Estava no fim de semana a ver na Euronews a notícia sobre a tomada de uma cadeia de electrodomésticos pelo exército venezuelano quando me ocorreu um pensamento revolucionário: Maduro não durará no poder. Esta observação poderá ser discutível (e, por quem tenha vontade, discutida), mas baseia-se numa única palavra: carisma. Maduro não o tem, tanto como o seu mentor Chávez o possuía a rodos. Não quero com isto defender Chávez, apenas faço uma observação compreensível por um qualquer não-Sheldon Cooper: Chávez tinha aquele tipo de personalidade que faz com que as atrocidades que lhe saíam da boca sejam menos atrozes.
Esse pensamento levou-me a outra reflexão (assumo, não muito profunda) sobre Cuba, Fidel e Raúl Castro e aos pontos de contacto com a Venezuela. Os regimes autoritários e ditatoriais (especialmente) de esquerda latino-americanos dependem em larga medida de um culto da personalidade que tem que se apoiar numa pesonalidade carismática do líder supremo (nesta análise muito básica vejo a influência de Tito). Em Cuba existiu durante muito tempo a personalidade de Fidel para sustentr o regime. Saindo Fidel de cena entrou Raúl, que sabe não ter o carisma do irmão e, inteligentemente, decidiu entreabrir um poucochinho a porta para a liberdade (pelo menos comercial). Não muito, note-se que Fidel ainda está vivo e de tempos a tempos pode enviar uma arenga pelo Granma. Apenas e só o necessário para compensar o facto de ser o outro Castro (o nome vai ajudando). No dia em que sair de cena, e assumindo que o seu sucessor não terá o mesmo carisma dos Castro, ou o regime se abre ainda mais ou acabará por cair.
Na Venezuela Maduro ainda não o percebeu. Maduro pode querer imitar Chávez, mas sem o carisma deste acabará por perder o apoio popular que o sustenta (com ajuda do petróleo e da máquina do Estado). Ou Maduro muda de rumo (o que se me afigura improvável) ou acabará por cair em eleições ou por força de um golpe. O que me parece certo é que não se aguentará – e isso seria (possivelmente) bom para os venezuelanos.

gostei da reflexão.
Obrigado meu caro.
João André quando comecei a ler julguei que era o nosso Maduro. Não era, mas este bem podia mudar também!
É bem verdade Helena. Até porque já não falta muito (se é que falta alguma coisa de todo) para estar podre.
De facto poderia ter começado por lhe escrever o nome completo com o “Nicolás”, mas acho que soaria a crónica do Sempé.
Partilho a sua opinião. A Venezuela atravessa tempos conturbados e o Maduro é um pateta alegre. Temo que os próximos tempos possam ser de convulsão social pois a população está farta, muita farta. Falta muita coisa e ao interior do país nem o Ministério da Felicidade vale.
Claro que eu não sou um especialista na Venezuela. Tanto quanto sei, a população até poderia querer Maduro (se bem que algumas votações apertadinhas com uma máquina estatal a emperrar a oposição contam outra história). Agora, alguém que avança com aquela história da cadeia de electrodomésticos e com a mudança do Natal não é alguém que tenha controlo sobre a situação. Pior: não entendeu a cartilha de Chávez. Espero bem que a coisa mude democraticamente, porque as alternativas não seriam boas para a Venezuela.
Os regimes autoritários e ditatoriais dependem de líderes carismáticos, não particularmente os de esquerda latino-americanos,
Não é por acaso que as ditaduras raramente sobrevivem muito tempo aos ditadores, veja o exemplo do Estado Novo.
O Maduro (o venezuelano) é doido mas custa-me a perceber esta preocupação constante com ele. A Venezuela já não é uma democracia plena, mas considerá-la uma ditadura ao nível de Cuba, ou da Arábia Saudita, ou de Angola, por exemplo, é um pouco exagerado.
O que parece ficar esquecido é que Chavez e Maduro foram eleitos em eleições que não foram contestadas. Nenhum deles esteve no poder 35 anos como esse campeão da democracia, de que ninguém fala, que é Eduardo dos Santos.
Estou essencialmente de acordo com vários pontos que levanta, mas permita-me uma ou duas observações extra.
Começando pelo fim: não afirmei que a Venezuela fosse uma ditadura, mas tem neste momento um regime autoritário. Nisso, creio estarmos essencialmente de acordo (depreendo eu, por V. referir que a «Venezuela já não é uma democracia plena»).
Em relação às ditaduras, poderíamos referir a ditadura angolana, a saudita, a norte-coreana, a síria, etc, para falarmos de sistemas de ditaduras que não assentam necessariamente em líderes carismáticos (a Síria está na situação que está em parte por isso mesmo). Mas também me parece certo que enquanto os líderes tentarem vender uma imagem de esquerda (supostas preocupações sociais, suposta inclusão, etc), normalmente só sobrevivem à custa do carisma. Eduardo dos Santos não é carismático, pelo que teve de sair da imagem “de esquerda”. É só nesse sentido que escrevi aquele post. Não pretendo de maneira nenhuma dizer que só as esquerdas têm ditaduras ou que só as ditaduras de esquerda são carismáticas.
É um observação interessante essa de que as ditaduras quando estão à esquerda precisam de um líder carismático mais que as ditaduras de Direita.
Julgo que isso esteja ligado à necessidade de mudar a cultura do país e as instituições conservadoras para a Esquerda chegar ao poder, têm de provocar ruptura logo só os carismáticos têm sucesso.
Agora com a mudança que ocorre no Estado, na qual a esquerda toma conta das instituições, a tendência será contrária. Os Hollandes tenderão a ser a Esquerda e a Direita tenderá a ter “carismáticos”.
Obviamente sabendo que nenhum jornal ou TV chamará de “carismático” a um lider de Direita. A narrativa da esquerda que domina os jornais usará obviamente a palavra “populista” para assegurar a pureza da palavra “carisma”
Só mudará quando a Direita fizer, se fizer, aos jornais o que a Esquerda fez ao Estado.
Eu prefiro não arriscar dizer que as ditaduras de esquerda têm mais frequência líderes carismáticos que as de direita. Hitler e Mussolini foram exemplos de carisma à direita. Quando fiz a distinção, fi-lo para a américa do sul, onde tivemos no século XX exemplos de ditaduras à esquerda e à direita e, parece-me, os ditadores (ou pelo menos os líderes autoritários) de esquerda eram tendencialmente mais carismáticos que os de direita. Mas poderei estar enganado.
Tem razão quando escreve que os jornais qualificam os populistas de esquerda como carismáticos e os carismáticos de direita como populistas. Terá a ver com os temas do populismo. O populismo de direita reflecte-se mais em políticas de segurança, imigração e semelhantes. O de esquerda na igualdade entre todos, acesso universal a certos serviços e coisas do género. O populismo de direita é exclusivo, enquanto que o de esquerda mais inclusivo. Penso que isso acaba por causar a diferença no tratamento.
“A Venezuela já não é uma democracia plena, mas considerá-la uma ditadura ao nível de Cuba, ou da Arábia Saudita, ou de Angola, por exemplo, é um pouco exagerado.” — Ai sim? Então o que chama a um governo que confisca os bens de um supermercado e estabelece um preço máximo, abate um avião mexicano que lhe fazia concorrência no tráfico de droga, mantém o povo na superstição e na ignorância e encontra a efígie do antigo ditador em tubagens no sub-solo?
Não sei o que o/a comentador/a jo responde, mas eu diria que o regime venezuelano é autoritário e populista. Para ser ditadura precisa de não ter eleições livres. se é verdade que as eleições venezuelanas são altamente condicionadas e a liberdade de imprensa é uma piada, a verdade é que ambas ainda são possíveis. Já nos países acima mencionados ou não há eleições ou os governantes nunca recebem menos que 95% dos votos. Já quanto a liberdade de imprensa, nesses países nem se compreende o conceito.
Não se engane: a Venezuela não é um país verdadeiramente livre ou democrático, mas ainda não é uma ditadura. É por isso que eu tenho esperanças que as coisas mudem através das urnas. A alternativa acaba por ser um novo regime autoritário de direita (ou uma ditadura). Para a população não haveria vantagens.
“Chávez tinha aquele tipo de personalidade que faz com que as atrocidades que lhe saíam da boca sejam menos atrozes.” — Só mesmo quem gosta de ser enganado ou é “de um certo PS” engoliria esta sem estrebuchar.
E pronto, lá tinham de vir os comentadores que não pensam pela sua cabeça e que rotulam qualquer coisa que lhes chega aos ouvidos ou olhos.
Se quiser estrebuchar esteja à vontade, só lhe peço que o faça na casa de banho.
Garanto que pensei por mim e que estrebuchar não tem nada a ver com casas de banho.