O comentário da semana


Pedro Correia,

«Moura é a minha terra. Na realidade nasci aqui ao lado, no concelho de Serpa, mas vivo aqui desde os 4 anos. Vivo na rua ao lado desse jardim, em frente à Biblioteca Municipal onde trabalho.
Saí, como todos os adolescentes que o puderam fazer, para estudar. Não consegui deixar o Alentejo, escolhi Évora para os meus estudos superiores e é por lá que continuo a tentar melhorar um bocadinho mais. Regressei a Moura logo que pude. Na verdade, a minha condição de trabalhadora estudante fez com que nunca a deixasse. Trabalho aqui, para esta terra que agora é minha e dos meus filhos. Cada dia é uma nova oportunidade de fazer algo por esta terra, por estas pessoas que insistem, persistem, não desistem.
Ficámos sem comboios, sem hospital, estamos a ficar sem postos de GNR, sem postos de saúde, sem postos de CTT. Estamos a ficar sem centro de saúde. Estamos a ficar sem gente.
Na freguesia de Santo Amador, por exemplo, todos os anos se ameaça com o encerramento das escolas. As autarquias locais têm procurado incentivar a fixação da população e a personalidade própria da localidade tem atraído casais jovens que se fixaram ali. Os filhos começaram a chegar. Se conseguirmos resistir nos próximos 2 ou 3 anos, todas essas crianças que estão a nascer chegarão para manter a escola aberta. Mas a régua e esquadro das medidas delineadas em São Bento pode matar toda essa esperança. A aldeia está prestes a perder o seu estatuto de sede de freguesia. Faltam 2 ou 3 dezenas de pessoas para o limite mínimo. Se a freguesia deixar de existir, é mais provável que a escola feche. Se isso acontecer, 70% dos jovens casais que escolheram fixar a sua vida em Santo Amador mudarão de residência. Abandonarão a aldeia que um dia, inevitavelmente, morrerá.»

 

Da nossa leitora Zélia Parreira. A propósito deste texto da Patrícia Reis.

8 comentários em “O comentário da semana”

  1. Escreve muito bem, a Zélia Parreira.
    Aproveitei para visitar o blog, li algumas evocações de infância e dei comigo a pensar que um país sem memória produz memorialistas pela mesmíssima razão que a não tem: o desgosto do quotidiano.

  2. Contra esta (novel) vontade dos governos, em acabar com as estructuras necessárias à sustentabilidade e ao desenvolvimento e progresso das comunidades, só uma força se pode impor; a das gentes que delas beneficiam e que delas necessitam no seu dia-a-dia.
    Como disse o poeta « o povo é quem mais ordena».
    A vontade do povo, unido, é indestructível e poderosa, ao ponto de reerguer por sua iniciativa e à custa do seu querer, aquilo que o governo teimar em querer derrubar.
    E este princípio, não se subordina a qualquer ideologia política ou partidária, mas ao direito de cidadania, ao direito de existÊncia e sobretudo, ao direito de continuidade.
    Os Portugueses de hoje, não devem permitir que em nome de estranhas políticas de redução de despesas, o governo lhes retire as estructuras que foram construídas com o fruto do trabalho dos Portugueses de ontem, porque elas são os alicerces do edifício que abrigará os Portugueses de amanhã.

    1. Um dia. Um dia só em que não vim ao Delito (o que é raro) e fazem-me uma surpresa destas!
      Obrigada pelo destaque, por mim e pelo meu concelho, que se vê assim projectado. Obrigada pelas palavras simpáticas.
      Ana, um abraço para ti.

  3. É o que acontece quando as freguesias são criadas de cima para baixo e não de baixo para cima.
    Se querem uma freguesia que a façam e a paguem.
    Mas como tudo vem do estado central…

  4. Obrigado por defender a Minha Aldeia! Será triste ver crescer os meu filho e todos estes meninos com valores de outras terras. Afinal foi Santo Amador que escolhemos para ver crescer os nossos filhos e de repente, só porque alguém lhe apetece, vemo-nos obrigados a tira-los daqui, daquilo que é nosso, para outras terras que apenas as temos por serem vizinhas, mas que na verdade não nos dizem muito…Santo Amador Sempre!!!

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