O brainstorming da reforma do estado


joaomsandre,

Na empresa onde trabalho (indústria química) há de tempos a tempos um brainstorming (tem outro nome interno) subordinado a um tema escolhido antecipadamente. Durante o período definido para tal, os membros dessa jam podem lançar as suas ideias, com os motivos para a apresentarem, e uma indicação dos benefícios para a empresa, bem como porque razão faz sentido a empresa avançar com ela (experiência prévia, novos mercados, etc). No final, os temas mais votados pelos participantes e seleccionados por dois ou três painéis internos de especialistas e gestores acabam por receber uma dotação orçamental para serem desenvolvidos.

 

O Guião para a Reforma do Estado parece ter saído de uma sessão de brainstorming. O governo chegou ao pé dos seus funcionários, dos (sub)secretários de estado, dos especialistas, colaboradores, motoristas e quiçá empregadas de limpeza, e perguntou-lhes se teriam ideias para a reforma. O governo pegou nelas, decidiu-se por retirar aquelas que não fariam muito sentido (baixar o preço do Ajax limpa-vidros não fará muito sentido, suponho) e agora apresentou ao público em geral o apanhado.

 

O próximo passo será então a votação (eleições, claro) e a avaliação final pelo painel de especialistas e gestores (a troika tem mais gestores que especialistas, mas enfim). A diferença entre o Guião e o brainstorming aqui da casa é apenas e só uma: a segunda procura apenas uma ou duas ideias, as quais têm que estar subordinadas à estratégia da empresa; já o Guião para a Reforma do Estado acaba por ir pedir ideias que justifiquem a sua existência. O guiãozinho é portanto uma inutilidade absoluta, independentemente dos números de circo que sirvam para o apresentar.

4 comentários em “O brainstorming da reforma do estado”

  1. Também escutei Paulo Portas,

    para além de algumas virtudes na apresentação que faz sobre o tal guião – que compreendo seja um guião (por algum lado é necessário começar) -, penso que Portas tem de pensar em sentido inverso do que nos apresentou.

    A saber: A reforma do estado não pode ser feita sobre o estado miserável da nossa situação, mas sim inverter essa tendência. Específicamente, deve-se fazer algo no sentido de evitar a baixa demografia (resultante da emigração, da dificuldade em sustentar uma criança, na falta de condições para que elas cresçam em ambiente que despreocupe os pais e outras coisas mais) e não reduzir o estado a um elemento meramente contabílistico naquilo que, por todos e com todos, deve ser a presença do estado na vida dos cidadãos.

    Neste sentido, têm de existir políticas que fomentem a natalidade, que fomentem o aumento da família, que fomente o desejo de a constituir, que fomente a esperança de que se paga para que isto se possa obter, a favor de todos.
    A situação de emergência que vivemos passa, de imediato, por reduzir o IRS e o IVA. Será este passo que fomentará a procura interna e (re)estabelecerá, paulatinamente, a empregabilidade, o empreendedorismo e outros mais. O IRC, per si, não resolve este problema. O IRC só deverá baixar depois de criadas as condições para que tal procura interna se verifique. O IRC deverá ser uma medida, posterior, para o investimento, e não pode ser tratado como um meio de proporcionar algumas verbas de caixa para as empresas de maior dimensão.
    Em situações de emergência são necessárias medidas de emergência e não medidas de urgência que a todos colocam num banco de emergência com médicos mas sem instrumentos e medicamentos para a terapêutica.

    Mais poderia deambular sobre a questão da reforma, mas o essencial da reforma passa por reformar, invertendo, o sentido de nosso pensamento e atitude.

  2. Nem mais.

    É mais como a privatização da RTP: fica com ainda mais canais…
    Por isso o mais provável é mais uma secretaria de estado, mais comissões, mais acessores…

    Já estou a ver o Sir Humprey a ditar aquele texto ao pobre Bernard da tugalandia.

    As razões estão explicadas aqui:
    Sir Humphrey: There are four words you have to work into a proposal if you want a Minister to accept it.
    Sir Frank: Quick, simple, popular, cheap. And equally there are four words to be included in a proposal if you want it thrown out.
    Sir Humphrey: Complicated, lengthy, expensive, controversial. And if you want to be really sure that the Minister doesn’t accept it you must say the decision is courageous.
    Bernard: And that’s worse than controversial?
    Sir Humphrey: (laughs) Controversial only means this will lose you votes, courageous means this will lose you the election.

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