«Eu li o texto de Self e não me senti nada persuadido da sua tese. Parece que Orwell cometeu o crime de ter uma opinião sobre estilo – no caso dele, simples, directo, despojado, como fica bem ao jornalista que era – e Self deduz disso uma mente reaccionária que queria o inglês parado no ano de 1945. O estilo de Orwell serviu-lhe bastante bem. Mas Self não lhe perdoa não ter querido ser James Joyce ou Vladimir Nabokov. Parece-me que Orwell compreendia as suas limitações literárias e ateve-se ao que podia fazer com esmero. 1984 é um dos mais cativantes romances que já li; os ensaios dele também são lúcidos, cogentes e inteligentes. Orwell era um grande comunicador e essa é a melhor qualidade que transparece da sua obra: o seu dom de transmitir informação ao leitor.
Quanto a Self, pelo que conheço da sua fama, ele parece ser um cavalheiro ressabiado que não é levado muito a sério como romancista no Reino Unido apesar de se esforçar por ser um dos grandes da actualidade. Geralmente eu só ouço falar dele, não por causa dos romances, mas devido a artigos controversos como este. O último que me trouxe à atenção dele foi sobre o cediço tema da Morte do Romance. Já não há pachorra!
Agora quanto ao texto do Luís Naves, há tanta coisa para discutir nele:
1) Eu, apesar de tudo, pertenço ao campo de Self no tocante ao estilo: prefiro-o complexo; a escrita literária não é escrita jornalística, é um outro tipo de escrito, mais elaborada, trabalhada, surpreendente e bela. Prefiro de longe Nabokov a Hemingway; prefiro as frases longas de Saramago às curtas frases declarativas de Raymond Carver; prefiro a desfragmentação temporal de Torrente Ballester à linearidade de Agatha Christie. A escrita literária tem de comportar alguma complexidade e dificuldade, caso contrário não há motivo para ler um romance em vez dum jornal.
2) Dizer que Self reage ou não contra a tradição depende de como a encaramos. A visão de que o romance antigamente era simples e linear e claro, e depois vieram os Modernistas e os Pós-Modernistas e ficou tudo uma trapalhada sem nexo, parte do princípio de que o romance é aquela fórmula que se convencionou imitar desde o século XIX. Na verdade, Steven Moore, em The Novel: An Alternative History, traça uma história do romance que contraria essa visão e coloca a complexidade, a arte pela arte, a pirueta técnica, o bizarro, como elementos muito antigos do romance que na verdade se perderam com a sua banalização e massificação (século XIX) e que foram redescobertos pelos autores do século XX, assim fazendo de Joyce e companhia tradicionalistas.
3) Quanto aos leitores não quererem o pós-modernismo, a verdade é que eles não querem nada; se os autores dessem aos leitores apenas o que eles querem, não haveria literatura. Ela existe, não pela graça de leitores, mas apesar deles, que estão demasiado ocupados a ler Eugéne Sue, A Rosa do Adro, Adrian Mole e romances policiais escandinavos para perceberem seja o que for. Eu fico feliz por haver homens e mulheres que se esforçam para criar maravilhosas obras literárias que sabem que ninguém vai querer ler, apesar do trabalho que exigiram e da beleza que emitem. Ninguém quer saber que William Gass tenha passado 25 anos a escrever um romance aliterativo de 600 páginas: cada frase é uma melodia, cada palavra foi cuidadosamente escolhida para ressoar noutra, é um longuíssimo poema em prosa de inexcedível brio, e ninguém quer saber. E Gass é do mais pós-modernista que há, foi ele quem cunhou a palavra meta-ficção. Eu estou grato aos pós-modernistas, eles revolucionaram a literatura, fizeram coisas que ninguém achava ser possível, mas ninguém quer saber de excelência porque é mais divertido andar a ler a Lisbeth a punir violadores com vibradores pelo cu acima.
4) Sobre a triste figura dos jovens escritores, absolutamente de acordo. Leio as entrevistas deles e não parecem ter uma única ideia que seja deles, que não seja um cliché de modas e tendências bem-pensantes. Acabei de ler Conversas com António Lobo Antunes, de María Luísa Blanco, seguido de Os Escritores (Também) Têm Coisas a Dizer, com entrevistas de Valter Hugo Mãe e Gonçalo M. Tavares, e o contraste era tremendo entre a honestidade brutal de um e a vontade de não ofender muito dos mais novitos.»
Do nosso leitor Luís Miguel Rosa. A propósito deste texto do Luís Naves.


Pedro, obrigado.
Não tem de quê, Miguel. Foi merecido.
Concordo absolutamente com o Luís quando diz que a literatura existe apesar dos leitores. Especialmente nos dias que correm, em que há pouca paciência para livros que dêem trabalho e que não sejam acção, seguida de acção, com reviravoltas a cada capítulo. Enfim, é a lógica do “here we are now, entertain us!”.
No entanto, acho que há também uma tendência para achar que a boa literatura tem de ser complexa e hermética e não me revejo de forma nenhuma nessa filosofia. É difícil definir o que é boa literatura, cada um de nós terá os seus critérios, mas a simplicidade, quando bem explorada, pode ser um atributo de livros de enorme qualidade. O que é preciso é que haja talento!
Não concordo é com a última parte do comentário do Luís, com a generalização que os jovens escritores são todos cabeças de vento e os antigos é que são bons. Temos muito essa tendência do saudosismo e nem sempre se justifica. Em concreto, nos exemplos que o Luís deu das entrevistas do “Os Escritores (Também) Têm Coisas a Dizer”, a minha opinião é totalmente a oposta. Em vez de “honestidade brutal” prefiro “arrogância” para falar da entrevista do Lobo Antunes. Fica muito mal a alguém dizer, quando lhe falam de Saramago, “compare-me com alguém do meu tamanho”. E as entrevistas do Valter Hugo Mãe e do M. Tavares parecem-me muito interessantes. Acho que acusar o Valter Hugo Mãe de ser um reprodutor de clichés é algo injusto. Mesmo porque ele diz coisas algo polémicas na sua entrevista, mais que não seja pela forma como expõe a sua intimidade (a páginas tantas ele refere ter ponderado suicidar-se!).
Mas não entenda este comentário como um ataque Luís, só não acho que a questão seja tão linear. Há jovens autores que são fraquitos, mas também há excepções.
Subscrevo inteiramente este texto do João Oliveira, nem vale a pena escrever nada pois ele diz tudo o que eu gostaria de ter escrito.
🙂
Antonieta
Obrigado Antonieta 🙂 Simpática, como sempre.
Caro João, obrigado por responder.
1) “Especialmente nos dias que correm, em que há pouca paciência para livros que dêem trabalho e que não sejam acção, seguida de acção, com reviravoltas a cada capítulo.”
Mas também era assim no tempo de Cervantes e Voltaire e Fielding . Lembro-me de um qualquer ensaio de Calvino sobre Cândido em que frisa precisamente o ritmo desenfreado da narrativa. O romance pícaro, anterior, com as suas peripécias e reviravoltas e enredos complicados, foi algo totalmente inovador na altura. Muitas das bestas céleres, para as quais eu admito não ter qualquer paciência, apenas mantêm viva essa tradição que já foi a espinha dorsal do romance. O cisma, pelo que percebo, ocorreu no século XIX com uma literatura cada vez mais burguesa e ensimesmada com a sua classe – Balzac , Flaubert , Tolstoy , Eça – ao passo que o melodrama, que as classes baixas continuavam a exigir, foi ficando nas mãos de tarefeiros, e ocasionalmente de um grande romancista como Dickens ou Hugo. Os leitores sempre quiseram histórias de amor felizes, heróis recompensados e vilões punidos; foram os grandes nomes do século XIX que acharam estarem acima dessas vulgaridades, criando um mercado para os sem talento. Ora quando o melodrama fica nas mãos de medíocres mais cedo ou mais tarde todo o melodrama vai ser considerado medíocre. E porém melodrama em mãos talentosas, por exemplo nas de Gabriel García Márquez, é muito bom. Essa é uma questão que interessou e continua a interessar escritores como T.S. Eliot, Borges e mais recentemente Vargas Llosa: como voltar a escrever melodrama com mérito literário. Vargas Llosa destaca Rubem Fonseca como um bom exemplo; não discordo completamente.
Miguel, antes de mais, tenho todo o prazer em responder-lhe, porque debater ideias com alguém inteligente a articulado é algo que me apraz muito. E pelo que já fui lendo no seu blogue, o Miguel sabe claramente do que fala e não é nada cinzentão, o que é algo que eu valorizo.
Quanto ao que diz neste primeiro ponto estamos plenamente de acordo, colocando-se a tónica no talento como eu fazia no meu comentário. Para mim não há géneros bons nem maus, há sim escritores com e sem talento.
Quanto à questão dos livros focados em acção, obviamente que houve sempre livros para todos os gostos. Mas o meu comentário não focava a produção literária, mas sim a mudança das práticas de consumo de literatura e até de cultura no geral. A democratização da cultura começa no final do século XIX, acompanhando a difusão da educação. Até essa altura, podem existir algumas pessoas das classes popular a ler, mas não serão expressivas. E obviamente que nesse tempo, pelo contexto da própria sociedade, as pessoas que liam tinham mais disponibilidade e maior preparação para ler livros de um pendor mais contemplativo. As pessoas hoje não têm tempo para as descrições exaustivas da natureza que Proust, já no século XX, faz em “Do Lado de Swann ”, porque uma página sem acção é uma página perdida.
Aquilo a que me referia era por isso uma mudança civilizacional, que não afecta o consumo de melodramas e literatura assente na acção, porque esse consumo sempre existiu e sempre existirá. O que digo é que há uma menor proporção de pessoas disponíveis para gostar de uma literatura mais cerebral, porque há uma cultura de satisfação imediata. Se calhar até compram o livro, porque ouviram falar do autor e fica bem ter livros de alguns escritores, mas depois estão a ler e a pensar “Então mas isto não ata nem desata?! Deixa lá avançar 5 páginas a ver se acontece alguma coisa.”
Caro João, acho mesmo que vamos ter de discordar. Mas parece-me que está a subestimar a quantidade de literatura para as classes mais baixas que já existia antes do final do século XIX; na verdade podemos recuar até 1830. Se ainda não ouviu falar deles, vai divertir-se muito a investigar os meandros dos “penny dreadfuls.” Mas tão populares já eram em 1901 que G. K. Chesterton até lhes escreveu uma “defesa:”
http://gkcdaily.blogspot.pt/2014/05/a-de fence-of-penny-dreadfuls.html
Eu mantenho que é uma visão romântica, essa crença de que antigamente as pessoas tinham mais paciência para livros sem acções e com longas descrições de Ramalhetes. Fala de Proust; bem, eu não conheço a recepção dele na sua época. Mas podemos recuar mais um pouco e pensar em como Moby Dick, com as suas longas descrições de factos baleares, foi ignorado pelos eruditos críticos da época e só foi redescoberto e apreciado por volta de 1920. Onde estavam as tais pessoas de pendor contemplativo? E onde estavam quando os críticos arrasaram Os Miseráveis, que apenas foi um sucesso porque os leitores ignaros ignoraram o que os seus superiores intelectuais pensavam do romance de Victor Hugo? Eu sinceramente acredito que as pessoas, em qualquer época, não têm grande interesse em ler a melhor literatura. Desconfio dessa tal mudança de paradigma, dessa era mítica de leitores sofisticados. As pessoas são pessoas, e sendo pessoas são preguiçosas e dadas à satisfação imediata. Releio o artigo de Chesterton e deparo com uma frase que acho que resume esta questão:
“Literature is a luxury; fiction is a necessity. A work of art can hardly be too short, for its climax is its merit. A story can never be too long, for its conclusion is merely to be deplored, like the last halfpenny or the last pipelight.”
Para mim é isso; as pessoas gostam de ler, não literatura, mas ficção; querem histórias agradáveis, não querem arte que as incomode. É por isso que em 1936 Júlio Dinis era o escritor mais lido em Portugal, e não Eça de Queiroz. Não penso que a percentagem tenha crescido desde há um século; a população aumentou, mas se calhar a percentagem é a mesma: a maioria não quer saber, e depois há um grupo residual que tenta manter viva a qualidade literária. Penso que essa sempre foi a ordem natural das coisas.
Luís estamos tendencialmente de acordo. Mas não faço a apologia do leitor do passado como sofisticado, face aos trogloditas dos leitores actuais. Simplesmente acho que há uma mudança civilizacional, numa sociedade sem tempo e focada no prazer, que não pode ser ignorada e que vem acentuar uma degradação das formas de leitura. Um reflexo disso é algo que tem atormentado muito George Steiner e que é a perda das referências, fruto de um desconhecimento crescente dos clássicos, o que faz com que os leitores actuais estejam muitas vezes mal preparados para ler livros que não sejam totalmente directos e que não percebam certas “pistas” que os autores lhes estão a tentar fornecer.
Sobre a perda de referências clássicas, concordo. Quando estudei na FLUL, houve uma aluna, estudante de literatura espanhola, que nem sabia quem era Miguel de Cervantes. Pensava que era o plural do substantivo espanhol cervante…
Outro problema com que me deparo é a plena incapacidade para se ler sequer, quanto mais entender pistas complicadas. Dado que estou sempre a ler no trabalho, colegas vêm falar comigo sobre livros, ou melhor, sobre quererem gostar de gostar de ler (?); pelo que percebo, há muitas pessoas por esse mundo fora que gostariam de gostar de ler, mas assim que começam a ler uma linha ficam logo cansados e fartos.
Conheci mesmo um rapaz que terminou o liceu há pouco tempo e me assegura de que gostava muito de ler, mas ao fim de 10 páginas já não tem paciência e tem de ir fazer outra coisa qualquer, como brincar com o telemóvel. A ironia é que estas pessoas mantêm uma reverência residual por essa antiga actividade que é a leitura, e também percebem que a tecnologia lhes destruiu a concentração e o gosto da mesma, mas ao mesmo tempo não se conseguem livrar desses entraves. Para eles, o meu andar com o telemóvel descarregado durante três semanas é como que um poder semidivino.
É tudo muito estranho…
Sem dúvida Miguel Na verdade essas pessoas não gostam de ler, gostam de ser percepcionadas como alguém que gosta de ler, porque fica socialmente bem.
E depois há a minha categoria favorita que são as pessoas que gostam de ler “mas não gostam de livros deprimentes”. Tenho lutado para que se perceba que um livro bom não é necessariamente aquele que nos suscita bons sentimentos. O sucesso da escrita muitas vezes passa pela criação de empatia e é necessário que sintamos a angústia sentida pelas personagens. Mas, lá está, para muitas pessoas ler é entretenimento e diversão. Para outras, para mim e para o Luís por exemplo, roubando o lema da Cavalo de Ferro, “a verdadeira literatura não é aquela que nos distrai, mas a que nos concentra”.
Continuando:
2) “No entanto, acho que há também uma tendência para achar que a boa literatura tem de ser complexa e hermética e não me revejo de forma nenhuma nessa filosofia. É difícil definir o que é boa literatura, cada um de nós terá os seus critérios, mas a simplicidade, quando bem explorada, pode ser um atributo de livros de enorme qualidade. O que é preciso é que haja talento!”
Tento não ser dogmático a respeito da questão. Aprecio o esforço e a procura da excelência que muitas leva a esse hermeticismo, porque acredito que a excelência, o rigor e a disciplina são valores importantes e em grande falta hoje em dia. Para reutilizar o exemplo de William Gass, acho que se a classe política colocasse tanto apuro e dedicação no que faz como o escritor colocou na escrita de The Tunnel, o mundo seria muito melhor. Eu não consigo ler Ulysses de Joyce, mas fico feliz por viver num mundo em que um homem não se resignou à mediocridade que nos incutem hoje em dia como a ordem natural das coisas. Esse exemplo, que não só é estético como ético, significa muito para mim.
É curioso, nós hoje somos uma civilização – digo-o em termos globais – que admira o sucesso: os jogadores de futebol que marcam mais golos; os alpinistas que chegam ao topo do Himalaia; o atleta que bate qualquer recorde; o tipo que ganha mais dinheiro; mas na questão de livros, temos sempre muitas reservas a respeito dos escritores que tentam levar mais longe a escrita, que tentam fazer coisas que ninguém achava possível. E penso que a diferença entre o atleta e o escritor é que o outro não mexe com a nossa sensação de incapacidade intelectual. Nós vivemos bem com o não conseguir fazer 100 metros em 10 segundos, mas nesta era democrática, de educação universal, há algo de irritante nestas pessoas que escrevem coisas demasiado complexas e herméticas, que nos deixam um pouco ressabiados, porque não devíamos ser todos iguais afinal de contas? Todos pensamos que somos inteligentes, e depois aquele livro que nos deixa inseguros; bem, obviamente nós somos inteligentes por isso o problema não podemos ser nós: tem de ser o escritor que é pretensioso, que gosta de dar nas vistas, que gosta de se passar por espertinho, que está a fazer de propósito, que anda a complicar só porque sim, etc. Imediatamente assumismo que nos coíbe de pensar que talvez a culpa seja nossa. A humildade intelectual é uma das mais difíceis conquistas do espírito. Quanto a mim, gostava mesmo de ter a inteligência para compreender e apreciar Ulysses, mas sei que não a tenho. Vivo bem com isso e vou lendo outros livros.
Disto isto, também valorizo a imaginação e perdoo simplicidade de estilo se o autor tiver ideias interessantes; caso contrário não conseguiria ler Leonardo Sciascia ou Rubem Fonseca ou John Barth. Cada vez mais penso que os grandes escritores se dividem em dois campos: os estilistas e os contistas. Estilistas são Flaubert e Nabokov e Lobo Antunes, obcecados pela palavra exacta, a metáfora insólita, a precisão. Admiro-os bastante. Depois há os contistas que têm tanta pressa em contar uma boa história, porque têm a cabeça a fervilhar de ideias, que se desleixam um pouco no estilo. Neste campo incluiria Thomas Pynchon, Torrente Ballester e o inesgotável manancial de conceitos bizarros que foi Borges. São raros os que conseguem somar ambos os talentos, talvez um Nabokov, um Saramago, às vezes Eça e García Márquez.
Epá, isto foi um bocado escrito à pressa. Quis dizer, “Imediatamente assumimos uma postura que nos coíbe de pensar que talvez a culpa seja nossa.”
Concordo com bastante do que diz e não leu certamente no meu comentário nenhuma detracção dos escritores herméticos e difíceis. Sou sim contra a complexidade ser sinónimo de qualidade e a simplicidade de falta dela. Por exemplo, li Beckett e não gostei, mas nunca me ouvirá dizer que Beckett é uma porcaria ou que não tem valor literário ou que não mereceu o Nobel. Digo antes: Beckett não tem aquilo que eu valorizo num escritor.
Também admiro o esforço que um escritor possa ter a construir um texto estilizado e complexo, mas isso por si só não basta e muitas vezes há a tendência para achar “é difícil, é bom”. Vale de pouco decorarmos uma casa com obras de arte avant-garde se os alicerces da casa estiverem podres…
Mas estamos a cair numa armadilha que é a de achar que só quem escreve de forma complexa é que é preciso e tem muito trabalho. Rejeito essa ideia em absoluto. A simplicidade de escrita é muitas vezes um exercício de depuração tão ou mais difícil do que o de complexificação. Coetzee escreve tendencialmente livros pequenos, é um autor sintético e muito directo, mas dá uma importância primordial e obsessiva à exactidão da palavra. Procure no YouTube a participação deste escritor no programa de entrevistas “O Belo e a Consolação” e verá até que ponto essa questão é levada por ele a sério.
O processo pode ser um elemento interessante, mas para mim é secundário. O que me interessa é o livro e que o autor faça o que aquele livro necessita para ser o melhor possível. O melhor caminho para um livro pode ser o pior para outro. A estrutura complexa do “Rayuela” do Cortázar é necessária porque corrobora o conteúdo do livro. O fluxo de consciência que Duras utiliza em “O Amante” proporciona o tom confessional que o livro precisa. O estilo de narração do Saramago eleva o “Ensaio sobre a Cegueira” a um nível de obra-prima. Cada livro sua necessidade.
Não tenho a pretensão de querer compreender tudo e também aceito que há coisas que não estão ao meu alcance. Mas há um meio-termo: nem tudo o que não entendemos é só culpa nossa, mesmo porque escrever é comunicar e comunicar é “tornar comum”. É fácil dizer que se o leitor não percebe é por sua culpa, mas acontece que os escritores escrevem para serem lidos (nem que seja por 10 pessoas), caso contrário não publicavam e guardavam os manuscritos na gaveta. Já não me lembro qual era o escritor que dizia que a literatura era como um rio com pedras: alguns autores enchem o caminho de pedras e a travessia é fácil; outros distanciam-nas mais e já criam maiores dificuldades. Mas têm de existir pedras e tem de existir esforço.
“Sou sim contra a complexidade ser sinónimo de qualidade e a simplicidade de falta dela.”
Sobre este ponto não discordamos. Como referi anteriormente, não poderia ler muitos escritores de que gosto se acreditasse nisto de forma dogmática.
“Mas há um meio-termo: nem tudo o que não entendemos é só culpa nossa, mesmo porque escrever é comunicar e comunicar é “tornar comum”.”
Mas se não entendermos por culpa do autor, se calhar isso é premeditado. Joyce foi o pontífice da religião do texto como um objecto fechado sobre si mesmo e quase inexpugnável. Ulysses ainda é compreensível, se bem que monótono para mim (conheço leitores que o acham entusiasmante), e Finnegans Wake já me parece ininteligível , mas se calhar esse é o preço de se levar a escrita até aos seus limites, e os resultados às vezes são fulgurantes. Talvez analogias científicas não sejam uma boa ideia, mas se a ciência apenas quisesse comunicar ideias simples ainda estaríamos a usar a teoria de Ptolomeu, que é uma teoria à medida dos nossos sentidos. A teoria coperniciana requer certa abstracção, ninguém realmente vê uma terra redonda. Também os romances Modernistas a requerem. Apesar disso, confesso que prefiro os meus romances ptolemaicos.
Tal como disse Luís, não sou nada contra a existência e a publicação de livros herméticos, embora não tenha por esse tipo de literatura muito apreço. Para mim a literatura não deve ser reduzida a um exercício intelectual e publicar algo premeditando que a sua compreensão esteja vedada ao leitor parece-me um acto masturbatório que não me merece muita simpatia. Mas que exista e que seja aplaudido por outros. Só não é a minha praia.
Não me parecer ser a melhor solução chamar àquilo de que não gostamos “acto masturbatório.”
Miguel, longe de mim catalogar algo de que não gosto como “acto masturbatório”. Como lhe disse, não gostei de Beckett mas não lhe retiro mérito. Aquilo a que chamei “acto masturbatório” foi a intencionalidade de não ser compreendido, escrever algo que só pode ser percebido pelo próprio. Creio que quando assim é, o escritor é movido mais por motivações do ego, do que por motivações literárias. Mas enfim, é apenas a minha opinião.
Finalizando:
3) “Não concordo é com a última parte do comentário do Luís, com a generalização que os jovens escritores são todos cabeças de vento e os antigos é que são bons.”
Sim, tem razão, generalizei; seja como for, não retirei nada de proveitoso das entrevistas a Valter Hugo Mãe e Gonçalo M. Tavares. Li-as há tão pouco tempo mas já se me varreram da memória. As que persistem deixam-me encabulado: aquela do VHM querer dormir com os ossinhos de Luís de Camões… desculpe?
Desse livro uma das frases que vai perdurando vem da entrevista a Mário de Carvalho, algo sobre os escritores hoje em dia só usarem as habituais 2000 palavras. Lá estou eu a malhar nos novitos outra vez, mas é precisamente essa a impressão que os romances deles me dão: livros com um vocabulário muito batido, muito restrito, muito comum. Escrevem como se tivessem medo de dicionários, e muitas vezes escrevem com total desmazelo. Folheei o novo livro de um senhor chamado João Rebocho Pais e logo nas primeiras frases surge a palavra ‘coisa’… desculpe? Das dezenas de milhares de palavras da língua portuguesa, o autor não encontrou algo mais expressivo?
Quanto ao Lobo Antunes, tem razão, o homem é duma arrogância sem par nas nossas letras. Mas eu gosto disso porque faz parte dessa brutalidade honesta; ele diz o que pensa e lixa-se para as consequências. E já o andava a fazer quando ainda era um jovem escritor. Logo nos anos 80 já andava a mandar abaixo vacas sagradas como Agustina e Vergílio Ferreira. E nos anos 90, aquela de não merecermos o Nobel da Literatura, apenas 2 anos antes de Saramago o receber. O homem podia enveredar pelo discurso reconciliador e politicamente correcto de quem não quer fazer ondas, mas prefere ser ele próprio, ainda que o próprio seja uma pessoa algo repulsiva. E ele não tem medo disso. Admira o VHM por revelar tanta intimidade? Então o que acha destas tiradas de ALA?
“Há em mim uma parte muito autodestrutiva, isso é muito claro e a ideia do suicídio persegue-me sempre. Uma ideia que não sei por que existe porque nunca tive depressões Passei por situações de enorme desespero, mas nunca caí em depressões ou em tristezas. Não sei. É um pensamento que sempre me acompanhou. Uma espécie de vontade de não ser.”
“Recordo de forma especial que chorei muito na noite de fim de ano de 1970. Foi uma noite terrível para mim porque no dia 6 de Janeiro tinha de partir para a guerra e, nessa noite sim, chorei durante toda a noite.”
“Foi um período difícil, depois da separação. E não chegava a conhecê-las… Às vezes, vejo uma mulher e penso: ‘Deitei-me com ela?’ Creio que sim, mas… como se chama? Durante esse tempo não escrevia nada. Passei dois anos sem escrever nada. Não era capaz de escrever.”
“Tinha repugnância física, não só pelas mulheres, mas também por mim mesmo.”
E para voltarmos ao tópico: “A mim enviam-me muitos manuscritos para que dê a minha opinião, e fico surpreendido porque estes jovens querem ser lidos na segunda-feira, ser publicados na terça, ter um êxito extraordinário na quarta e ser traduzidos em todo o mundo na quinta. Não são escritores porque têm um apetite de êxito imediato e essa atitude impede-os de crescer literariamente. Se desejam tanto o êxito, devem dedicar-se a outra coisa. Creio que na actualidade se publicam demasiados livros e com muito escassa ambição literária, nem sequer têm páginas, são muito curtos. Por sua vez, a crítica fica frequentemente embriagada com muita facilidade e o escritor, como teve êxito com uma fórmula, aplica-a a seguir como um autómato. Faz sempre o mesmo por receio de perder o êxito.”
O homem pode ser arrogante, mas as entrevistas têm um grande mérito: posso frequentemente discordar delas, mas são inesquecíveis!!!!!
Creio que temos um problema de base que nunca nos levará a concordar: o Luís tem uma embirração com o Valter Hugo Mãe e eu não morro de amores pelo Lobo Antunes. Tal como a questão de o Valter Hugo Mãe querer dormir com os ossinhos do Camões (era uma piada!!!!! haja sentido de humor!!!!!) obliterou para si o resto da entrevista, eu não consigo atentar nas coisas belíssima que o Lobo Antunes terá certamente dito porque a meio ele decide referir que um autor que ele diz nunca ter lido não está à sua altura. Acho que este comportamento revela uma pequenez e um provincianismo muito pouco merecedores de admiração. Mas a mim o que me interessa é o que o escritor escreve e não quem ele é. Li em tempos o “Exortação aos Crocodilos”, achei o estilo interessante mas não fiquei deslumbrado. Hei-de ler mais livros dele e logo se verá no que acabará a nossa relação. Se me quiser recomendar algum, terei todo o gosto em considerá-lo.
Não disse que admirava o Valter Hugo Mãe por ele revelar tanta intimidade. Disse simplesmente que as coisas que ele diz não encaixam com o seu retrato de alguém que só quer ser politicamente correcto e não ofender ninguém. E o seu exemplo dos ossinhos do Camões só ajuda ao meu argumento. Atenção: não vou fazer aqui a apologia do Valter Hugo Mãe enquanto escritor, mesmo porque escrito por ele só li ainda o conto da Granta . A questão das minúsculas mexe-me um pouco como sistema porque, bem a propósito, acho que é um enfoque despropositado em questões estilísticas quem em nada contribuem para o livro, pelo que tive durante muito tempo um grande desinteresse em lê-lo. A entrevista ajudou-me a ultrapassar essas reservas porque nela fica patente que ele não é um deslumbrado que alcançou a fama em três tempos. E a questão que ele levanta sobre a dificuldade em resguardar a intimidade na poesia (que culminou no acto de catarse das fotografias nu) parece-me algo muito interessante e que dá que pensar. Mas reservo-me o direito de dizer que os livros dele são muito fraquinhos quando os ler, embora não tenha ficado com essa expectativa ao ler a entrevista.
Admito que embirro um pouco com o VHM, acho as entrevistas dele idiotas e também os seus comentários no Facebook. Parece-me mesmo um dos tais jovens autores sedentos de êxito e atenção de que ALA fala. Apesar disso, tenho um livro dele em casa para ler, talvez me deslumbre.
Quanto ao ALA, eu acho engraçado às birras e rixas entre autores, por isso nada do que ele possa dizer sobre o nosso prémio Nobel me incomoda; já li tudo de Saramago, à parte uma peça de teatro e um ou outro texto menor, é o meu romancista favorito (o meu escritor favorito é o Borges, de quem ele também fala muito mal), por isso não há comentários ressabiados e invejosos que possam mudar coisa alguma. Por isso resta apenas a admiração pela coragem de ser contrário e tecer opiniões impopulares.
Se quiser dar uma nova oportunidade ao ALA, recomendo Explicação dos Pássaros, Conhecimento do Inferno e Fado Alexandrino, que me parece ser a sua obra-prima, mas 700 páginas podem ser puxadas para quem está na corda bamba. Não se aproxime dos dois primeiros romances, são execráveis! As Naus também é um óptimo romance curto, e invulgar dentro do estilo dele, um misto de surrealismo, romance histórico e realismo mágico.
Obrigado pelas suas sugestões Luís. Tenho na minha biblioteca o “O Manual dos Inquisidores”. Acha que é uma boa opção, ou que o devo deixar para já de lado e ler antes o “Explicação dos Pássaros” ou o “Conhecimento do Inferno”? O “Fado Alexandrino” parece-me de facto uma grande empreitada e não tenho para já coragem para abraçar tamanho desafio.
O Manual dos Inquisidores eu próprio ainda não o li, ainda que o tenha. A minha recomendação iria mesmo para Explicação dos Pássaros, que é mais curto e divertido, ainda que de uma forma muito negra, do que Conhecimento do Inferno.
Obrigado Miguel! Vou aceitar a sua sugestão.