«Não sou amante de futebol, não fui tocado pela graça que permite dizer que foi um “jogão” aquele que acabou sem golos, mas nada tenho contra o futebol. É certamente, enquanto tal, uma actividade saudável física e, noutros tempos pelo menos, moralmente. Os tempos em que – coisas agora invocadas a pretexto da morte de Eusébio – os jogadores de diferentes clubes conviviam despretensiosamente fora (e dentro) do campo, em genuína amizade, e os adeptos de diferentes clubes faziam-no também, sem que a pertença a uma das tribos do futebol fosse fundamento e licença para comportamentos de verdadeiro ódio (sibilinamente instigado pelos “dirigentes”), absolutamente anti-sociais e de intocável, quase total, impunidade.
Os tempos em que o derrotado admitia honradamente que o vencedor tinha jogado melhor, apenas isso. Em que o futebol era uma modalidade desportiva, em lugar da fachada de negócios de imobiliária, combustíveis, venda de papel e tempo de emissão, ou o que seja e que, sabe-se lá porquê, necessita dessa fachada. Em lugar da promiscuidade com a política que também aqui grassa, em que da direita e da esquerda não há força política, (quase) não há político em busca de notoriedade, que não venha afirmar a sua paixão pelo futebol e um dos seus clubes. Entre os políticos, conheço apenas um que não tem medo de apontar o dedo ao futebol. E bem o zurzem por isso…
No meio de tudo isso, C. Ronaldo fez o que tinha a fazer: dotado do talento para vingar como jogador, nesse mundo, usou-o. Mérito seu e inquestionável. Já endeusá-lo da forma abjecta, salivante, absolutamente submissa, de adoração religiosa e idolátrica, como se vê fazer, é um péssimo exemplo. Para os mais novos, desde logo. Tudo deve ter uma devida proporção e convém desde cedo instilar na juventude – sem prejuízo do seu direito à infância e aos sonhos de adolescente – um módico de realismo. Ronaldo há-de haver um em centenas de milhares ou milhões de jovens amantes de futebol. Os outros terão que ser talhantes, agricultores, médicos, advogados, lojistas, canalizadores, motoristas, polícias, o que seja. E convém, para bem deles e de todos, que o saibam ser.
Há uma idade para o Peter Pan , os contos de fadas e mesmo para o Super-homem. Depois, fatalmente, chega a realidade. Mas esqueço-me, essas figuras já são hoje praticamente desconhecidas. As criancinhas crescem num mundo de monstros e jogos electrónicos de absurda violẽncia.»
Do nosso leitor Costa. A propósito deste texto da Patrícia Reis.


Os monstros agora são fofinhos, os palhaços é que são malévolos.
Assim é. Por estes tempos, qualquer figura infantil até pode ser aparentemente doce. Mas, quase fatalmente, o bicharoco mais terno terá garras ou unhas desproporcionadas e dentes de verdadeiro predador. Ou pior.
O resto são monstros sem qualquer disfarce; armas e pancadaria. Para consumo de gente ainda na primeira infância. Parece que está muito bem assim.
Costa
Ps.: ao D. O., grato fico pelo destaque.
Gratos ficamos nós pela qualidade dos seus comentários.
Também já tive um comentário que foi, tal como o seu, eleito o cometário da semana.
Este:
http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/589 6232.html
Porra,mas você Costa, escreve melhor que eu!