«A realidade é mais colorida. E a diferença mais que económica é social. Vivo melhor financeiramente que os meus pais com a minha idade (26 anos), mesmo que fossem solteiros e com menos despesas, mas sou menos, sou menos família, menos filhos, menos responsabilidades, mais livre e no entanto mais preso ao vazio. Temos horizontes diferentes, fomos semeados em tempos diferentes. Sou mais individualista, egoísta. Numa sociedade em que cresci (pese certas dificuldades) como nenhuma outra na história deste país, vivo constantemente preso ao medo e à comodidade. Perdeu-se o estímulo, como me estimular? Saindo de mim e do meu horizonte, procurando noutra paragem por algo que não se pareça com aquela em que vivo? (…) Sou também mais materialista, sem fé, mais universal, mais distante, mais fechado na minha relativa abertura (e eles abertos no seu fechamento…). Pergunto-me se no último momento serão os carros, casas e roupas que possuí a quem me agarrarei desejando fugir à morte… Vivemos vidas solitárias, vivendo de mais nas nossas camas. O retrato é incompleto, injusto, exponenciado e pegando em parte desconexas, existem outras dimensões, algumas mais parecidas com um passado próximo, que nos soa já demasiado distante. Ó mente, ó realidade que te pintas de tantas cores, deixa-me agarrar aos lençóis, já não existem mesas estáveis.»
Do nosso leitor Miguel R. A propósito deste texto do Luís Naves

E fez-se ruidoso silêncio.
Bem escolhido, Pedro. Tinha de ser este.
Bom, obrigado acho eu. Gostava de dizer que acho mesmo que num afã de posse nos distanciamos dos nossos semelhantes e perdemos noção do mais importante. Todos queremos ter uma vida materialmente confortável e que nos permita crescer a vários níveis, mas ao fim e ao cabo o mais importante são os laços afectivos e os momentos vividos com as pessoas de quem gostamos. Os meus pais talvez não tenham a noção absolutamente consciente disso, mas também não precisam dela para nada. Não lhes imponham coisas que não são deles. Para mim maturidade foi perceber isso.
Em suma, fico bastante assustado porque às vezes apercebo-me de pessoas que não sabem como reagir a um bom dia ou a qualquer atenção minha. Há pessoas que autenticamente bloqueiam, não é por má educação. Naquilo que faço por vezes calha fazer trabalhos que implicam ouvir os mais velhos e percebo qual a sua nostalgia e percebo também a riqueza das suas vidas.
A atitude certa é essa, Miguel.
Destaco duas frases:
«O mais importante são os laços afectivos e os momentos vividos com as pessoas de quem gostamos.»
«Naquilo que faço por vezes calha fazer trabalhos que implicam ouvir os mais velhos e percebo qual a sua nostalgia e percebo também a riqueza das suas vidas.«
Saber escutar os outros e aprender com eles é fundamental.