«Quem tomou Deus e a religião católica em doses maciças quando era pequeno, ou pauta-se toda a vida pela fé, ou depois de revoluções em que a religião é o ópio do povo e a malta tem o sangue na guelra, tem tendência para desvalorizar Deus, mesmo que não perca totalmente a fé nem oblitere radicalmente os dogmas que lhe assistiram na infância. Os santos são idolatria, a missa é uma fantochada, o Cristo não é o que a Bíblia conta… e lê-se com 15 anos Eram os Deuses Astronautas e fica-se com a cabeça a fervilhar com ideias contraditórias, cada uma mais fascinante do que a anterior.
E os dias passam e a pessoa envelhece. Nunca podemos dizer que estamos bem, e quando somos postos à prova, surge-nos então o pensamento de Deus, do Deus a quem rogamos, o mesmo que sempre esteve presente, nunca nos deixou, que renegámos e teimámos não ver. Espantamo-nos por reencontrar a fé intacta (apesar de no fundo continuarmos a pensar que os santos são idolatria, a missa é uma fantochada, o Cristo não é o que a Bíblia conta…) e sentimo-nos gratos pela outra face.
O desespero redescobre a nossa devoção. Nunca mais olharemos o céu, o mar e cada um de nós do mesmo modo. Daremos sempre graças a Deus.
PS: Os plurais e tempos verbais devem-se a sermos muitos lá em casa e não a nenhuma enteomania bíblica.»
Da nossa leitora Maria Dulce Fernandes. A propósito deste texto da Joana Nave.
