Brioches e Galpgate


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“Que eles comam brioches” (já que não têm pão) é a célebre frase menosprezadora dos miseráveis esfaimados, sempre atribuída a Maria Antonieta para ilustrar a inconsciência política dos possidentes face aos sentimentos populares – o dito é falso mas è ben trovato.

Vêm-me esses brioches à cabeça ao ler que PS, PCP e PSD se conluiaram para legitimar a oferta de viagens de privados aos políticos no activo, porventura abrindo caminho para arquivar as acusações a uma série de ex-governantes, o célebre Galpgate.

O tal “Galpgate” não será particularmente importante, isto dos políticos terem uma viagem para ir ver um jogo de futebol não será, por si só, suficiente para ulularmos “corruptos”. Mas o impressionante é terem os maiores partidos portugueses legislado esta medida neste momento, quando as representações populares sobre os políticos não são particularmente benévolas – será preciso lembrar o Socratesgate? O alargado rol de políticos cavaquistas com máculas satânicas? As tropelias autárquicas? O longo processo de substituição da PGR, motivo de tantas especulações? O DDT, até íntimo do actual PR, a mostrar como o poder económico subjuga o poder político? Não digo que o poder político seja corrupto, digo que há uma enorme suspeição, a qual afecta a relação com o regime: 30 e tal por cento do pessoal nem sequer vota, e muitos dos votantes continuam no clubismo de que “os dos outros partidos é que são corruptos”.

E neste ambiente – que é também internacional, com a crescente vaga de movimentos excêntricos aos partidos tradicionais, exauridos pela desconfiança crescente face às práticas dos seus dirigentes – os grandes partidos portugueses (quo vadis, PCP?), surgem a “limpar o arquivo”, a legislar para que os seus dirigentes possam receber oferendas e inocentar, retroactivamente, alguns deles. E isso a um mês das eleições, encolhendo os ombros a hipotéticos efeitos eleitorais de uma medida destas. O que demonstra uma crença inabalável do atavismo do comportamento eleitoral dos portugueses, a qual se calhar até é fundamentada (assim o dizem as sondagens, mais deputado para um, menos deputado para outro …). Mas mostra, acima de tudo, uma enorme inconsciência quanto às movimentações das sensibilidades populares, à possibilidade do inesperado num futuro breve, uma cegueira típica de espírito de casta (repito, quo vadis, PCP?).

“Eles que comam brioches”, diz Costa, atrevido como sempre, e Rio, absurdo como parece. E Jerónimo, também? A ver o que o futuro trará.

0 comentários em “Brioches e Galpgate”

    1. metaforicamente falando? Sim. Mas bem que poderíamos ficar a saltar à corda, a crer nas sondagens. E eu nelas creio, mais ou menos, ponto acima, ponto abaixo.

  1. Isto estará porventura ligado a isso:

    https://www.google.com/amp/s/www.tsf.pt/politica/interior/amp/os-segredos-da-polemica-lei-de-financiamento-dos-partidos-9010308.html

    João Paulo Batalha, presidente da Associação Transparência e Integridade lembra que não houve qualquer estudo ou audição da sociedade civil nas alterações feitas à lei e realça que a votação aconteceu na véspera de Natal, “na esperança de que os portugueses não se apercebessem”.

    Conta o jornal Público que não há registo das actas das reuniões, não há registo da audição do presidente do TC, tampouco das propostas de redação da lei. A este propósito, o jornal revela que teve acesso a um e-mail trocado entre os deputados do grupo de trabalho onde constam três propostas de alteração identificadas não com a indicação do partido que sugere as alterações, mas com a designação de proposta A, B e C…..e agora vou tomar banho….9:30 em ponto

    1. Obrigado. Eu tomei conhecimento disto este fim-de-semana. Foi a votação na especialidade, noticiou o Expresso. É uma vergonha e uma inconsciência.
      (V. levanta-se tarde)

        1. Não me lembro de ter usado essa expressão em relação ao Expresso (para mim o “sistema” a denunciar é o que o presidente Dias da Cunha referiu) – mas é possível, não gosto muito do jornal, e desde os 90s, não é coisa politica, era papel a mais. Mas, como é agora costume, apanhei a notícia (factual) seguindo uma partilha colocada nas pérfidas redes sociais.
          (Longe de mim vasculhar-lhe os hábitos privados, tem com toda a certeza opções legítimas)

  2. Vai muito bem aplicado o título. Com o preço da sardinha e do carapau, somos empurrados a comprar lagosta. Acontece que a lagosta é comida por alguns; e os outros têm de a pagar. Em resumo, pagamos a lagosta mas não a comemos, tal como não comemos a sardinha e o carapau.
    É necessário compreender que apesar de sermos um povo dado ao cristianismo, o jejum não pode durar mais de 40 dias, que é o tempo da quaresma. Como já estamos no período ressurecto,…

    1. A minha opinião é que não devemos comer jaquinzinhos nem petingas (apesar de adorar esses petiscos) por razões de equilíbrio ecológico.

      1. Como sou um tipo dado à ecologia, como petingas e jaquinzinhos. Portanto, sustentação da pesca e dos recursos não significa fundamentalismo.

        Ainda como ecologista, acredito que o casamento é a relação que se estabelece entre um casal, isto é, homem e mulher; porque prossegue a continuidade da vida: ecologia e biologia. Tudo o mais que gire em torno da palavra casamento é desvirtuar a semântica e a epistemologia. Portanto, ecologicamente, não aceito que se altere a ordem e o sentido do termo.

        E ainda como ecologista, refuto o feminismo por ser uma teoria e propaganda de poder. As teorias de poder são sempre ratificadas por via do que designo ser o estalinismo legislativo. E o poder esmaga, destrói. Por via do poder, é a lei que oprime. Se defender isto é ser misógino, eu sou. Sempre vi a lei e o poder cair na rua e depois voltar a emergir para novamente voltar a cair na rua. Os ciclos repetem-se.

        1. Bem, que fique claro que a minha alusão a Maria Antonieta e ao facto da “boutade” que lhe é atribuída não ser da sua autoria não vem inscrita em qualquer minha deriva feminista.

          Quanto aos jaquinzinhos (em especial) e às petingas discordo de si, ainda que não seja especialista na matéria: capturar peixe tão pequeno no actual estado de sobreutilização dos recursos piscícolas faz perigar (ou fará) o futuro das espécies. Mas, vil pecador, quando vejo as tais vítimas anunciadas nos cardápios, lambo os beiços, esqueço os princípios (“se não for eu qualquer outro os comerá”) e mando vir …

          Quanto ao casamento nesta minha já provecta idade considero que “vive e deixa viver …”

          1. No primeira alusão, eu sei que é assim. Inverti o sentido para mostrar outra realidade.

            Na segunda, entendo que a sustentação não pode ser fundamentalismo. Aqui defendo as quotas. Eu não fiz apologia da destruição nem do consumo irracional. O sentido é diverso do que interpreta.

            Na última, também concordo com o viver e o deixar viver. Pretendi somente, através da semântica, dar sentido ao termo ecologia e biologia sem criar disrupções.
            E o sentido geral é precisamente derrubar tabus sobre matérias que dizem respeito a todos e não somente a alguns, como se pretende. É necessário coragem para vencer o medo que se pretende induzir fazendo de temas tabus.

  3. A sede que estes partidos têm de se defender como se organizações criminosas se tratassem e a apatia do povo permite que estes comportamentos de impunidade se perpetuem… Infelizmente, começo a temer que seja efectivamente e cultural e os eleitores até achem bem…

    1. A apatia é cultural. E induzida. Por exemplo, encontro pessoas com um conhecimento extraordinário e sistematizado das características, positivas e negativas, do penúltimo lateral-esquerdo do Paços de Ferreira e que estão completamente ausentes de qualquer reflexão crítica sobre o estado da arte do regime político (seja lá em que sentido for). E digo isto sendo bloguista da bola, ali no És a Nossa Fé.

      1. Não me espanta… Já tive uma “medição de pilinhas” em que o outro lado dizia ter uma cultura geral forte e acima da média por conhecer os jogadores de várias ligas, transferências e outras curiosidades da bola… Quando é assim, o melhor é calar-me e dar o palco a quem sabe, de facto.

  4. Também gostava de acreditar nessa ideia: “que o poder político seja corrupto”, mas são tantos os exemplos de políticos que “involuntariamente” falham esse objectivo…
    Parafraseando: a corrupção não tem cor! Vai desde o laranja ao vermelho passando pelo azul e corderosa.
    E isto leva-me até à mesa de voto; vou votar em quem?
    Cumprimentos

    1. Sem qualquer stress apenas repito que o meu postal não procura afirmar que o poder político é corrupto, ou que não é. Falo das representações colectivas sobre a “classe política”, dos inúmeros debates. É outra coisa.

  5. Na Ucrânia ganhou um comediante.
    USA tem um comediante.
    GB tem uma comediante.
    E assim por diante.
    Já Portugal tem muitos comediantes, desde o Costa até ao último, passado pelo PR.
    Portugal é uma paródia.

    1. Bem, e tal como nos afirma, resta-nos a consolação de não irmos sozinhos na parada. E a de não sermos os mais competentes, na referida paródia …

    2. Lá isso é.
      Agora anda aí um petitório para os pais terem direito a 12 meses de licença de parto e que os putos mamem até aos dois anos.
      O PAN apoia. O bloco não pode ficar atrás e também irá apoiar. O pcp está caquético, já não por burro nem por albarda, pelo que nada dirá. já o PS, o PPD e o CDS apoiarão. Todos eles querem mamar. Quanto aos putos, passam a mamar em pé e em público. A Paródia nacional vai ser, além do mais, uma montra de mamas. Acho bem.

      1. Se os putos mamarem até aos dois anos, abençoadas mães que os nutrem.
        Falo por mim que mamei para lá dos três e ainda não dei por repercussões nefastas para a minha saúde, e muito ao invés.
        Quanto à montra de mamas, talvez esteja enganado. As mulheres não são exibicionistas. Repare bem na praia, agora que vem o tempo dela, quem é que quase sufoca a encolher a barriga.

  6. A Oeste (literalmente) nada de novo : o redil e o rebanho eleitoral em consonância e harmonia.
    Mas tudo modernaço e democrático, “como se faz lá fora”.
    O Dâmaso, e o Lavoura , achariam “chic”…

    JSP

  7. “(…) a legislar para que os seus dirigentes possam receber oferendas e inocentar, retroactivamente, alguns deles”

    A sério que escreveu isto sem pestanejar?
    Leis com aplicação retroactiva?

    Que postal mais populista. Continua a valer escrever tudo para fazer passar mentiras.

    1. ó cultor dos kapas, quer mandar “bocas”? Leia os textos, consulte as ligações neles colocadas e resmungue (também) com as fontes. E vá chamar populista aos gajos dos kapas

      1. Li os textos e confirmo que escreveu o que coloquei entre aspas.
        Está no último parágrafo, se quiser transcrevo-o por inteiro para que não suponha com acusações de descontextualização.

        O problema mesmo é quando alguém lê na totalidade tudo o que escreve e não embarca na lenga-lenga populista, tão em voga nos dias que correm.

        Azar dos kabrais…

        As insinuações que proferiu num outro comentário só revelam desespero argumentatitvo.

        1. Duas coisas: a primeira é a mais relevante, que é a já batida questão do relacionamento com os comentaristas anónimos carregados de certezas e fel, que incompreendem onde estão – não há desespero argumentativo num blog. Pode haver irritação com os comentaristas de tal espécie, que vêm para deturpar e invectivar, mas não desespero: isto é um hóbi, o desespero é para outras coisas da vida.

          Dito isto, vamos às minudências. O que você faz é o tradicional truncar. Eu explicitei que isto abre, porventura, a porta para arquivar os processos abertos a deputados e ex-governantes. Adiante digo que esse é o objectivo, de legislar para retroactivamente inocentar os acusados. Entretanto ligo um texto de um jornal (dito de referência) que escreve: “de acordo com Rui Pereira, jurista e ex-ministro da Administração Interna de José Sócrates (sucedeu-lhe António Costa), a ser aprovada, a nova lei vai ditar o arquivamento de casos como o ‘Galpgate’. E o mesmo vale para o futuro. “[Se existirem condenações], cessam os seus efeitos, por aplicação retroativa da lei mais favorável. Haverá como que uma ‘amnistia indireta’”, sugere Rui Pereira.”.

          você vem aqui, pega numa frase, que é o um proto-corolário disto e bota que o texto é populista. Vá bugiar.

          1. (Parafraseando) Duas coisas, a primeira mais relevante: aqui somos todos anónimos, chamemo-nos jpt, makiavel, ou maria_vai_com_as_outras.
            Assim previne-se (sendo o caso) de criticar o mensageiro e esquecer a mensagem. Mas pode ficar descansado: não escrevo ao serviço de ninguém.
            De certezas e fel, deve saber mais que eu.
            As minudências: para um postal que se quer “não-populista”, o zurzir surdo nos partidos (em todos, mas mais nuns que noutros, como convém), o condicionar uma qualquer iniciativa legislativa sobre o assunto à satisfação da narrativa populista das redes sociais, confundindo essa narrativa com um sentir supostamente colectivo, a referência ao nível de abstenção, não ajuda muito na classificação do postal. Então a quantidade de comentários populistas concordantes, não são mesmo grande companhia.

      2. Li os textos e confirmo que escreveu o que coloquei entre aspas.
        Está no último parágrafo, se quiser transcrevo-o por inteiro para que não suponha com acusações de descontextualização.

        O problema mesmo é quando alguém lê na totalidade tudo o que escreve e não embarca na lenga-lenga populista, tão em voga nos dias que correm.

        Azar dos kabrais…

        As insinuações que proferiu num outro comentário só revelam desespero argumentatitvo.

  8. Nao digo… diz o jpt. Mas eu digo : apesar de tudo, apesar da eterna esperança da direita, a abstençao esta como sempre esteve. Explico melhor : com o malhar permanente nos politicos durante estas decadas, já so votariam meia duzia. E afinal, abstençao continua como sempre esteve, normal.

    e ou me engano, ou é justamente isso que o jpt lamenta, decepcionado, que o povo continue, que nao se revolte.

    por outro lado, basta o ps e psd, juntos somam uns 3/4 do eleitorado votante.

    pergunto ao jpt : que deveriam os parlamentares legislar para contentar os que nao votam ? !!!

    Nao digo, nao pergunto mais, mas sao fundadas as suspeitas de muitos ativistas desses que nao votam…

    1. o seu raciocínio não é impertinente. Mas não me identifico nisso. Eu apenas digo que há um terço da populaçao que não vota (honestamente não sei como está a questão dos cadernos eleitorais e se tem alguma influencia nos números finais) e que isso deverá significar (por um feixe de razões) que não se sente atraído pela intervenção política. E que os outros (os votantes) têm algum imobilismo eleitoral – não absoluto como é óbvio, mas há uma grande fidelização do voto. E o que digo é que isso coexiste com uma representação negativa dos “políticos” (“eles”) e que um dia isso pode promover uma alteração, até inesperada, do quadro eleitoral (como tem acontecido noutros países – itália, espanha, por exemplo). E que os políticos não pensam nisso. Contrariamente ao que diz eu não quero que o povo se revolte (nem sequer acredito). O que gostaria é que a prática política melhorasse, nao para uma escola de virtudes mas para algum tino.

      Quanto à pergunta que me faz: que deveriam fazer (legislar) para contentar quem não vota? Em princípio os que não votam não são o problema dos políticos, eles preocupam-se é com os que votam. Mas, contornando essa característica pragmática da acção política, respondo-lhe assim: se eu soubesse responder-lhe faria um relatório e ia vendê-lo às direcções dos partidos políticos. Bom jeito me faria.

  9. Para quem possa achar que é populista acreditar que a intervenção legislativa em curso permitirá acabar com os processos anteriores fica este texto. É porreiro “amandar bocas” nos comentários dos blogs …

    https://observador.pt/opiniao/o-parlamento-vai-mesmo-interferir-num-processo-judicial-em-curso-que-envolve-politicos/?fbclid=IwAR3tDkBqkEpf76CbFE8r4iYT1LN16NEeOBb6gFvrFBEbVQBjE_PwMqRiLJI

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