Foi-se embora o André da Fernanda. E eu vou lendo mensagens e artigos intercontinentais, escritos por gente séria, impressos em publicações de prestígio a falarem do André da Fernanda. Da sua intransigência enquanto editor. Da sua espada alçada contra o moinho da literatura menor. Da forma como nunca colocou interesses comerciais à frente de boa poesia ou, ainda mais difícil, de grande dramaturgia.
Hoje, por exemplo, o Bernardo Carvalho escreveu um artigo na Folha de S. Paulo que gostaria de ter sido eu a escrever, não só porque acredito que se não existissem editoras como a Cotovia, a oferta de literatura em Portugal seria dolorosamente parca, mas sobretudo, porque gostaria de ter privado mais com ele.
Só o conheci como o André da Fernanda, com o respeito, a admiração e o amor que a Fernanda tinha por ele. Com as suas idiossincrasias e teimosias. Com o seu sentido de humor singular e a sua vontade de fazer o que lhe desse na real gana.
Uma vez resolvemos organizar um sarau de poesia. A Fernanda ofereceu a casa e nós, ingénuas, sugerimos que convidasse o André para participar. Horrorizada, respondeu-nos que era melhor deixá-lo ir jantar fora, que era homem para, ao primeiro verso que falasse de mirtilos, sair porta fora dizendo que era só o que lhe faltava aturar uma coisa daquelas.
Têm uma sintonia, aqueles dois. Mesmo agora. Vêem coisas que nós não vemos e guardam retalhos do quotidiano para trocar à desgarrada, com aquela souplesse que vive inerente à mais fina ironia.
Ficaram-lhes as saudades. Um do outro. E aposto que continuam a coleccionar frases deliciosas para se oferecerem um dia, quando se encontrarem na eternidade.


Belo texto, Francisca. Ainda há dois dias pensava eu que seria bonito ver no DELITO um texto sobre um dos últimos editores portugueses à moda antiga e eis que sou surpreendido por esta tua tocante prosa. Fica tudo dito em poucas mas sentidas linhas.
Obrigada, Pedro.
O André Jorge representava evidentemente muito mais do que aquilo que escrevi. Mas fui seguindo o seu percurso sempre através da Fernanda, de quem sou muito amiga, pelo que foi desta perspectiva que me fez sentido escrever o texto.
Um abraço