoje são inteiramente justificadas. Falta de material e de equipamento, postos e esquadras em condições deploráveis, e insuficiência de efectivo em algumas zonas do país são queixas com basto fundamento. Sei também que nenhum governo português terá capacidade financeira para colmatar os problemas existentes, uma dificuldade muito agravada pela calamitosa gestão do actual Executivo na área da Administração Interna.

Dito isto, há quatro aspectos que têm sido convenientemente esquecidos pelas estruturas sindicais e que, salvo raríssimas excepções, a comunicação social não percebe (honra seja feita ao Diário de Notícias, que por sistema aborda os temas relacionados com as Forças de Segurança com a atenção e profundidade devidas).

 

1. Carreiras e remunerações. Ao longo de décadas, os sucessivos governos – de esquerda e de direita – foram incapazes de aumentar os salários na PSP e na GNR de forma estruturada porque isso implicaria redesenhar por completo a organização de carreiras e de categorias profissionais, uma caixa de pandora que ninguém quer abrir. Em compensação, criaram-se subsídios e foi-se aumentando o seu valor – subsídio de patrulha, subsídio de operações especiais, subsídio de binómio cinotécnico, subsídio de fardamento, etc. Em resultado, entre 20% e 50% da remuneração mensal de um elemento das Forças de Segurança depende de subsídios, que são variáveis, o que faz com que uma parte importante dos polícias e dos militares da GNR não saibam ao certo quanto ganham por mês. Em síntese, em vez se de pensar as remunerações de maneira racional e sustentável, optou-se por ir colocando remendos. A alteração deste estado de coisas é onerosa, mexe com interesses corporativos e, por isso, conta com a firme oposição de sindicatos e associações profissionais. Porém, se nenhum governo tiver a coragem de mexer neste aspecto, o problema continuará a agravar-se.

 

2. O valor político dos subsídios. Na época em que trabalhei no MAI, e apesar do programa de assistência financeira ao qual Portugal se encontrava sujeito, foi possível aumentar o subsídio de fardamento em 100%, passando de 25€ mensais para 50€. Este complemento salarial tem duas particularidades: está isento de tributação fiscal; e, não obstante se designar “de fardamento”, pode ser usado para qualquer fim, sendo por isso parte do salário. Na altura, foi proposto aos representantes sindicais a alternativa de ser o Estado a fornecer o fardamento, o que naturalmente implicaria o fim do dito subsídio. Sem surpresa, os sindicatos não aceitaram a proposta, entre outras razões porque a manutenção de subsídios lhes permite afirmar que o salário de muitos polícias ronda os 700€ (esquecendo-se de referir que este valor é o salário base) e, dessa forma, conseguir a simpatia da opinião pública para mais reivindicações.

 

3. A falta de efectivos. Há zonas do país onde faltam profissionais. Por outro lado, os poucos que estão ao serviço têm mais de 45 anos de idade. É a mais absoluta das verdades. Contudo, esquecem-se habilmente os sindicatos e as associações profissionais que parte do problema se deve à alocação de recursos humanos, em particular aos milhares de elementos da PSP e militares da GNR que se encontram em funções de apoio operacional (vulgo ‘funções administrativas’ ou ‘de secretaria’). São funções cobiçadas, desde logo porque, em regra, decorrem em horário de expediente, não implicando por isso a realização de turnos penosos. Os representantes sindicais não o referem porque têm associados a desempenhar funções de apoio operacional, que obviamente desejam manter. Uma melhor alocação de recursos não resolverá a falta de pessoal – até porque há funções administrativas que só podem ser realizadas por gente da PSP e da GNR –, mas ajudaria bastante a mitigar o problema.

 

4. O aparecimento Movimento Zero. Criado há não muito tempo por profissionais da PSP e da GNR, não tem liderança nem porta-vozes. É aquilo a que agora se chama ‘movimento inorgânico’. Teme-se que nas suas fileiras haja gente de extrema-direita e indivíduos apostados em desestabilizar as Forças de Segurança.

Em Julho deste ano, membros do Movimento Zero viraram as costas ao Ministro da Administração Interna e, mais grave, ao Director Nacional da PSP numa cerimónia pública. Julgo que foi a primeira vez que tal aconteceu. Dada a natureza hierárquica das Forças de Segurança e o espírito de corpo que as caracteriza, foi um gesto muito sério. A classe política – governo e partidos da oposição – foi incapaz de perceber a seriedade do acontecimento. Salvo honrosas excepções, a comunicação social noticiou o sucedido com a mesma atenção com que informa sobre a ocorrência de um acidente rodoviário.

Não sei o que é o Movimento Zero nem quem o conduz. É o resultado da profunda insatisfação que existe nas Forças de Segurança, agravada pelo alheamento do actual governo. Mas, não menos importante, é fruto da ineficácia dos sindicatos e das associações profissionais: até há bem pouco tempo, a PSP tinha 12 sindicatos e a GNR pelo menos cinco, mas juntos não representavam metade do efectivo. Não me surpreende que tenham sido ultrapassados por um grupo sem rosto que ninguém controla. O inenarrável André Ventura e o PNR tentam apanhar boleia do Movimento, no qual suspeito que têm apoiantes. Mas aposto que o Movimento Zero não se deixará capturar por interesses partidários, com tudo de bom e de mau que daí resulta.

 

São muitos os problemas em causa, alguns complexos e antigos. Por incapacidade dos vários governos e por resistência dos sindicatos e associações profissionais, o que eram pequenas dificuldades transformou-se em desafios graves e prementes. Porque não vejo quem seja capaz de inverter a marcha, creio que a manifestação de hoje é apenas o início de algo que veio para ficar.

46 comentários em “A manifestação das Forças de Segurança”

    1. Cá temos as ‘redes sociais’ a fazerem mais uma promoção.
      E tal a factura da compra de ‘material de segurança’ e o governo não respondeu.
      Afinal quem é que vende o material (algemas, coletes à prova de bala, gás mostarda) para a PSP? É fácil de se verificar a quem foi vendido e as quantidades vendidas. Pode um guarda da PSP comprar individualmente este material sem uma autorização de superiores hierárquico?
      Quer dizer, sendo da PSP pode-se comprar este ‘material’ quando lhe apetecer?

      1. Pode!! Aliás qualquer um pode..menos o gás…
        Se assim nao fosse lhe garanto que quase nao cia policias com algemas…

  1. Posso estar errado, mas, para mim, os membros das forças de segurança não deviam ter liberdade para fazerem manifestações de rua. Acho que lhes bastava o direito de reunião. Digo isto porque me parece que essas forças ficam descredibilizadas com essas manifestações: polícias a controlarem polícias, onde pode ser necessário utilizar a força, é coisa que nunca devia acontecer.
    Por outro lado parece-me que as ofensas aos polícias deveriam ser consideradas faltas graves, com penas a dobrar, relativamente aos paisanos. De forma semelhante os crimes cometidos por agentes de autoridade também deveriam ser agravados, e muito.
    Por fim, também penso que esses agentes deviam ter um salário base razoável para também lhes proporcionar uma pensão de reforma de valor razoável, mas somente aos 65 ou mais anos de idade, podendo nos últimos anos de serviço desempenharem apenas trabalhos de secretaria.

    1. Nao se esqueça que os policias nao têm direito à greve..e dai o grande problema destes profissionais.
      Um direito constitucional só para alguns…
      Se nao se pudessem manifestar ai então mais valia baixarem os braços e comerem o que lhes dão.

  2. Serviço Publico?!
    Tem pouco que ver com euros. Os euros tapam a boca por momentos mas o mal está e só vai piorar. Tem que ver com incentivos culturais. E os incentivos são a favor de violência e do crime.

    lucklucky

  3. Movimento zero em todo o país precisa-se. Contra a cubanização do país e a elite corrupta que nos desgoverna .Ao mesmo tempo que o antigo primeiro corrupto e herói socialista se prepara para escapar a julgamento, os amigos de partido preparam-se para empobrecer ainda mais a classe média com aumentos de impostos e cativações pelo Ronaldo das finanças agora desaparecido. Atacar as forças de segurança em qualquer oportunidade sempre foi um must da esquerdalha. Destruir o sistema de ensino com ideologia progressista/gayzista e prender os médicos ao SNS depois de cubanizarem o SNS é a nova ideia dos iluminados. Pobre país que não tem quem consiga drenar o pântano em que os socialistas-comunistas nos afundam.

    1. Ó jonhy estás na onda da trumpice com gestos da lepenice. Copianço é muito feio.
      Arranja lá uma novidade.
      p.ex. ser proibido utilizar as forças de segurança para fins políticos.
      Cuidado com o gesto do braço no ar e mão aberta com o polegar e indicador unidos fazendo um ‘ó’ pq pode passar um gayzista e julga que é um convite pra coiso.
      É uma chatice o grupo espirito santo saúde estar a admitir médicos especializados em doenças tropicais e só aparecerem médicos cubanos. É que nem um américas (branco), filipino (sem olhos em bico), húngaro (sem ser eslavo).
      Ó jonhy continua que vais longe, mas muda pra nome mais patriótico.

  4. ola estou do lado dos gnr e psp o meu pai e meu padrinho ambos guardas dapsp grduados ja partiram alguns anos e fico triste por todos terem de se manifestar pra terem direitos a barios anos de promessas eu estou do lado de voces fiquem bem boa noite obrigada

  5. ola estou do lado dos gnr e psp o meu pai e meu padrinho ambos guardas dapsp grduados ja partiram alguns anos e fico triste por todos terem de se manifestar pra terem direitos a barios anos de promessas eu estou do lado de voces fiquem bem boa noite obrigada

  6. Eu vejo é polícias a guardar obras nas estradas, a guardar superfícies comerciais, a formar sindicatos para se escaparem ao trabalho, a caçar multas, a passear-se com as carrinhas blindadas em grande velocidade sem que revelem qualquer civismo e preocupação para com os automobilistas, a pavonear-se com umas fardas que parecem o robot-cop… PqP! Enfim, cada vez tenho menos respeito pelos “agentes da autoridade”. Se não estão bem procurem outro trabalho e façam-se à vida, produzindo algo de útil para a sociedade.

    1. Sinceramente, com esse discurso devia mudar o seu nickname para POLITICAMENTE CORRETO. Porque é esse discurso que está na moda.
      Sabe porque é que os polícias guardam obras, e lojas?
      Primeiro porque a lei exige que qualquer obra na via pública tenha de ser acompanhada por um agente controlador de trânsito. Para garantir a segurança do trabalhador e dos utentes da via e para controlar e ajudar na fluência do trânsito. Ou seja, para ajudar o condutor, como o senhor, a não ter acidentes e a não ficar preso em engarrrafamentos. Estão lá debaixo de sol intenso, ou de chuva e frio, para o senhor não se atrapalhar no trânsito e chegar a horas a casa. Estão nas lojas porque os seguranças privados não tem qualquer competência . Não podem identificar quem vai para lá roubar, ou furtar, não pode usar armas de defesa pessoal, não pode fazer revistas pessoais a quem furta objetos.
      Esses polícias que estão nesses serviços oferecem-se para poderem compor um bocadinho o seu ordenado miserável. Mas estão lá por períodos de 4h, depois de fazerem o seu serviço de 8h, ou nas folgas, onde abdicam do descanso e do tempo com a família, para poderem encher o frigorífico. Ganham 34 euros por essas 4h, deduzidos impostos, pouco mais de 8 euros por hora, o senhor paga mais à sua empregada de limpeza… com todo o respeito.
      Sobre a condução de carrinhas blindadas… só lhe posso garantir que se vão em marcha de urgência, não é para chegarem a tempo de ver o jogo da bola na tv. É porque é necessário, fazem pequenas irregularidades, sim, mas está previsto e fariam muito menos se o senhor, no seu carro respeitasse e facilitasse a passagem de um carro com as sirenes ligadas. Porque se vão com pressa, pode ser para chegarem rapidamente junto da sua mulher que está a ser roubada, agredida ou teve um acidente.
      O senhor é daqueles que só se lembra do polícia quando precisa dele. Mas o polícia, mesmo se soubesse que escreveu isto aqui, continuaria a socorre-lo com a mesma competência, continuaria a ligar as sirenes e a cometer irregularidades no trânsito para chegar até si o mais rapidamente possível para o ajudar.
      O polícia não é melhor que o senhor… mas é diferente… ainda bem.

      1. Em cheio!!
        Falam mas não conhecem a realidade!

        Um pequeno reparo, a policia não tem carrinhas blindadas…tem uns quantos veiculos blindados sim mas que não saem à rua..
        Mas não se preocupe…quando houver um tiroteio e toda a gente fugir..são eles, mesmo nas carrinhas que não são blindadas, que irão na direcção do tiroteio, para salvar pessoas e prender criminosos…isto por 789€…

  7. Sou polícia à 17 anos.
    Comecemos pelo vencimento: em 2003, acabado o estágio, auferia facilmente 900e, tinha 20 anos, solteiro, fui colocado em Lisboa antes dos voos low cost e do airbnb. Alugava um quarto por 100e e a farda ainda valia de alguma coisa. Raramente era ofendido e quando era, normalmente era num quadro de alcoolismo, onde todos somos uns fortalhaços.
    16 anos depois, trago para casa 1080. Tenho duas filhas, casa para pagar e todas as despesas normais de uma família. Ou seja, em 16 anos de serviço recuperei 180e do meu rendimento. 16 anos a trabalhar noites, manhãs, tardes, em horários sempre diferentes de dia para dia, natal, ano novo, diretas em cima de diretas, para ir a tribunal com os criminosos apanhados de madrugada.
    Hoje um polícia que inicia a sua carreira ganha de ordenado base 789e. Vai para Lisboa, muitas vezes com casa para pagar na terra, onde ficam os filhos e a mulher e ainda tem de pagar a renda na capital cujo mercado imobiliário está super inflacionado.
    O polícia conduz carros com 25 anos. Sem segurança e incapazes de dar a resposta adequada no confronto com o criminoso. O polícia não tem acesso a bases de dados, numa altura em que a informação é crucial no combate ao crime. O polícia não tem acesso direto à base de dados do irn, não tem acesso a base de dados de cidadãos procurados e com mandados de detenção pendentes, mas o escrivão do tribunal tem. Deve ser mais idóneo. O polícia até identifica um criminoso, liberta-o a seguir, pois a lei assim obriga e mais tarde, quando ele não aparece em tribunal, onde o polícia se desloca, sem ter dormido, descobre que o indivíduo é um criminoso procurado.
    O polícia patrulheiro recebe da instituição uma farda, uma arma e um coldre. Tudo o resto é pago por ele. Até poderia requisitar algum material, se houver disponível, mas no final do serviço tem de entregar. A instituição dá ao polícia uma arma e 3 carregadores, mas não fornece porta carregadores, têm de ser os polícias a comprar, como as algemas, o porta algemas, as luvas, a lanterna, o gás pimenta, o bastão extensível. Claro que as instituições também os têm, mas não para todos. Sou polícia e no ano passado gastei 700e em material. Recebi 600 de subsídio de fardamento. A falta de equidade. Em 17 anos recuperei 180 euros de rendimento, na mesma instituição há elementos que recuperam 1600e.
    Em 17 anos fui promovido uma vez. Sem problemas disciplinares e com 5 louvores. O colega que me deu o curso foi promovido 4 vezes.
    Claro que não posso ganhar tanto como ele, óbvio, mas caramba,1400e de diferença é muito. Se ele duplica, ou triplica o seu rendimento em 17 anos, eu também deveria ter esse direito… e mesmo assim nunca ganharíamos o mesmo.
    Claro que há policias incompetentes… mas com cursos de 7 meses querem o quê? James Bonds? 7 meses para preparar um homem a conhecer a lei, para saber relacionar-se com o cidadão, com a pressão. 7 meses para aprender a reagir em segundos.
    E depois quem comanda, ou manda, tem cursos de 5 anos e nunca interagem com as pessoas, nunca passam pelas situações críticas, nunca se expõem ao perigo e ao juízo público.
    Porque não cursos de 3 anos para todos, preparar bem os polícias para se poder exigir deles mais. E permitir aos melhores chegarem lá acima.
    Com isso não precisaríamos de tantos chefes, porque estaríamos preparados para resolver as coisas, sem o paizinho atrás a ver se está tudo bem.
    Mais de 50% do efetivo da PSP são chefes e oficiais. Impensável.
    Isto não é o que acontece nos países mais evoluídos. Aqui vocês ligam para o 112 e a vossa chamada, até chegar ao polícia que está na rua demora 10 minutos.
    Num país de jeito o operador 112 transmite de imediato a ocorrência ao carro patrulha, até enquanto fala com a vítima. Num país moderno, o 112 escolhe o carro patrulha mais perto. Aqui não, se a rua é da PSP vai o carro da PSP, mesmo que o carro da GNR esteja a 2 minutos.
    Num país deste tamanho existem duas forças idênticas, absurdo.
    Bater num polícia dá até 5 anos de prisão… nunca acontece e se acontece, lá vêm as penas suspensas. Polícia não tem direito a advogado, tem de o pagar. Não tem comparticipação em consultas de psiquiatria, no país dos suicídios de polícias.
    Ser polícia é uma merda neste país

    1. Gostei de ler o seu testemunho e acho essencial que a população conheça as dificuldades dos agentes das forças policiais. Até para que possam ser mais respeitados.

      Desconheço a particularidade das remunerações, salvo pelo que vou lendo e parece problema intrincado. De qualquer modo, não querendo desvalorizar, sempre digo que, nos últimos anos, a regra das remunerações no sector privado tem sido o decréscimo e não e estabilização ou parcos aumentos. Com isto não quero dizer que não gostasse de ter uma polícia mais bem paga (até pela função essencial que desempenha), mas sim que o problema de ‘ser mal pago’ é um problema transversal em Portugal.

      Quanto às outras questões, da falta de respeito pela polícia, nem sei bem o que lhe diga. Vivemos num país que não gosta de autoridade. O que se explica pelas naturais razões da história recente, mas também pelo nosso gosto por infringir. Conto uma anedota que li numa crónica de José Eduardo Agualusa: como é que se convence um homem a atirar-se da ponte? A um inglês diz que é tradição. A um francês que é moda, a um português (ou dos Palops) diz que é proibido (espero não ter adulterado muito a anedota original).

      Um bom dia.

    2. Receber um comentário do Guarda Serôdio é um dos pontos altos da minha colaboração no DO, pois cresci a divertir-me imenso com o castiço personagem de bigode farfalhudo d’Os Amigos do Gaspar.
      Falando de coisas sérias: percebo tudo o que refere, factos que são inatacáveis. De tudo o que escreve, a única coisa que me suscita algumas dúvidas é a fusão de PSP com GNR, embora o repensar das responsabilidades territoriais seja uma necessidade evidente. O resto são evidências resultantes dos problemas que refiro no texto – e de tantos outros, que dariam para um livro.
      Muito obrigado pelo seu testemunho.

      1. Sobre a fusão das duas forças só lhe posso dizer que todos teriamos a ganhar… menos os cargos de topo. Porque chegaríamos à conclusão de que são extra numerários. Em Nova York existem 50.000 polícias e todos da NYPD. À 40 anos atrás a divisão territorial até poderia ser conveniente… o criminoso de rio de mouro ia no máximo a mem martins fazer o seu trabalho. Hoje não, o criminoso do montijo pratica crimes em Bragança, Estremoz ou Chaves. Logo não tem lógica. Uma divisão por competências seria o máximo admissível. Uma polícia responsável pelo patrulhamento e investigação em todo o território e outra responsável pelos serviços especiais, como intervenção, operações especiais, trânsito, natureza e proteção e socorro, também em todo o território nacional. A existência de duas forças é uma questão de tradição dos países latinos, uma polícia civil e uma de natureza gendarmerie, com vertente militar, de modo a estar sempre sob alçada do governo, mesmo que a civil se coloque de lado. Veja-se a intervenção da GNR no Iraque. Aconteceu porque o governo decidiu e quando o presidente recusou a participação das forças armadas, na qualidade de chefe máximo dessa entidade, o governo incumbiu a GNR. E a GNR não pode dizer que não. São o melhor que pode haver. Polícias e militares. Cumprem… sempre. Mas isto é pouco atual. E menos atual é a falta de entrosamento, de partilha de informação, de divisão entre estas duas forças. E não é por falta de vontade do operacional, mas sim de quem manda… numa e noutra. Daí o grande trunfo do movimento zero… a União dos operacionais das duas forças, a solidariedade e empatia e partilha dos mesmos problemas. Absurdo num país tão pequeno.

    3. Realmente, podia ter escolhido outra profissão para ganhar melhor.
      Mas, como diria o outro, aonde, aonde??
      Sabe qual é a média dos salários auferidos em Portugal? Evidentemente que é considerado um valor de uma simples média aritmética (se duas pessoas almoçam um frango e uma come uma perna e a outra como o resto, a média aritmética é cada um comeu metade do frango). Assim, verificamos que existe muita gente por cá que ganha um salário que mal chega para pagar os transportes para o emprego (agora até estão muito mais baratos). Quase toda a gente em Portugal ganha mal e os policias sempre ganharam mal, sempre tiveram que recorrer ‘aos gratificados’.
      Mas, ser policia era/é sentir ter um estatuto de poder ‘mandar nos outros’, doutra forma ninguém queria ser profissional de policia, ganha-se mal.
      E, depois, ver criminosos mal dá um giro, não é para todos. E, vá lá, Portugal é dos países mais seguros do mundo, dizem. E é uma chatice as leis que temos, devia ser como antigamente, quem usava gravata não podia ser ladrão. Agora prende-se um carteirista e é logo solto para fazer a mesma coisa, aliás é o que não acontece com os banqueiros que nos vão à carteira e nem se quer são presos, estão sempre à solta. É uma chatice quando a lei é aplicada a todos na mesma bitola.
      Afinal, parece que evolução na carreira está ‘viciada’. Como é que os do mesmo curso ganham vencimentos diferentes? Então, são policias e deixam isso acontecer? Cá ‘fora’ também acontece o mesmo, mas se for caso disso, queixa-se à policia para resolver a injustiça. Para resolver as injustiças é para que serve a polícia. E não é por acaso que, onde existe forças policiais mais bem equipadas e remuneradas, é nos países com as maiores injustiças entre os cidadãos.
      Têm toda a razão em ter melhores condições de trabalho e melhores salários, toda a gente tem esse direito. Os profissionais de polícia tem todo o direito de protestar contra as injustiças que lhes são praticadas, mas não podem ter (sentir psicologicamente) um ‘estatuto genético’ de estar sempre contra quem protesta pelas mesmas razões. Ás vezes nota-se o gozo que alguns policias sente em reprimir manifestações ou greves de outras classes profissionais.
      Nos EUA as policias são profissionais das cidades e os chefes (xerifes) são eleitos pela população, quando há crises económicas lá vão uns tantos polícias para o desemprego.

      1. Essa história de o polícia ser polícia porque gosta de mandar é típica de quem não gosta, ou não aceita receber ordens… a não ser ordens de quem lhe dá alguma coisa… do patrão, da mulher, do marido, ou do papá que lhe paga a mesada.
        O polícia é polícia por vocação… quase sempre. No entanto, com os anos, com o desrespeito e com a falta de valorização a todos os níveis… acaba por desmoralizar… é normal.
        Ser polícia não é um trabalho… é uma missão. E é uma missão quase impossível em Portugal. Falou dos EUA e falou bem. O polícia pode ser despedido de facto, mas é bem pago por isso. É outra cultura. O polícia nos EUA, com 15 anos de serviço ganha 177.000 dólares por ano… aqui ganha 20.000 euros… brutos.
        Nos EUA se um militar entra num avião fardado, as pessoas da primeira classe cedem-lhe o lugar e dizem: thank you for your service.
        Aqui um militar até tem vergonha de andar fardado na rua… é um parasita, segundo dizem.
        Sociedades diferentes, onde numa se aplica uma doutrina de respeito e agradecimento, noutra desdenha-se porque não se gosta de receber ordens.
        Mas uma coisa é certa… quem dá a ordem é a lei… o polícia é apenas a sua voz, é quem a aplica… quando não gostar de receber a ordem, experimente reclamar para a ministra da justiça por a ter escrito, ou para a assembleia por a ter promulgado… o polícia apenas cumpre aquilo que alguém, em quem o senhor votou, escreveu um dia.

    4. Não sabia que nas polícias os chefes também são mais do que os índios…
      E, se calhar, os chefes nunca fazem rondas e as maiores chatices são atiradas para a arraia-miúda.

  8. O artigo parece-me isento. Analisa os intervenientes e as críticas positivas e negativas a cada grupo. Mas reconheço, não sei apontar soluções.

    1. Não são fáceis, mas existem. Dado o agravar dos problemas e a crescente radicalização do sector, a implementação de soluções será cada vez mais difícil.

  9. pois, ate á proxima manifestaçao, e de manifestaçao em manifestaçao, acabara por ser trivial.

    Muitos bem, os problemas sao esses e antigos.

    No geral os policias estao com a razao , ate nutro admiraçao por quem luta, mas ficaria muito incomodado se os governos cedessem aos policias.

    Os governos fazem e farao o que fazemos com os nossos filhos para evitar conflitos.

    PS : como em tudo, quando nao houverem candidatos para a policia, o governo tera de abrir os cordoes á bolsa. (por enquanto continuam a fazer fila para entrarem na policia ) A policia é uma profissao, na leii do mercado como as mais .

    1. ” quando nao houverem candidatos para a policia”. Desculpe lá mas tem de estudar o verbo haver. É um verbo chato, lá isso é.

  10. Ou seja, tudo vai ficar na mesma até o pais implodir por todos os lados (SS, segurança interna, pirâmide demográfica cada vez mais inquinada, etc…)

    Nada que nos deva supreender, Portugal mostra uma incapacidade de se gerir de forma sã em democracia, é crónico e consegue-se ver mesmo antes do nascimento da 1.ª República.

    Continuem-se a queixar do Ventura, ele simplesmente é um sinal bastante visivel de um regime moribundo que ao minimo empurrão cai, como caiu em 1926 e 74.

  11. Para quem critica PSP e GNR…basta relembrar o Hugo Ermano. a.Jamaica..e a gritaria “progressista” que provocaram…..deveriam exatamente ir em serviço para o Jamaica .. cova da Moura..e bairros semelhantes…..

  12. O senhor é desonesto….começa por dar a razao aos policias que reivindicam melhores condições e depois ponto por ponto acaba por se contradizer e dizer que nao têm razão.
    Isto vindo se quem afirma ter participado na negociação com os sindicatos…
    Tem então a sua cota parte de culpa..por nada ter sido tambem por si feito.
    Os portugueses na generalidade não sabem a policia que os serve, as condições que têm. se o soubessem em vez de 15000 pessoas estariam de certeza centenas de milhares, tambem eles a lutar por um serviço público melhor.

  13. A paz podre dos poderosos terminou. Começou a era do vosso desassossego.
    As forças de segurança e militares são as instituições mais queridas dos portugueses, e têm sido tão desconsideradas pelos defensores do capitalismo selvagem e do capitalismo do estado. Os portugueses são bons em qualquer parte do mundo, mas em Portugal não conseguem funcionar. Porquê?

  14. “…resistência dos sindicatos e associações profissionais…”, na PSP e GNR, nos enfermeiros, médicos, professores dos vários níveis de ensino, enfim, toda a FP em geral, o corporativismo no seu pior!

    1. Certo, mas muitas das reivindicações dos profissionais da PSP e da GNR são inteiramente justificadas. Têm razões de queixa de sobra. Coisa diferente é saber como essas reivindicações foram – e são – defendidas perante a opinião pública e os decisores políticos.

  15. Não deixa de ser interessante ver nos polícias no setor estatal o mesmo truque que nos camionistas no setor privado: um salário baixo complementado por uma data de subsídios que fogem aos impostos. Uma tramoia sinistra. Só que, honra lhes seja feita, os (sindicatos dos) camionistas no setor privado pretendem corrigir esta situação, passando tudo para o salário, enquanto que lamentavelmente os (sindicatos dos) polícias no setor estatal querem continuar com ela.

  16. O Movimento Zero nasce na sequência do processo que alguns agentes da PSP tiveram no caso da esquadra de Alfragide.

    Não tem nada a ver com insatisfação de carreiras, remunerações ou condições degradantes das esquadras.

    É “apenas” um movimento racista. E não é coisa pouca dado os seus elementos serem profissionais de uma força de segurança, com acesso a armas e com alguma legitimidade para exercer coação.

    Que se ande a assobiar para o lado é que me parece bastante perigoso. Já deviam ter sido identificados e ser-lhes aplicado um processo disciplinar pela conduta pública que vêm tendo.

    1. Racista??!?
      Desculpe mas nao sabe o que diz…
      Veja as imagens da manifestação e claramente consegue descobrir policias de tez escura!
      Os policias não gostam é de criminosos, sejam eles de que cor forem.
      É daqueles que embarcou na ideia do simbolo whitepower?!? Nao se deixe levar pela imprensa de esquerda radical…

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