«Tenho de acreditar nalguma coisa, exige-mo a minha racionalidade.
Não posso aceitar, como ser pensante que sou, que seja um acaso a justificação para o meu aparecimento neste mundo. Nem eu, nem a humanidade nem o universo.
Um acaso? E o que é um acaso? Um acaso é um argumento muito fácil para nos desembaraçarmos de perguntas incómodas. Foi o acaso e está feito.
Mas mesmo que fosse: vamos hipoteticamente aceitar esse acaso como a criação de tudo. E o que é? Quem tornou esse eventual acaso uma realidade criadora? De onde surgiu? Como se formou? De onde veio e apareceu?
Para mim, e unicamente para mim sem questionar nem contraditar opiniões contrárias, portanto para mim e para o que a estrutura da minha racionalidade diz, dado que do nada se obtém nada, então houve alguém ou alguma coisa que criou.
E só encontro uma explicação. Inteligência. Uma inteligência muito grande, imensa, de enormidade tremenda e infinita preenchendo todo o espaço cósmico, o nosso e aquele que não conhecemos.
Assim, em meu entendimento, faz algum sentido a religião quando diz que Deus (Inteligência) está aqui, está ali e em toda a parte.
E nós também fazemos parte dela porque, vá-se lá saber porquê, parte dessa inteligência, uma migalha como uma gota de água derramada nos oceanos, foi-nos concedida. Chamemos-lhe alma, ou espírito, como quisermos.
Volta a ter algum sentido para mim quando a igreja diz que Deus criou o homem à sua imagem e semelhança.
Não vejo muito bem para quê se só a utilizamos para destruir, e provavelmente seria muito melhor se fosse aplicada numa mosca ou numa barata, mas pronto. Foi assim e assim será.
Talvez para que possamos ser responsáveis pelos nosso actos. Deve ter sido. Ninguém pede responsabilidades a um gato que saltou e rasgou a cortina.
Isto é Deus para mim. Inteligência.»
Do nosso leitor Corvo. A propósito deste texto do João Campos.

Inteligência fala de oportunidade-capacidade, não motivo-finalidade.
É aqui que a crença filosófica dá passo (salto de abismo!) à religião.
Sabe mais que eu que acredito que Ele existe sem saber o que, quem e como divinos. Também julgo que seja essa inteligência superior de que participamos, mas intuo que há muito mais e que não descortino. Talvez por não ser a racionalidade a única especialista – se alguma há – em assuntos de transcendência divina.
Haverá, deve haver muito mais para lá dessa inteligência, mas até ela chego, ou penso chegar.
Para lá dela reconheço as minhas limitações. Mesmo neste assunto em que nada teimo, nada afirmo, nada pretendo mostrar.
Disperso pensamentos meus, apenas.
Desejo-lhe a continuação de um excelente dia.
Os meus cumprimentos.
Este Pessoa,falando pelo horaciano Reis:
Meu gesto que destrói
Meu gesto que destrói
A mole das formigas,
Tomá-lo-ão elas por de um ser divino;
Mas eu não sou divino para mim.
Assim talvez os deuses
Para si o não sejam,
E só de serem do que nós maiores
Tirem o serem deuses para nós.
Seja qual for o certo,
Mesmo para com esses
Que cremos serem deuses, não sejamos
Inteiros numa fé talvez sem causa.
A fé não tem nada a ver com religião.
A fé nada mais é do que a probabilidade de uma, ou mais, expectativa realizada alicerçada em favoráveis acasos.
Uns chamam-lhe destino, outros fado sejam de que crença forem.
Os mais românticos chamam-lhe sonhos.