O comentário da semana


Pedro Correia,

«Terra ou terra?
A terra tem coisas boas. O meu irmão comia terra. Falta de ferro – opinou o pediatra que também era meu tio.
Eu preferi bosta de vaca, quentinha, acabada de fazer. Saí largado para casa e trouxe uma colher. Sentei-me no chão, bosta entre as pernas abertas e comi à colherada até que a Luzia, cozinheira da casa, me pegou ao colo horrorizada.
Há gostos para tudo. Talvez a comida aquecida fosse da minha preferência e, sobretudo, não arranhava os dentes.
Sabemos que a dieta tem consequências futuras. Tenho 1,80 m e o meu irmão ficou-se pelos 1,65. Prova que merda de vaca é melhor que terra crua.

E mesmo quanto à Terra, sou geólogo porque sempre me fascinaram os minerais e os cristais. E depois as falhas, as dobras e até o cavalgamento que o Canadá resolveu fazer à Península Ibérica. Fascinante!
Arrastou consigo os sedimentos que estavam no fundo do mar. Foram mesmo buldeziriados, dobrados, esticados e acamados numa série com centenas de metros de histórias para contar.
Esta é a Grande História de Portugal. Os sedimentos, assim esmagados e comprimidos transformaram-se em xisto. E nesse xisto, que consegue reter água mesmo em períodos de seca grave, se produziu o milagre do Vinho do Porto.

Quanto ao meu irmão, ficou-se pelo curso de História. Do Vinho do Porto apenas sabe uma coisinhas do Marquês de Pombal e da chegada dos ingleses para o comercializar.
Fica para sempre o civismo e simpatia dos portuenses, mesmo com palavrões à mistura. Talvez tenham sido os ingleses a tornar única esta cidade que não é nem parece mediterrânica. É atlântica. Adoro-a e não sou de lá.»

 

Do nosso leitor José Carlos Menezes. A propósito deste meu texto.

0 comentários em “O comentário da semana”

  1. Terra ou terra , bosta ou bosta é tudo do mesmo. Eu também apanhava bosta quando passavam as vacas ou os bois e era para tapar a porta do forno onde se cozia o pão. Era tudo terra da terra.

  2. Consta-se que agora a bosta é uma matéria prima tão rara e já tão em vias de extinção, que até há poetas que chegam a dedicarem-lhe poemas de enlevado teor.Verdade…

  3. Um belissimo postal, este comentário: da infância do planeta e das pessoas àquilo em que se transformaram. Obviamente que JCM não acredita naquela relação entre o 1,80 dele e o 1,65 do irmão, justificados pelas preferências gastronómicas enquanto infantes, mas também é parte do que dá ao que escreveu um enorme encanto 🙂

  4. nunca me ocorrera, e faz sentido: o Porto / o Norte ser Atlântico. por exclusão (não oposição) ao Mediterrâneo.

    1. São dados científicos com origem em múltiplas facetas das, digamos assim, 3 partes do país (Norte, Centro, Sul): no Centro, existem as 2 influências, Atlântico e Mediterrâneo e, no Sul, o Mediterrâneo.

      Há um senhor que deveria ser abordado nas aulas, e não só nas de disciplinas de ciência, pelo menos a partir do 3º Ciclo: Orlando Ribeiro, um Mestre.

  5. Terra é terra, dá força e tónus de idade terna.
    E bosta da terra vem, fazendo uma pequena estada é que sabe bem.
    E a vaca é um animal muito útil. Sabia que se bebia por fora e comia por dentro, e agora também se come por fora. 🙂
    Excelente comentário da semana.

  6. Reforço e acrescento releituras de Orlando Ribeiro(o que se apanhar em alfarrábios porque agora só próza de verdeais redutores) e de Matoso filho et al.-
    -O Sabor da Terra.

  7. É por comentários como este que, nem que seja uma vez por mês, sabe bem rolar o rato sobre o DO, para ler os regalos.
    Infelizmente, as várias sopas de hidranja (hortência) que fiz e comi em criança, assim como o mascar dos pés de rosa não me conseguiram orientar para as ciências nem ajudaram a crescer na direcção certa. Devia ter investido na bosta da vaca ali à mão de semear. Falta de estratégia! Confere, acabei em direito (com minúscula). Triste sina, com a Terra inteira para estudar.
    Isabel

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