O comentário da semana (1)


Pedro Correia,

«As matas nativas [em Portugal] foram destruídas pelo menos desde o neolítico e no século X o arroteamento de terras era de tal maneira intenso que os sedimentos trazidos pelos rios foram suficientes para criar a ria de Aveiro por colmatação da imensa baía anterior, tal como aconteceu em todo o litoral entre Espinho e São Pedro de Moel.
No fim do século XIX as áreas arborizadas deveriam andar pelos 10% e hoje andam pelos 40%, portanto a teoria de que os pinheiros e eucaliptos destruíram as matas autóctones é simplesmente falsa: foi a fome das pessoas que obrigou a estrumar as terras com o mato comido pelas cabras que destruiu as matas autóctones (de qualquer maneira, sempre bastante menos que na fábula que se conta sobre o assunto).»

De Henrique Pereira dos Santos. Na caixa de comentários deste seu texto, escrito como convidado especial do DELITO.

0 comentários em “O comentário da semana (1)”

  1. Fico sempre confuso quando me dizem, ou ouço, “pelo menos desde o neolítico”…
    Também o Homo sapiens, até há bem pouco tempo, dizia-se ter surgido há 150.000anos. Agora dizem-nos, baseado em novos “ficheiros”, que é 100.000 anos mais velho…

    Falta cientifica! Cartão amarelo

    1. A referência ao neolítico não está errada. A desflorestação só começou, parece-me evidente, com a agricultura, que é comumente aceite como o período do neolítico. Se ela começou 1000 anos antes ou depois não interessa. O neolítico é o marco do início da agricultura, ou vice versa.

      1. Meu caro, xico, a agricultura não surgiu num puffff! Ela coexistiu durante milhares de anos com o nomadismo / recolecção. Esta coisas das datas, das ordens, enfim da taxonomia, são essencialmente arbitrárias e subjectivas. Diga-me! O Xico é um organismo individual , ou uma comunidade de biliões de unicelulares, com propósitos antagônicos, complementares e antagonicos ?

        1. Nem eu disse que a agricultura surgiu num puff. E quanto à coexistência, ainda hoje o paleolítico, o neolítico, as civilizações avançadas que conhecemos, o nomadismo (os estudantes de Erasmus não contam), e a recolecção coexistem. Quanto ao meu eu, posso assegurar-lhe, que o nomadismo e o sedentarismo coexistem com igual força e se não é a mulher a obrigar-me a ir para a horta dedicava-me por inteiro à recolecção no supermercado mais próximo. É por isso que é minha convicção profunda que a agricultura só surgiu para o fabrico da cerveja, primeiro, e do vinho depois, que o Noé já não aguentava com tanta água. Quanto às florestas, limito-me a ver o pau crescer…

      2. Os Romanos florestaram grandes áreas na Hispânia com castanheiros, pinheiros e outras espécies sub-alpinas. Nalguns casos faziam um paisagismo misto (com interesse estético e para produzir matéria florestal) como se observa ainda no tipo de floresta bastante peculiar que existe entre Penela e Condeixa. Com os métodos actuais utilizados pelos bombeiros para apagar fogos (ou melhor, para não apagar fogos), não será por muito tempo que vai ser possível observar esse extraordinário legado paisagístico.

  2. Realmente.. desde o Neolítico?? Creio que está estudado por especialistas da UC que só a partir do século XV e XVI se acentua o corte das matas autóctones de carvalho e sobreiro (das quais restarão de facto poucos exemplos, como em Arganil e em Serpins), sobretudo após os Descobrimentos e com a expansão e o crescimento das cidades no País. Mas é verdade que grande parte da região de montanha da zona centro esteve desarborizada até meados do século XX, altura em que se fez o florestamento que tem servido de sustento até hoje — e permitiu alguma riqueza até aos que se queixaram dele. A nostalgia dos Beirões e alguns nortenhos por Salazar não é por acaso.

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