O comentário da semana


Pedro Correia,

 

«Não sou amante de futebol, não fui tocado pela graça que permite dizer que foi um “jogão” aquele que acabou sem golos, mas nada tenho contra o futebol. É certamente, enquanto tal, uma actividade saudável física e, noutros tempos pelo menos, moralmente. Os tempos em que – coisas agora invocadas a pretexto da morte de Eusébio – os jogadores de diferentes clubes conviviam despretensiosamente fora (e dentro) do campo, em genuína amizade, e os adeptos de diferentes clubes faziam-no também, sem que a pertença a uma das tribos do futebol fosse fundamento e licença para comportamentos de verdadeiro ódio (sibilinamente instigado pelos “dirigentes”), absolutamente anti-sociais e de intocável, quase total, impunidade.

Os tempos em que o derrotado admitia honradamente que o vencedor tinha jogado melhor, apenas isso. Em que o futebol era uma modalidade desportiva, em lugar da fachada de negócios de imobiliária, combustíveis, venda de papel e tempo de emissão, ou o que seja e que, sabe-se lá porquê, necessita dessa fachada. Em lugar da promiscuidade com a política que também aqui grassa, em que da direita e da esquerda não há força política, (quase) não há político em busca de notoriedade, que não venha afirmar a sua paixão pelo futebol e um dos seus clubes. Entre os políticos, conheço apenas um que não tem medo de apontar o dedo ao futebol. E bem o zurzem por isso…

No meio de tudo isso, C. Ronaldo fez o que tinha a fazer: dotado do talento para vingar como jogador, nesse mundo, usou-o. Mérito seu e inquestionável. Já endeusá-lo da forma abjecta, salivante, absolutamente submissa, de adoração religiosa e idolátrica, como se vê fazer, é um péssimo exemplo. Para os mais novos, desde logo. Tudo deve ter uma devida proporção e convém desde cedo instilar na juventude – sem prejuízo do seu direito à infância e aos sonhos de adolescente – um módico de realismo. Ronaldo há-de haver um em centenas de milhares ou milhões de jovens amantes de futebol. Os outros terão que ser talhantes, agricultores, médicos, advogados, lojistas, canalizadores, motoristas, polícias, o que seja. E convém, para bem deles e de todos, que o saibam ser.

Há uma idade para o Peter Pan , os contos de fadas e mesmo para o Super-homem. Depois, fatalmente, chega a realidade. Mas esqueço-me, essas figuras já são hoje praticamente desconhecidas. As criancinhas crescem num mundo de monstros e jogos electrónicos de absurda violẽncia.»

 

Do nosso leitor Costa. A propósito deste texto da Patrícia Reis.

5 comentários em “O comentário da semana”

    1. Assim é. Por estes tempos, qualquer figura infantil até pode ser aparentemente doce. Mas, quase fatalmente, o bicharoco mais terno terá garras ou unhas desproporcionadas e dentes de verdadeiro predador. Ou pior.

      O resto são monstros sem qualquer disfarce; armas e pancadaria. Para consumo de gente ainda na primeira infância. Parece que está muito bem assim.

      Costa

      Ps.: ao D. O., grato fico pelo destaque.

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