O banqueiro anarquista.


Luís Menezes Leitão,

  

Fernando Ulrich transformou-se num verdadeiro exemplo do banqueiro anarquista de que falava Fernando Pessoa. Defende a liberdade, mas apenas para si próprio. Os banqueiros conseguiram que o seu negócio privado, a banca, esteja completamente excluído da austeridade, e que até a troika tenha cá metido 12.000 milhões de euros para salvar os bancos. Para esse efeito, pode ser necessário cortar salários e pensões, mesmo ao arrepio da Constituição vigente. Isso, no entanto, não impressiona Fernando Ulrich. O Tribunal Constitucional pronuncia-se contra o corte de subsídios? Temos uma ditadura do Tribunal Constitucional, que qualquer banqueiro anarquista tem o dever de combater. Há dúvidas sobre se o país aguenta tanta austeridade? Claro que aguenta. Os bancos é que não podem ficar sem os seus lucros habituais.

 

Se há algo que não faz qualquer sentido é que os bancos sejam o único negócio que nunca pode falir, tendo que ser ajudado pelo Estado. Os bancos conseguiram assim a suprema liberdade. Já os cidadãos tornaram-se escravos do Estado, tendo que pagar em impostos e cortes de salários e pensões a irresponsabilidade dos outros.

 

Pessoa põe estas palavras na boca do banqueiro anarquista: “Eu libertei-me a mim; fiz o meu dever simultaneamente para comigo e para com a liberdade. Por que é que os outros, os meus camaradas, não fizeram o mesmo? Eu não os impedi. Esse é que teria sido o crime, se os tivesse impedido. Mas eu nem sequer os impedi ocultando-lhes o verdadeiro processo anarquista; logo que descobri o processo, disse-o claramente a todos. O próprio processo me impedia de fazer mais. Que mais podia fazer? Compeli-los a seguir o caminho? Mesmo que o pudesse fazer, não o faria, porque seria tirar-lhes a liberdade, e isso era contra os meus princípios anarquistas. Auxiliá-los? Também não podia ser, pela mesma razão. Eu nunca ajudei, nem ajudo, ninguém, porque isso, sendo diminuir a liberdade alheia, é também contra os meus princípios. V. o que me está censurando é eu não ser mais gente que uma pessoa só. Por que me censura o cumprimento do meu dever de libertar, até onde eu o podia cumprir? Por que não os censura antes a eles por não terem cumprido o deles?“.

8 comentários em “O banqueiro anarquista.”

  1. As poucas palavras firmes que tenho para dar, em primeiro lugar vão para o autor do post: Excelente tirada.
    Para o banqueiro iluminado, há tantas, mas esta é uma constante: Porco!

  2. Quando os Bancos davam lucro, os dividendos eram só para os accionistas.

    Quando dão prejuízos enormes (os Gestores como este não são responsabilizados), somos todos a pagar.
    E esta Hem?
    JL

  3. Se há algo que não faz qualquer sentido é que os bancos sejam o único negócio que nunca pode falir”

    Muito bem!

  4. “Se há algo que não faz qualquer sentido é que os bancos sejam o único negócio que nunca pode falir, tendo que ser ajudado pelo Estado.” – errado, completamente errado! Se houve bancos ajudados não devia ter havido. Foram ajudados por razões puramente ideológicas. Se o negócio não dá, não deu, feche como os outros negócios. Haverá sempre outro ao lado que funciona bem e que venderá ou prestará em boas condições aquilo que é o seu negócio – dinheiro. Aquilo que nunca vai à falência é efectivamente o Estado, pois há sempre superbancos e supranacionais que emprestam, como é o caso do FMI. Se estes não funcionarem aí sim há sempre os burros (nós) para levarmos o cabresto um pouco mais além (ou a lugar nenhum). Pim!

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