O apelo à maioria silenciosa na Catalunha.


Luís Menezes Leitão,

 Uma das coisas típicas que acontecem quando um governo perdeu o controlo de um processo revolucionário é tentar organizar uma manifestação da pretensa maioria silenciosa para parar esse processo. É o que se preparam para fazer os opositores à independência da Catalunha no próximo domingo. É um jogo arriscado que às vezes tem sucesso, outras vezes se revela um desastre tão grande que os seus organizadores se arrependem totalmente de o ter feito.

 

Um dos exemplos de sucesso foi a manifestação convocada por De Gaulle no Maio de 1968. De Gaulle, que tinha a seu crédito a resistência à invasão alemã, viu-se submergido por uma revolta operária e estudantil que exigia, entre outras coisas disparatadas, a sua própria demissão, ficando sem saber como reagir. Mas depois de um mês de greves, de ocupações de fábricas e de universidades, lembrou-se de convocar para 30 de Maio uma manifestação contrária aos protestos. O povo francês, cansado de um mês de tanto delírio, aderiu em força com uma impressionante manifestação, que encheu as ruas da Concorde à l’Étoile. E De Gaulle respondeu aos apelos a que se demitisse com uma frase célebre: “La République n’abdiquera pas“. Procedeu, no entanto, à dissolução do Parlamento e convocou novas eleições em ordem a assegurar o regresso à legitimidade eleitoral. Com isso conseguiu acabar com o Maio de 1968, mas ele próprio não escaparia ileso a esse processo, pois perdeu o referendo que convocaria no ano seguinte para tentar recuperar a iniciativa política. Em qualquer caso, sem dúvida que essa manifestação foi um sucesso.

 

Pelo contrário, a manifestação da maioria silenciosa que o General Spínola convocou para 28 de Setembro de 1974 revelou-se um enorme fracasso. O PCP chamou-lhe logo “manifestação fascista“, colocou todos os seus militantes na rua que levantaram barricadas em todo o país e impediram o acesso dos pretensos manifestantes. Como resultado, a manifestação não se realizou, ficando conhecida como “a manifestação silenciosa“, e o General Spínola apresentaria a sua demissão dois dias depois, o que ainda mais acicatou o processo revolucionário em curso.

 

Quanto ao que vai acontecer com a nova manifestação da maioria silenciosa convocada para a Catalunha no próximo domingo, aceitam-se apostas.

7 comentários em “O apelo à maioria silenciosa na Catalunha.”

  1. Sabadel, Caixabank, BPI, Fitch e outros menos conhecidos já iniciaram o desfile silencioso

    as outras regiões aceitam deslocalizações com todos os braços

  2. Tanto quanto julgo saber, Madrid opõe-se liminarmente a que a independência catalã seja objeto de qualquer consulta.
    Então o que vai fazer a pretensa maioria silenciosa?!…
    João de Brito

    1. Vai jogar o jogo político, que é o que deveria ter feito desde o princípio.
      Em vez de jogar o jogo legal e judicial, vai debater a questão política no plano político, que é onde ela deve ser debatida.

  3. eu nem quero crer que existam catalães contra a independencia!!!??? não me digam que fui induzido em erro pela comunicação social portuguesa !!!???

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