«Um belo dia, uma senhora natural de Vera Cruz interpelou-me em Belém e perguntou: “Moça, a Senhora fala português?” Ficou um tanto baralhada com a minha resposta: “Se me deixarem, falo sim.” Mas como entendeu em boa língua lusa as direcções que pretendia, ficou satisfeita e agradeceu, não deixando porém de referir que quase todos os lisboetas falam “como se estivessem com a boca cheia e não se entende…”
Precisamos seguramente de lições de dicção, de preferência sem consoantes mudas.»
Da nossa leitora Maria Dulce Fernandes. A propósito deste texto do Luís Menezes Leitão.

Achei tragicómico ao ler, continuo a achar ao reler.
Mas lembro-me de ter achado o mesmo da fala de uns hermosos andebolistas que há muitos muitos anos me interromperam o silêncio em plena travessia mediterrânica rumo a Ceuta, não sei se confundida com a pronúncia ou com a atenção que os meus nada aparentes 13 anos despertavam.
Talvez que as línguas se estiquem ao parir outros sotaques? Talvez que a falta de delicadeza nada tenha a ver com sotaques?
Enfim, ainda hoje um “douto professor” invectivava em pretoguês contra a xenofobia evidente nos “detratores ao acordo”, fruto certamente da nossa “cultura retrógrada”… ufa!
Mas a sério, a confusão entre lógica e nacionalismo está diagnosticada, chama-se complexo do colonizado ou culpa do colonizador, conforme o caso. Já os saudosistas não confundem nada, limitam-se a aproveitar a boleia da lógica e do amor à língua.
Maria Dulce, os pasteuzinhos de Belêm são segredo de polichinelo 😉
Bem , em dia ( ou noite) de Óscars, cabe-me agradecer aos pais , aos filhos , aos santos de espírito que lêem o que comento, e ao Pedro Correia e a todos os Delituosos que votaram em mim. Muito obrigada ! Ah ! E ao meu marido que me atura há 38 anos e é um querido !
( pausa para ficar emocionada) e depois seria suposto falar da luta feminista , por isso fico por aqui…
Sarin, de todos os segredos que possa haver em Belém , o dos ” páchtéuzinho”, sei não… 🙂 🙂 e calha nem conhecer alguém chamado Polichinelo, caramba ! … 🙂 🙂 🙂 🙂 🙂
Outra vez Anónimo… Peço desculpa
(cumprimento-a com uma vénia agradecida pela qualidade dos seus comentários, Dulce)
Por mim cultivarei, já o faço, a pronúncia das consoantes ditas mudas. Nem todas verdadeiramente o são e, ainda que isso me valha a sobranceira desconsideração dos que por estes tempos mandam (e um dia, não espantaria, ainda valerá processo disciplinar, despedimento e a “atenção” das finanças), a tanto me obriga a mais elementar decência.
Mil defeitos que tenha a fala lisboeta (a minha), não a modificarei para agradar a brasileiros ou quaisquer outros lusófonos. Como não me passa pela cabeça exigir-lhes que se submetam à minha. E, muito menos, eu ou eles a terceiros géneros demonstradamente inúteis e indefensáveis.
Do Minho a Timor (ui!…) todos, querendo, nos entendemos em português. Falado ou escrito. Com as variantes e diferenças que, em cada lugar, o tempo pacífica, fundamentada e serenamente consagrou. Pausando a dicção, se necessário for. Evitando vocabulários particularmente vernaculares, se preferível. Com boa vontade de quem fala e de quem escuta. De quem escreve e de quem lê.
Pelo Brasil parece haver corrente académica (ou para lá disso) que pretende elevar a que por lá se fala e escreve a língua específica, própria. Soberana, enfim. Não são só os antigos colonizadores a padecer de complexos. Que sigam, querendo, esse caminho. Têm o peso demográfico para, por tal critério, tanto legitimar.
Não temos nós é que ser arrastados. Nem pretender arrastá-los (como se isso fosse possível). Brasileiros ou quem seja.
Costa