Ultimamente tenho dado comigo a simpatizar com o nosso PM.
Calma, não mudei de opinião: o homem tem sobre o país, a economia e o mundo meia dúzia de ideias (e mais não seria preciso, se elas fossem boas), todas erradas, e isso no seu lado substantivo. No adjectivo, isto é, no feitio, no carácter, na cultura, nos modos, até mesmo na toilette, também não melhorou nadinha.
Por partes: Na luminosa cabecinha dos dirigentes do PS o país nasceu em 1974, titubeou à procura de amparo até 1986, sentou-se à mesa dos ricos em 1992, numa festa por multas para a qual contribuiu com boa disposição e anedotas, e é ocioso pensar nele fora do “quadro” da UE, da qual vem a chuva e o bom tempo. E continuará a vir até, quando chegarmos ao eldorado de uma federação, ficarmos com o mesmo estatuto que o Arkansas nos EUA, mas com óptimas praias que aquele infeliz Estado não tem, como dolorosamente lhe falta também o galo de Barcelos, os pastelinhos de Belém e uma quantidade adequada de dentistas e empregados de mesa.
O Arkansas já forneceu um Presidente e é justamente famoso pelas suas melancias. A comparação deixa a desejar pelo lado das cucurbitáceas mas resulta vantajosa no confronto entre Durão Barroso e Clinton – o primeiro nunca foi embaraçado, que se saiba, com histórias picantes em torno de charutos apagados. É porém um dos Estados mais pobres da União, e nada indica que venha a deixar de o ser. Esse destino ser-nos-á poupado, acreditam à volta de 90% dos 14 milhões de portugueses vivos, entre residentes e expatriados, pelo efeito do princípio dos vasos comunicantes aplicado à riqueza, que não se verifica em lado nenhum mas os europeístas, e Costa com eles, dizem que terá miraculosamente lugar aqui na Ibéria.
Quanto à economia, acha que a tal riqueza cresce pelo efeito de se a dividir por um número crescente de dependentes do Estado, desde que este se encarregue, baseando-se nas opiniões dos ungidos por diplomas das madraças de economia socialista, de fazer aqueles investimentos de grande rasgo e lucidez que um destes séculos porão o país a liderar o mundo nisto e naquilo, nos intervalos de falências periódicas.
O mundo de Costa é o da UE e logo a seguir o da ONU, onde o mestre de cerimónias é o seu colega e luzido estadista Guterres. Portugal está sempre do lado dos bons, isto é, aqueles sempre prontos a tomar medidas para combater as alterações climáticas, a desigualdade entre os antigos sexos, hoje géneros, e entre ricos e pobres e o Norte e o Sul, o imperialismo israelita, a América de Trump e o Brasil de Bolsonaro, a injustiça numa palavra. Desde que tal combate se faça unicamente nas sociedades onde se pode fazer, isto é, no Ocidente; nas outras não, que deixaria evidente a horrível ideia de as civilizações não serem todas equivalentes.
Para quem ache que o que se deve procurar num político é o mesmo que se deseja para a namorada, o sogro, a nora, o amigo ou o sócio, isto é, para quem determine o seu voto não por ideias mas pelos sinais exteriores do feitio, Costa não serviria se o eleitor se incomodasse com a naturalidade e frequência com que mente, o português sumário em que se exprime, e até mesmo as farpelas com que se atavia quando decide ser natural. Mas não incomoda e, de toda a evidência, a sua popularidade deve muito ao andor em que a comunicação social beata e comprada o carrega e, sobretudo, aos bodos judiciosos que distribuiu pelo maior número possível de dependentes. Nada que não possa ser revertido – o seu antigo patrão Sócrates também foi um menino de ouro até dar com os clássicos burros na água.
Sucede que este homem tem a fina inteligência dos sobreviventes, que é mais adequadamente descrita como esperteza (transformou uma derrota numa vitória, comprou com mestria apoios inesperados, quebrou tradições da sua igreja partidária dando a impressão de fidelidade aos santinhos da congregação, apoiou-se nos serviços de um hábil vigarista que já despediu e recompensou, dominou competentemente uma comunicação social que conseguiu se demitisse completamente das suas funções) e foi até agora bafejado pela sorte, que porém acabou com a chegada da maldita Covide.
O país fez, para lidar com o problema, o que faz sempre – copiou. E como por toda a parte (salvo na Suécia e pouco mais) a receita consistiu primeiro em conseguir que as unidades de cuidados intensivos não fossem inundadas de casos que lhes ultrapassassem as capacidades (o achatar da curva) mas rapidamente evoluiu para a esperança louca de estrangular a pandemia com o prolongamento e endurecimento de medidas de isolamento, Costa foi obrigado (acredito que a contragosto – é o meu palpite) a acompanhar. Portugal não é hoje, e de há muito, um país independente, nem dispõe de qualquer autonomia face ao que decidem os directórios europeus, mas cabe notar que de qualquer modo a economia levaria sempre um grande tombo, qualquer que fosse o mix de políticas adoptadas, por causa da quebra do turismo e da exportação.
De modo que o pobre Costa deve ter visto há muito (antes da camarilha acéfala de que se rodeou, que anda aliás a dormir) o terreno a fugir-lhe debaixo dos pés e apostou as fichas no maná europeu (que vai espatifar, a esperteza não chega para ter um ataque de clarividência em economia, nem ele pode vir dos gurus da especialidade), no desconfinamento e na propaganda.
Daí o ataque de fúria na famosa reunião no Infarmed. A ministra Temido julga que a alhada em que estamos metidos é a da Covide, que das galinhas sem cabeça que pontificam na matéria, isto é, médicos de especialidades várias, virá alguma solução que preste, e que a máquina da Saúde pública, as polícias, a patética DGS, o stop-and-go de medidas em que com habilidade se transfere a responsabilidade das políticas públicas para os comportamentos individuais, são necessárias e suficientes para estancar o desastre.
Mas não são. O problema, antes de outra coisa qualquer, sempre foi de engenharia (como diz um amigo meu, dono de uma excelente cabeça, ainda que lá não more um jota de ciências sociais, particularmente história, que sobranceiramente despreza), isto é, de meios e organização para lidar com ele. Ora, a administração pública portuguesa nunca se distinguiu pela eficiência; o SNS sobrevive com crónica falta de meios, que foram desviados para comprar votos; a elite política, que é quem decide, calha ser socialista, ou seja, farinha do mesmo saco da massa ignara dos governados; e para limitar os estragos convinha falar cada vez menos da doença e cada vez mais da recuperação, o que é difícil porque o génio histérico que saiu da lâmpada agora não quer lá regressar.
Tudo leva a crer que isto vai acabar mal, e não me refiro à doença, que se vai juntar ao catálogo das outras com as quais um certo número de pessoas de idade se passa todos os anos para o outro lado, mas à economia.
Sócrates lixou-se não por causa das suas roubalheiras, que nunca teriam sido denunciadas se o país não tivesse falido, mas pela vinda da troica. E o mesmo eleitorado, que lhe deu vitórias e agora lhe dá desprezo, está aí pronto para crucificar quem esteja ao leme quando o desemprego subir sem subsídios e quando a austeridade não puder ser mais disfarçada com expedientes.
De modo que o homem, com uma mão de cartas baixas díspares, está a fazer das tripas coração porque vê o monte das fichas a diminuir e pergunta a si mesmo se, com o galo com que está, conseguirá recuperar. E vê uma brutinha como a ministra Marta, que não conhece as regras do jogo e não sabe interpretar os sinais dos outros parceiros de mesa, a insistir em apostas altas sem bluff? É um desespero.
De onde vem então a minha alegada simpatia do primeiro parágrafo, só disto? Não. Deu protagonismo a duas mulheres, cada uma medíocre à sua maneira (no caso da Directora-Geral com laivos de comicidade patética, no da ministra com uma imagem atraente de política queque), e isso sempre me pareceu estranho. Percebi agora, através das declarações de um homem de mão que orna a Câmara de Lisboa com a sua irrelevância, que as duas senhoras são na realidade fusíveis, destinados a queimar na eventualidade de alguma coisa correr demasiado mal, como está a suceder em Lisboa.
Bem visto. E como não peço desculpa a ninguém por ter uma grande admiração por Victor Lustig, tiro com respeito o meu chapéu ao prestidigitador Costa – não me tinha lembrado desta jogada. É verdade que o país não ganha nada com isso, e quase certo que desta vez os truques não vão chegar. Mas que o nosso António, como o descreviam com ternura os dois compères na Quadratura do Círculo, é o campeão da manha, lá isso é.

Uau, g’anda texto
” g’anda texto”. Sim, g’anda texto, grande é que não. Você sabe ser irónico jpt.
Obrigado, José Flávio.
É o habitual: tudo o que não nos é ideologicamente próximo é medíocre, queque, de comicidade patética, não melhora no carácter, na cultura, nos modos, até mesmo na toilette (aqueles de que não gostamos até vestem mal), ornam Câmaras com irrelevância etc. etc. etc. Toda a parafernália de vocabulário muito conhecido (com algumas inovações, estas sim, de comicidade patética: vestem mal os adversários ideológicos) etc. A política que seguem não interessa, o que interessa é a toilette.
Das coisas que mais me revoltam o estômago é que seja tratado como PM.
Texto muito «rico» , com uma distinta e completa arquitetura …
Mas gostava de deixar aqui duas palavras – penso que o SNS teve as suas dificiências no princípio e hesitações etc, mas quando fomos avançando e até hoje, penso que pouca gente poderia ter feito melhor do que as duas Senhores que lá deram a cara. Está a correr mal? Lá por fora também assim foi quando se começou a desconfinar e ainda continua. Em todo o lado se dá passo á frente , passo atrás. Nós sabemos que é muito difícil acertar numa situação de caos , nova para todos. Penso que se aguentaram na onda, apesar de vermos que com muito cansaço , muitas vezes.
Sim, o PM e o Medina são os dois uns grandes MANHOSOS, se estão a sacudir a água do capote deles para neutralizar estas duas Senhoras!
Devemos-lhes pelo menos este reconhecimento.
Temos em Portugal algumas mulheres com M grande- não foi só a Amália, essa cantava por gosto…,não custa nada!
“Percebi agora, através das declarações de um homem de mão que orna a Câmara de Lisboa com a sua irrelevância, que as duas senhoras são na realidade fusíveis, destinados a queimar na eventualidade de alguma coisa correr demasiado mal, como está a suceder em Lisboa.”
Resumindo…
…só o PS está autorizado ser oposição ao Governo PS.
Fosse uma partido da “Direita” e a narrativa dos jornais seria:
-anti patriótico
-exploração política da epidemia
-aproveitamento
-sexista
lucklucky, o kulak
Na verdade, eu também sempre gostei da vovó Donalda!
Smoreira
Relativamente a Victor Lustig é impossível alguém comparar-se a ele em Portugal. É impossível na medida em que se alguém quisesse vender por 2 vezes a ponte sobre o Tejo, quiçá a EDP, a PT, a Galp ou outras mais acabaria por bater com os burros na água, porque os apologistas do ir para além da troika já fizeram o trabalho que lhe mandaram. Mas a dívida continuou a subir.
Tudo isto aconteceu sem covid mas não sem o menos infeccioso ministro alemão das finanças que se viu um pouco à nora com o rapaz das finanças da Grécia que acabou por ser abafado pelos seus.
O que sobrou como garantia de tudo isto foram os 800 mil desempregados não oficializados – que se mantêm – e os outros que, ao invés da pobreza que aos anteriores foi garantida levam a malhada nos impostos.
Portanto, ninguém se pode queixar que tenha sido negligenciado nesta manobra de alto calibre.
Vai daí, entra em cena o covid, que agora é descrito como a doença X que há muito se esperava. Admira-me somente que há muito se esperasse por tal visitante e ninguém tivesse a mesa posta para o acolher.
Pretendo com isto dizer que Marta Temido e Graça Freitas juntamente com as diversas equipas têm desenvolvido um esforço sobrenatural na contenção de um animalzinho que era esperado mas sem esperança alguma.
Assim, a única forma ou fórmula que encontro para renovar a fé é ter esperança no impossível. E isto estas 2 mulheres têm feito por todos, mesmo por aqueles que as criticam.
O que talvez estas mulheres não terão compreendido ao assumirem tais funções foi o facto de estarem mal acompanhadas por um governo que a única coisa que soube fazer foi reverter medidas sem se preparar para outras que seriam necessárias. Desta forma o Ronaldo das finanças foi capaz de criar um superavit com o som de fundo da bela adormecida. Isto é: asfixiando serviços públicos essências. E não estranhemos que nesta tarefa os partidos de suporte tenham acompanhado o PS.
Em conclusão desta temática, não acredito que alguém fosse mais empenhado que estas 2 mulheres e sua equipa e tampouco que sem os meios necessários fizesse melhor.
Mas isto não significa que não se possa melhorar. É aqui que entra Medina. Podemos não ter dinheiro, mas temos tropa. Não precisamos de tecnologia de rastreamento. Precisamos de tropas no terreno.
Não necessitamos de videovigilância, mas de vigiar.
E vigiar pode passar por andar de bicicleta em Lisboa, suspender pagamentos de parquímetros e nas pontes para quem se desloque em automóvel privado para seu trabalho, bonificar os que usam o automóvel para deslocações em trabalho no preço dos combustíveis, adiar a cobrança dos carregamentos nos carros eléctricos. Tudo isto, para controlo, pode ser feito através da emissão electrónica de senhas de isenção codificadas a cada utente desses mesmos pagamentos e das bonificações já notadas.
Os autocarros e comboios deviam ter limite máximo de assentos com salvaguarda de distâncias entre pessoas no interior (10 para autocarros e dependendo da composição – carruagem de metro ou comboio – o que se entender necessário), que seriam substituídas à medida que saíssem entre paragens, com vigilantes a monitorar; e devia existir uma equipa de desinfecção a cada hora 1/2 quer para autocarros, quer para metro, quer para comboio.
Agora a questão europeia e económica: a Europa não tem ideias, tem uma vaga ideia. Tal como Costa.
Os ilhéus da Union Jack perceberam isto há muito.
Faria melhor em ensinar a conduzir e dar scooters para todos e reservar os transportes públicos só para idosos sem possibilidades de conduzir.
lucklucky, o kulak
Meu caro,
a ideia não é promover a mobilidade para todos, mas evitar aglomerações nos transportes. Por isto os incentivos aos que ainda trabalham e se deslocam para trabalhar em Lisboa, pois muitos desses também vêm da área metropolitana de lisboa.
É mais barato subsidiar isto que pagar um tratamento a cada infectado que necessite ser internado e a quebra que resultará na abstenção por cada trabalhador infectado.
Duvido que tenha espaço e tempo para os carros necessários.
Uma senhora idosa precisa de se deslocar 1km para uma consulta, já não pode fazer a pé porque não tem capacidade. Só lhe resta o TP, quando muito o Taxi e os custos inerentes.
Outra coisa que se poder fazer é incentivar os ubers e os tuk tuks e ensinar às pessoas idosas como usar.
lucklucky, o kulak
Espaço existe, e o tempo se for bem gerido também se resolve.
O que é necessário é que as Juntas de Freguesia se ocupem da gestão desses casos de idosos que refere. Algumas já possuem e proporcionam transporte para tais necessidades.
mas que bom
olho clínico magnifico , ironia qb. obrigada.
É um grande texto, para além de ser enorme, José.
Concordo na parte do “enorme”, Dulce, sabendo como sei que dizer muito com pouco é difícil e que me acontece com frequência o oposto. Obrigado.
José, se pretender dizer tudo com pouco opte pela poesia.
Para mim, a atitude do Medina, a destempo e injusta, procurando tirar o seu cavalinho da chuva, foi combinada com o António Costa e teve por finalidade arranjar bodes espiatórios para o fiasco do combate à pandemia, que passou de milagroso e desastroso. Para mal dos nosso pecados.
Expiatórios, claro e não espiatórios.
Sobre o texto vou ser curto. Dois ou três parágrafos, quando muito, seriam suficientes.
Mas, numa perspectiva a todos os títulos pragmática e fértil de utilidade, porque não escrever sobre a importância da vitamina D no desempenho do sistema imunitário, agora que a imprensa britânica já publicou títulos como “Terrifying chart shows how Covid-19 patients who end up in hospital may be almost certain to die if they have a vitamin D deficiency” e “UK public health bodies reviewing vitamin D’s effects on coronavirus”?
Porque não escrever sobre o protocolo de tramento MATH+, na sua componente profilática, que realça a importância do zinco e de ionóforos deste (onde se inclui a “malvada” substância cujo nome já nem ouso referir) e cujos efeitos na imunidade viral estão cientificamente comprovados?
Porque não escrever sobre a eventual negligência que a ausência de estudos e recomendações, sobre estes e outros assuntos, por parte das instâncias governamentais, constitui?
Como nota. Durante cerca de dois meses, fundamentado em estatísticas e artigos científicos, advoguei neste blogue a necessidade do uso obrigatório de máscaras (ou outra qualquer barreira a cobrir o rosto) em todos os espaços fechados, públicos ou acessíveis ao público. Muito antes do seu uso ser recomendado e da sua obrigatoriedade ter sido instituída.
Mas que estupendo texto. Tem que ser lido uma vez mais é bem merecido.