O Bloco de Esquerda.


Luís Menezes Leitão,
 

 

Os tempos de crise que atravessamos podem bem conduzir a uma alteração radical no sistema partidário português, como já se verificou na Grécia e na Itália. É interessante por isso analisar o estado dos diversos partidos portugueses. Comecemos naturalmente pelo Bloco de Esquerda, face ao anúncio da saída de Francisco Louçã da sua liderança.

 

Para se perceber bem o Bloco de Esquerda é necessário recuar muito tempo, aos inúmeros partidos de extrema-esquerda surgidos após o 25 de Abril. Na altura tínhamos entre muitos outros a UDP, o MRPP, a LCI, o PRT, o PRP-BR, o PCP-ML, a AOC, o MES, o POUS, o PST, etc, etc. Estes partidos abrangiam todas as correntes comunistas possíveis e imaginárias, desde estalinistas, maoistas, trotskistas, albaneses e outros. Unia-nos, no entanto, um ponto comum que era um ódio profundo ao PCP, porventura até maior que o que tinham à direita. O PCP era designado por social-fascista e objecto de ataques sistemáticos. O PCP-ML pretendia assegurar pelo próprio nome que o PCP já não era marxista-leninista. E ficou célebre um slogan da AOC que dizia que cada deputado que elegesse era uma espinha na garganta de Cunhal.

 

Desses partidos o único que tinha peso eleitoral era a UDP que, devido à concentração dos seus votos em Lisboa, elegia sistematicamente um deputado, primeiro Acácio Barreiros e depois Mário Tomé. No parlamento a UDP prosseguia ataques sistemáticos ao PCP, que designava por “o partido dito comunista”, suscitando imediatamente protestos do mesmo. A certa altura chegou a anunciar a criação de um partido comunista reconstruído, primeiro PCP(R) e depois PC(R).

 

A partir de 1978 surge, no entanto, o PSR, a partir de uma fusão da LCI com o PRT, com cariz trotskista. O PSR chama a atenção pela qualidade dos seus tempos de antena, que apresentavam ideias distintas da banalidade geral. Quando tenta uma frente eleitoral com a UDP os resultados são desastrosos, pelo que o partido continua a concorrer autonomamente, beneficiando do brilhantismo de Francisco Louçã que, no entanto, nunca era eleito.

 

Francisco Louçã tem um enorme defeito. É inegavelmente um dos mais bem preparados líderes partidários, com uma grande bagagem cultural e uma enorme capacidade dialéctica, forjada por muitos anos de debates desde a mais tenra juventude. Talvez por isso mesmo só o vi baquear uma única vez perante um líder da direita, num debate com Durão Barroso, que tem a vantagem de ter andado pelas mesmas lides. A sua inteligência torna-o, porém, frio e distante dos eleitores, pelo que não consegue ter grande sucesso eleitoral. Em 1991 esteve a um passo de ser eleito para o parlamento. Bastava para isso convencer 1/5 dos eleitores da aldeia de D. Maria, uma terreola nos arredores de Lisboa que boicotou as eleições por não ter água canalizada, a votar nele. Louçã bem se deslocou a D. Maria, prometendo a partir do Parlamento resolver o assunto. Os eleitores, porém, mantiveram o boicote, confirmando a eleição do último deputado do PSD, que naturalmente se esteve nas tintas para a água de D. Maria. Nas eleições presidenciais a que concorreu, Louçã pôde confirmar que o seu peso eleitoral é reduzido.

 

O sucesso eleitoral do Bloco deve-se, por isso, essencialmente a um homem: Miguel Portas, que era tão inteligente como Louçã mas muito mais caloroso com os eleitores. A partir de três pequenos partidos, já que juntou a Política XXI de dissidentes do PCP, às tradicionais UDP e PSR, conseguiu nas eleições europeias de 1999 apresentar um projecto eleitoral consistente, falhando por pouco a eleição para deputado europeu. A partir daí estava feito o mais difícil. Nas eleições legislativas que se seguiram o Bloco obteve dois deputados, levando Francisco Louçã e Luís Fazenda a conseguir os lugares de deputados que há tantos anos ambicionavam. E os dez anos seguintes foram de crescimento sucessivo para o Bloco que capitalizava com os descontentes da ala esquerda do PS sem, porém, entrar minimamente no eleitorado do PCP, que nunca esqueceu a inimizade desde sempre existente.

 

As eleições de 2011 mostraram, porém, que o voto útil à esquerda é mortal para o Bloco, que se viu reduzido a metade dos deputados em virtude da ameaça de uma vitória do centro-direita. Ficou assim demonstrada uma grande permeabilidade entre a ala esquerda do PS e o Bloco, a qual aliás teve tradução no Parlamento com os deputados do Bloco a aderir em peso à intenção manifestada pelos deputados da ala esquerda do PS de suscitar a inconstitucionalidade do corte dos subsídios. Como não podia deixar de ser, o PCP ficou de fora da iniciativa.

 

Louçã percebeu por isso que os seus eleitores e até os seus deputados não resistiriam a uma aproximação ao PS, pelo que preferiu sair, alegando a necessidade de renovação, ainda que contraditoriamente aponte como sucessor alguém ainda mais velho. Sugeriu até uma liderança bicéfala, talvez a única maneira de satisfazer as contradições existentes no Bloco, o que só servirá para acentuar as mesmas. O Bloco de Esquerda corre assim o risco de se evaporar nos próximos tempos. O exemplo do PRD leva a pensar que os partidos que tentam entrar no quadro partidário surgido no 25 de Abril podem ter sucesso a princípio, mas esse sucesso é efémero.

19 comentários em “O Bloco de Esquerda.”

  1. Boa análise, na minha opinião só peca por não espelhar que grande parte desses partidos considerados de extrema-esquerda, não representavam correntes de comunismo nenhum, como prova o facto de parte dos que os compunham estarem hoje no PSD, tendo até alguns chegado a líderes dos sociais democratas ou mesmo a primeiro-ministro. Miguel Portas tinha a vantagem de ter vindo do PCP e não de partidos normalmente criados para satisfazer alguns egos pessoais. O Miguel foi sempre coerente e defendeu os mesmos ideiais, concordo que era o maior pilar de sustentação do BE, mais até do que o próprio Louçã.

    Cumprimentos

    1. Existem correntes de comunismo para todos os gostos, até mesmo para gostos estritamente individuais. Quanto ao resto, concordo inteiramente com o seu comentário. Miguel Portas era efectivamente a alma do Bloco e o facto de ter vindo do PCP dava-lhe uma grande vantagem perante os outros dirigentes do Bloco. Mas já não acho que o mesmo se passe com João Semedo, saído igualmente do PCP.

      1. Volto a concordar, desta vez sem reservas, João Semedo não tem, nem de perto nem de longe, a dimensão do Miguel. Fui um pouco injusto até, mais do que ter vindo do PCP, Miguel Portas acima de tudo uma forma de estar muito própria, de acreditar e de deixar as pessoas vir ao seu encontro de forma natural. No BE não há, que eu conheça pelo menos, outro com a sua dimensão….nem no PCP, com muita pena minha.

  2. Apenas um repar: o primeiro deputado eleito pela UDP, à Assembleia Constituinte, foi Américo Duarte. Ficaram célebres as suas diatribes e as respostas que Galvão de Melo, deputado pelo CDS, lhe dava.

    1. Só quis falar de deputados à Assembleia da República. Na Constituinte, além de Américo Duarte, houve ainda Afonso Dias que o substituiu como deputado da UDP. Quanto a Galvão de Melo ficou efectivamente célebre o momento em que acusou Américo Duarte de ter sido informador da PIDE, o que era totalmente falso.

  3. Seria uma boa análise, não tivesse pressupostos errados. Miguel Portas só foi eleito ao Parlamento Europeu pela 1ª vez em 2004. Portanto, foi Louçã quem puxou Portas, não o contrário. Até porque era Louçã quem aparecia diariamente na televisão e na AR, o que ajudou a baralhar as contas e levar Portas ao PE. A alma do BE é Louçã. E daí ele sair agora desta maneira, apontando os sucessores, para mais tarde regressar. “Depois de mim virá…”

    1. Tem razão quanto ao lapso que vou corrigir. Julgava que Miguel Portas tinha conseguido ser eleito ao Parlamento Europeu nas eleições de 1999. Afinal falhou a eleição por pouco. Agora é indubitável que o Bloco foi lançado nessas eleições em que Miguel Portas era cabeça-de-cartaz e que foi o sucesso nelas conseguido que permitiu a eleição posterior de Louçã e Fazenda. Antes de Miguel Portas, Louçã tinha concorrido inúmeras vezes ao Parlamento sem nunca conseguir ser eleito.

  4. Tenho um amigo comunista que me dizia, já há uns anos, que o BE caíria naturalmente por não ter uma base ideológica forte. Não concordo, pois ideologia é o que não falta ao BE. Mas a diversidade que existe no BE, só possível mesmo em partidos de esquerda, pode mesmo levar o BE a atravessar momentos difíceis.
    O que Louçã aqui fez foi a tentativa de destruição de um partido político. A liderança, a nova liderança de um partido com as características do BE é bastante mais complicada que por exemplo no PCP. Ambos apostam na supremacia do colectivo sobre o individual, mas no PCP, uma estrutura herdade e feita para funcionar na clandestinidade, a mudança de líder acontece de forma planeada, pelo anterior poder, mas sem que nada respire para fora da sala onde se reune o comité central. O BE, apostado em mostrar desde sempre que representava uma esquerda moderna, radical nas suas opções, mas que quer captar os eleitores que por um lado não se reviam na coerência ortodoxa e colectiva do PCP, mas também não estavam bem com a deriva centrista do PS, na altura um PS católico de Guterres. Acreditava-se num eleitorado urbano, culto, jovem. Nunca foi fácil para Louçã aglutinar em si os diversos ismos que existiam, que existem, dentro do BE. Mascarado com bons resultados eleitorais, este problema foi andando despercebido, guardado dos holofotes. Com o desastre eleitoral nas últimas legislativas, altura sim para Louçã sair, a coisa rebentou no BE, com os mais radicais a baterem com a porta, julgando, enfim sonhando, com um qualquer prec, que lhes desse alguma notoriedade na sociedade civil. Não aconteceu, não acontece, nem irá acontecer.
    Entende-se que Louçã ande fatigado, descrente (É a política uma acto de fé?). As lutas internas no BE desgastam e tantos anos como coordenador (o medo que a esquerda radical tem que o individual se sobreponha ao colectivo, originou chamar ao líder, um coordenador) levaram ao desfecho hoje conhecido. Louçã sai mas quer sair com a sua, que ele considera sua, quota parte do sucesso projecto BE. A sua mensagem, uma carta ao povo do BE, mais não é que uma política de terra queimada. Quem me suceder terá que começar do zero, pois o BE, este BE, é meu. Este terá sido o pensamento de Louçã. E nada melhor que sabotar logo no começo. Louçã acha que uma liderança de um partido político deve ser bicéfala. Não Louçã, não deve. Se quer acabar com um partido sim deve ser bicéfala. Acredito que com Miguel Portas vivo esta carta não existiria assim. Depois de mim, o deserto.

    1. Estou de acordo com a sua análise sobre Louçã, mas acho que o seu amigo tem razão quando diz que falta ao Bloco uma base ideológica forte. Ter muitas ideologias equivale a não ter ideologia nenhuma. O PCP tem nesse aspecto a vantagem de guardar a ferros uma ortodoxia que lhe permite desprezar o que denomina de “radicalismo pequeno-burguês de fachada socialista”.

  5. Estamos em maré de concordar com tudo…

    Vamos bicefilizar todos os partidos….

    CDS: Paulo Portas / Assunção Cristas

    PS : Joao Galamba/ Isabel Moreira

  6. “Unia-nos, no entanto, um ponto comum que era um ódio profundo ao PCP, […].”
    Não posso deixar de realçar este pormenor no post…

  7. Auto-afirmativos deputados do BE esclarecem os eleitores do quão democrático, afinal, é o processo interno de escolha do, ou da, ou dos seus representante(s) universais.
    Se se acham tão merecedores, amanhã, do voto dos eleitores, porque não clareficarem o processo.?

    Já sabemos que os deputados nomeados pelo PS, PSD e CDS não têm nenhum interesse em mudar a iníqua Lei Eleitoral que os protege no seu seguro e acolhedor pé de meia.

    O deputados do PC, por formação e muita freima pró-colectiva, também nunca seriam capazes de mecher numa Lei Eleitoral que aliás é geneticamente sua.

    Resta este tão democrático BE.
    Ao submenter uma iniciativa de projecto de Lei Eleitoral com o objectivo de democratizar a eleição de Deputados, aberta a todos eleitores, inscritos em partidos ou não, estes democratas do BE seriam certamente, merecidamente, re-eleitos.

    Dava em nada, claro, mas pelo menos dava para ver as outras bancadas mui democraticamente a defenderem o seus modus vivendi,

  8. Não concordo que seja o fim do Bloco.
    É óbvio que os eleitores não vêm as mesmas qualidades do passado, especialmente com a morte de Miguel Portas. Possuidor de uma coerência invejável a muitos políticos, já falava de uma mudança na direcção aquando do desaire das últimas eleições. A decisão de Francisco Louça se pecar é por ser tardia. É óbvio que o partido tem de se regenerar, precisa de um novo líder. Deve ser terrível passar a vida a ser insultado, mesmo quando se acredita na causa.
    Agora, penso que mais que os dois nomes mencionados, Ana Drago poderá fazer o eleitorado acreditar no Bloco de novo, pois possui algumas características importantes: é inteligente e as pessoas simpatizam com ela. A ver vamos.

  9. Não tenho estudos suficientes para comentar uma tão profunda análise de quase 40 anos de esquerda política em Portugal. Aquilo que sinto é que o Bloco de Esquerda até pode acabar (tenho muitas dúvidas, mas…), mas outro movimento idêntico se levantará, pois a corrupção e o clientelismo que grassam pelos partidos do sistema não deixarão de provocar um novo levantamento político-popular, para que alguma coisa realmente mude sem ficar tudo na mesma.

    1. Isso é verdade, mas se os partidos de esquerda existirem apenas para protestar, nunca poderão almejar o poder.
      Especialmente fora das épocas de crise.
      É que as pessoas fartam-se daqueles que são sempre do contra. O Bloco exagera que se farta nos chamados temas fracturantes, apesar a esmagadora maioria dos seus dirigentes não passar de “burgueses”, professores, gente muito bem instalada na vida, quase todos trabalhando directa ou indirectamente para o Estado.
      Na hora do voto, as pessoas querem soluções e o Bloco não as apresenta. Com outra atitude, mais construtiva, talvez fosse possível um entendimento com o PS, de forma a “puxar” este partido mais para a esquerda. É verdade que o PS tem uma acção política completamente diferente da sua apregoada ideologia. Parece-me que faria falta um PS “à moda” dos países escandinavos. Nunca existiu, nem em Portugal nem em qualquer outro país do sul da Europa e nesta conjuntura que vivemos certamente não será possível existir nos próximos tempos. Mas a história não acabou… Quanto ao Bloco, pode morrer? Não, faz falta.

  10. O Bloco prosperou com a segurança do Euro que permitiu introduzir ainda mais adolescência no discurso político-jornalista português. Só foi possível claro com partilha dos espaço cultural entre escolas de jornalismo/ jornalismo e a ideologia do bloco.

  11. Louçã é um visionário muito inteligente e não há figura no panorama político nacional que se lhe compare. Mas os visionários necessitam também de alguém com outra sensibilidade, mais “terráqueos”, para que suas visões se concretizem. Assumo que Miguel Portas pudesse ter sido um desses que possuía tais capacidades para consumar o projecto do visionário. O problema de Louçã é somente um: encontrar outro que o ajude a concretizar sua visão. Este certamente que existe, mas anda por aí (algures), fora do BE. Trazê-lo seria arranjar inimizades e, consequentemente, acabar com o partido. Creio que Louçã ao deixar o BE oferece-se e oferece espaço para a continuidade do mesmo.
    Com alguma pena assisto à retirada do guerreiro visionário, e creio que o BE entrará em quarto minguante. Pode ser que o Miguel, lá onde está, possa de alguma forma dar uma ajuda a este projecto. Acredito que se o BE cair temos a nação entregue à “bicharada”, por falta de equílibrios. O PCP, per si, não conseguirá aglutinar os necessários, porque o PS já foi; e esta ida pode agradecer a Sócrates.
    A esperança que me resta é que isto mudará, se nós, o povo, quisermos e descolarmos dos partidos políticos. Estes perderam a força para representar os cidadãos. Tem de ser o povo a dar uma mãozinha.
    Quem se sentir representado, fora do quadro financeiro, bancário e outras corporações, por favor, chegue-se à frente e levante a mão!

  12. Caro Luiz Menezes Leitão,
    Obrigado por esta resenha que tomarei a liberdade de publicar na página Facebook do Antologia de Ideias. Farei o mesmo com o post relativo ao PCP.
    Bem haja,
    O Autor

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