Leio hoje no DN que Pedro Passos Coelho acedeu a apresentar um livro de mexericos, cheios de putativas indiscrições sobre personalidades já falecidas. Fê-lo por admirar muito o autor, sem sequer ter lido a obra nem fazer ideia sobre o chorrilho de bisbilhotices lá estampadas – visando pessoas que já cá não estão para exercer o indispensável direito ao contraditório.
Se houvesse prémio para o livro mais execrável do ano no mercado editorial português este seria um sério candidato. Não consigo compreender como Passos aceita associar o seu nome a isto. E uma vez mais me surpreendo ao ver políticos profissionais, com experiência acumulada de décadas, tropeçando em cascas de banana com o descuido do amador mais imprevidente.

É, caro Pedro Correia, como dizem os brasucas “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come …”
Um político experimentado não deve cair nestas esparrelas, Fátima. Penso eu de que.
Quem, em nome da amizade, não se viu metido alguma vez numa situação complicada ou até penosa, que atire a primeira pedra.
Estas pedras fazem sempre ricochete, Sampy. Como refiro em resposta a outro leitor, quem abre a porta dos mexericos, tolerando-os ou avalizando-os, sujeita-se ao ricochete: hoje Passos Coelho não é mencionado, mas amanhã aparecerá noutro “livro” qualquer – e não vai gostar. Entretanto perde toda a autoridade moral para se indignar com o que quer que seja.
Elevação e sentido de Estado, tal como os caldos de galinha, nunca fizeram mal a ninguém.
Vamos por partes.
Se os mexericos fossem coisa a censurar nos nossos media, metade dos jornalistas estava desempregada e a outra metade, em nome da tal autoridade moral, estaria obrigada a entregar a carta de despedimento.
Passos Coelho já provou desse veneno. Estou, por exemplo, lembrado de que ele foi várias vezes acusado de estar a usar o cancro da esposa como trunfo eleitoral. A indignação com tal insinuação não foi assim tão grande.
Mais uma vez o digo: ele não se ofereceu para apresentar um livro de mexericos, mas sim o livro escrito por alguém que ele considera um amigo. Se alguém está a abusar da amizade, é o autor do livro. Se a amizade é verdadeira, o autor do livro deveria libertar Passos do compromisso assumido em boa-fé.
Por fim, o mais importante: eu ainda não li o livro. Nem, aposto, nenhum dos que anda por este blog a rasgar as vestes. Até prova em contrário, parece-me que andamos todos atrás de uma notícia mexeriqueira publicada num jornal sobre o putativo conteúdo do livro que nenhum de nós conhece de verdade. O que demonstra tristemente a nossa hipocrisia.
Lamento, mas não vou fazer publicidade ao “livro”. Nem o lerei, obviamente. Do autor – que chegou a dar uma entrevista dizendo-se capaz de ganhar o Prémio Nobel – li uma vez aquele que considero o pior livro de ficção portuguesa dos últimos 30 anos. t/no-pais-dos-brandos-costumes-7579581 t/de-cabeca-erguida-7573451
Passos Coelho – que foi vítima desse jornalismo de sarjeta, como bem recorda – deveria, até por isso, resguardar-se de caucionar tudo quanto tenha a ver com essa modalidade. Como escrevi em resposta a outro leitor, do esterco devemos afastar-nos, nunca aproximarmo-nos.
Este blogue tem toda a autoridade para se pronunciar sobre este tema. Desde logo porque aqui foram publicados textos como estes:
http://delitodeopiniao.blogs.sapo.p
http://delitodeopiniao.blogs.sapo.p
Em relação ao esterco, gosto de lembrar-me daquela fantástica fábula do passarinho.
O Pedro Correia tomou uma decisão, Passos Coelho há-de tomar a dele. Aguardemos.
Não me lembro dessa. Recordo a fábula da raposa e da cegonha. Cada um deve comer do seu prato, sem querer parecer aquilo que não é.
E lembro-me também de uma frase muito antiga, da sabedoria tradicional portuguesa: diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és.
O português é muito flexível.
Veja-se os Ministros da Finanças. Escrevem uma coisa e fazem outra completemente diferente.
Quanto aos ministros das Finanças, já houve e continuará a haver tempo e espaço para contestarmos o que dizem ou (não) fazem.
Voltando a este tema concreto: o ex-primeiro-ministro e líder do maior partido da oposição comete um erro enorme ao avalizar um livro de mexericos e bisbilhotices. Até porque estas coisas funcionam sempre com ricochete: hoje não é mencionado, amanhã aparecerá noutro “livro” qualquer. Entretanto perde toda a autoridade moral para se indignar com o que quer que seja.
Não estou a dizer para não se criticar, estou a dizer que os Portugueses gostam de estar bem com Deus e com o Diabo.
No entanto as wikileaks já eram coisa boa.
Sobre este tema em concreto a sua opinião é…… ?
Caro Pedro Correia
Talvez por eu ser mais velho, creio (quase 69) não me espanta nada.
António Cabral
Meu caro António Cabral, no dia em que eu deixar de me espantar de todo seja com o que for deixarei de escrever, aqui ou em qualquer outro local.
Espero que esse dia ainda venha longe.
Caro Pedro Correia. Repito, raramente já me espanto. Mas, como felizmente faz, e normalmente bem a meu ver, não desistir, e assim porfio no meu blogue como pode confirmar, porventura algumas vezes desajeitadamente. Cumps. António Cabral
Espero que assim continue, caro António. Cumprimentos.
indiscrições sobre personalidades já falecidas
Parece que muitas das personalidades referidas no livro estão ainda bem vivinhas.
Eu diria que o Pedro faria bem – tal e qual como Passos Coelho – em ler o livro, pelo menos por alto, antes de o vir classificar com epítetos como “o livro mais detestável do ano”. É que, pode ser que algum do material no livro não sejam “bisbilhotices” nem “mexericos”, mas coisas efetivamente importantes. Sabe-se lá…
Nem pensar. Se quiser saber bisbilhotices compro a Nova Gente.
Uma avaliação psicológica do autor talvez revele “capitis diminutio” que o isente do rigor dos códigos…
Agora, que vai vender como pãezinhos quentes -vai.
O melhor, será escancarado nos on-lines e net. À borla, para olharapos de bom senso económico.
Falando em bom senso: gostaria que Passos Coelho se demarcasse quanto antes deste inqualificável atentado à deontologia jornalística e às mais elementares normas de convivência cívica. Caucionar isto é um tiro de bazuca no próprio pé.
Porque Passos é meio burro. No dia em que ganhou as primeiras eleições e o CDS teve 15% apareceu à frente das câmaras com um papelinho amarrotado alinhavado com as coisas que tinha para dizer, provavelmente na ortografia nova. Intuíu-se logo ali que Portugal acabava de desperdiçar uma boa oportunidade para se livrar de vez do socialismo.
Seja como for, nada justifica que avalize um “livro” que utiliza mortos como arma de arremesso contra vivos e transforme alegadas conversas privadas em assassínios de carácter.
Devemos distanciar-nos do esterco, não aproximarmo-nos dele.
Se calhar é esterco que explica melhor do que outra coisa qualquer como funciona a classe política, como certas coisas acontecem, como algum jornalismo acede aos bastidores, etc, etc.
Ainda hão de chamar a Passos um pioneiro-prefaciador da nova historiografia portuguesa.
Não vá por aí. Tenho a certeza de que esse seu vaticínio não se confirmará.
Estava a brincar
Do autor só conheço o que li nas suas inenarráveis crónicas. Admiração por tal prosador, como diz ter Passos Coelho, já revela alguma falta de critério, necessária a quem quer ser primeiro-ministro. Se é por amizade, deveria recusar porque se o autor é seu amigo e quer arriscar, deveria saber que não se levam os amigos para situações que os comprometam. Até pode parecer que alguém tem medo do que se sabe ou se possa a vir saber.
Quanto à devassa da vida sexual dos outros é assunto que, em regra, só interessa a quem não tem nenhuma (vida sexual).
É como diz no seu último parágrafo. Quanto às tais crónicas, o adjectivo que a elas mais se adequa é esse mesmo: inenarráveis.
Custa a crer que o autor não tenha filtros que lhe permitam distinguir entre o bom e o medíocre e entre o medíocre e o péssimo.
Pensar que este indivíduo dirigiu durante 23 anos o jornal mais influente em Portugal diz muito sobre a crise do jornalismo. Que não é tão recente, como alguns imaginam: já vem muito mais de longe.
Eu só não entendo é como se fala mal de alguma coisa sem sequer a ler e não me parece muito válido dizer que mais vale ler a revista gente. Desde já digo que não vou ler o livro nem leio crónicas do autor.
Não me interessa falar do autor, pessoa que não merece sequer duas linhas de texto. Interessa-me, isso sim, sublinhar que Passos Coelho comete um erro lapidar se apresentar um “livro” destes. Um erro de amador. A política não é para amadores: é para profissionais.
Eu não falei do autor. Falei do hipotético conteúdo do livro que ainda não é conhecido. E isso parece-me que tem relevância. Quanto ao PPC o apresentar tirará o mesmo as devidas consequências do seu acto.
Não é conhecido? res-maliciosos-sobre-passos-coelho/
Olhe que é, olhe que é:
https://oinsurgente.org/2016/09/16/rumo
Qualquer cidadão que tivesse 2 horas livres o podia ter lido ontem numa FNAC qualquer pois é política da empresa, desde a sua fundação em França em 1954, que se possa lá passar o dia todo a ler sem ninguén vir chatear.
Claro que nem toda a gente almoça todos os dias na Baixa como eu e passa pelas livrarias, mas continuar a 17/09 a dizer-se que ninguém conhece o que já foi folheado (e até lido) na véspera por uns milhares de pessoas é típico de quem vive mais atrás de um teclado do que na rua.
Fica a sugestão àquele nosso leitor, meu caro. Talvez ele se sinta enfim autorizado a chamar esterco ao esterco, sem acanhamentos de qualquer espécie.
Isto é Passos, “O Farsante”, no seu melhor. Só quem não tivesse percebido o personagem, há vários anos, se admira. Não é o meu caso.
Lamento que uma editora prestigiada, que várias vezes aqui destaquei e elogiei, atribua chancela a uma coisa destas.
Algum lucro que possa conseguir com as vendas não compensará, de forma alguma, os custos reputacionais.
Eu nem li, nem vou ler.
Já somos dois.
Eu queria escrever um post sobre o assunto, mas já te antecipaste e escreveste não só o que eu queria escrever ocmo mais ainda que isso (não tinha intenção de focar PPC, apenas mencioná-lo de passagem).
A única coisa que eu escreveria de forma diferente seria mesmo essa referência: eu voltaria à minha opinião que não é particularmente inteligente. É que isto não é de amador, é apenas burrice.
O que fica por explicar da minha parte são estes dois pontos:
1) isto é legal?
2) como é que a Gradiva entrou no regabofe (eu que até tinha alguma consideração pela editora)?
Tentando responder-te sinteticamente, João:
1. Legal é, dentro de uma acepção muito ampla – que é a dominante na jurisprudência europeia – de liberdade de expressão. Pelo menos até prova em contrário, pois nada impede os visados e/ou seus familiares de accionarem processos por difamação, abuso de confiança, atentado ao bom nome, etc.
2. Partilho da tua perplexidade, tendo eu várias vezes feito elogio neste mesmo espaço à editora em causa. Aqui, por exemplo: 80792.html tra-vez-a-feira-6383568 rigado-6129994 t/um-dia-rasgado-puro-e-limpo-7476843 lfies-ou-o-que-for-8442638?thread=656225 42#t65622542
http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/56
http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/ou
http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/ob
http://delitodeopiniao.blogs.sapo.p
http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/se
Este “livro” torna-se a partir de agora uma péssima carta de apresentação para a Gradiva. Lamento muito.
Obrigado Pedro. Tendo a ficar confundido em relação a estes aspectos, uma vez que apesar de Saraiva ser jornalista, este livro não será jornalismo, pelo que não sei quais as possibilidades de conflito entre liberdade de expressão e direito à privacidade. Enfim, creio que isso dependerá de muitos aspectos. Independentemente desses, penso que temos muita gente a concordar que é, no mínimo dos mínimos, lamentável.
No mínimo dos mínimos, João. E estamos a ser benevolentes ao usar este qualificativo.
Isto não é jornalismo: é a perversão do jornalismo.