
De Maputo continuam-me a chegar novas sobre o “affaire Coimbra”. Agora mesmo um manifesto assinado por um grande rol de intelectuais (cerca de 260 pessoas) – alguns dos quais já li para grande aprendizagem minha. O texto é muito justo, convocando Estado e sociedade para enfrentar problemas graves e sempre descurados.
Mas é também interessante devido a outra dimensão do seu conteúdo. Pois é um enorme ditirambo contra o “Patriarca Genial” (assim nomeado) mas preservando-lhe léxico (e semântica), reclamando a continuidade de um legado teórico e de militância (mescla dita “activismo”, no jargão de agora). E isso é interessante pois será o enterro definitivo nas ciências sociais do país do tópico da “reflexividade”, essa crença (até autofágica) de que as condições pessoais e sociais dos investigadores infestam, e até determinam, o discurso analítico. Ora se neste caso é exactamente o contrário (pelo que centenas de intelectuais o assinam) então sintam-se os “mais-novos” livres dessa “maldição”… E os mais-velhos também, mesmo que “tóxicos”, “brancos” ou poluídos por outras malfeitorias desqualificativas do mesmo teor.
Como está legitimada (e ainda bem) a “autoetnografia”, deixo-me perorar nesse rumo. 18 anos em Moçambique, 1 na Bélgica. Outros 6 de facto confinado nos Olivais Sul e na margem Norte do Sado. Dou-me cada vez com menos gente, tanto devido à idade como, decerto, porque vários se terão cansado da minha vacuidade monótona (há quem lhe chame mau-feitio mas não é verdade). Ainda assim, tão afastado do rossio, fui v/lendo o ror de mesuras, de palcos atribuídos (e não só nos jornais mais ligados ao eixo PS-BE), de “respeitinho é muito bonito”. E acima de tudo de silêncios críticos – e nisso não incluo polémicas de jornais, que são coisas de outra natureza. É evidente que não leio tudo mas neste quarto de século li 2 ou 3 dos melhores antropólogos nacionais cutucarem, um pouco a latere, as formulações do “Patriarca Genial”. E noto com prazer 2 franceses que foram o suficientemente críticos, mas apenas centrados nas suas formulações sobre o percurso histórico português. O resto, repito, mesuras – em última análise “ele é genial mas tem destas coisas” como salvaguarda agora a primeira página do jornal “Público”… E silêncio. E agora mesmo os seus subscritores (até gente que o ombreou no patético gemido de que estava a ser criminalizado devido ao efectivo apoio à Rússia – tropelia a que dediquei um texto de blog que me saiu bem, dinamizado pelo nojo para com aqueles putinescos, o “Da Empáfia Hipócrita“) acordam e vêm agregar-se na luta contra… “o patriarcado e o colonialismo”. É evidente que a gente pode andar completamente distraída no mundo – mas então não se intitula (e assina) como “grande repórter” (como aqueloutra) ou “investigadora (de ciências sociais)”.
Cerca de 2005 em Maputo um amigo tinha sido ofertado com dois exemplares de um livro com um bem esgalhado título kantiano. E ofereceu-me um. Era “A Crítica da Razão Indolente”. Encetei-o com o tratamento que me é habitual, ler a introdução e, quando há, a conclusão. Fiquei estupefacto. Decerto que devido às minhas limitações intelectuais, porventura por ser também um “positivista” (e “branco” e “tóxico”, mas na época ainda não era tão grave sê-lo). Na modéstia do meu calibre fiz aquilo que julgo apropriado a esta condição: escrevi um e-mail a um punhado de colegas que muito respeitava, perguntando-lhes “já leste o último livro do BSS?”, com o intuito que algum(ns) me pudesse(m) iluminar, esclarecer, fundamentar aquilo, que me parecera um devaneio ideológico em formato de calhamaço. Uns não me responderam, outros não tinham lido. Mas um, antropólogo a que voto grande respeito intelectual (e muitas leituras), respondeu-me com um evidente carinho de mais-velho, num apenas: “não te metas com o Boaventura“. Assim fiz.
Há algum manifesto que eu possa agora assinar?

Não tem nada que ver com o post mas não deixa de ser curioso como as ciências exatas estão praticamente sempre de fora das decisões e dos movimentos deste país… Tudo o que aparece vem sempre das áreas sociais que controlam e capturaram completamente o espaço e debate públicos. Nada ou quase nunca nada do lado das químicas, físicas, matemáticas, biologias, engenharias, etc, etc, como se estas áreas nada importassem para o desenvolvimento do país e da sociedade. Talvez seja por ser de bioquímica mas acho que estas áreas são muito, mas muito mais importantes do que muita gente pensa e lamento que neste país se dê tanto poder e espaço de antena a sociólogos que mais não fazem do que espalhar ideologias políticas.
Obrigado. É um problema vasto o que levanta – tanto que não me cabe numa caixa de comentários o ainda assim parco saber que me pode alimentar uma conversa sobre o assunto. Mas há desde logo alguns pontos, contraditórios, que posso “atirar”: 1) de facto a identificação de problemáticas sociológicas e articuláveis problemas sociais não é tarefa para as ciências exactas (que poderão/deverão fazer contributos no seu elencar e nas propostas para as iniciativas a ter, mas isso é outra coisa). E nesse sentido não é elas (a “sua” bioquímica, a engenharia civil, outra qualquer) – enquanto tais – que deveremos convocar para o delinear das estratégias políticas de desenvolvimento. E ressalvo que isto não é dizer que não compete aos profissionais dessas áreas participar, opinar, delinear essas estratégias. 2) não há qualquer forma de aventar estratégias de desenvolvimento do país (ou de seus sectores) que não sejam ideológicas – uma das correntes ideológicas mais vigorosas e mais requestadas por alguns sectores da sociedade é a tecnocracia… Agora pode-se partir de quadros mais ou menos amplos e sistematizados de interpretar o real actual, as influências vigentes do passado e de projectar algum tipo de futuro (as tais ideologias) para entender um mundo fluido e de nele tentar articular acções benfazejas (a tal política), ou pura e simplesmente partir de um quadro muito determinado e voluntarista de pressupostos para nele fazer caber um conjunto de princípios predeterminados, amalgamando a la carte o que se encontra no real para compor os discursos “ideológicos” – as patacoadas de décadas de Sousa Santos, o seu “colonialismo” vigente por exemplo, são um caso típico, que lhe permite por exemplo saudar o regime iraniano devido às suas (hegelianas?) virtudes anticapitalistas. Nestes últimos casos (à “direita”, ao “centro”, à “esquerda”) a “realidade real” pouco importa, apesar das retóricas “interpretativas”, o que conta é a “coerência” das formulações, da “arquitectura” retórica e da excitação até sensual das formulações.
3) concordo consigo, o discurso público (e assim político) está algo tomado por retóricos – não exactamente “sociológos” ou afins. Isso não é só uma malevolência dos órgãos de informação. Pois por definição os trabalhadores das ciências sociais/humanidades trabalham com as palavras e assim tendencialmente os que nelas são mais dotados surgem no tal discurso público, ao invés dos trabalhadores das ciências exactas – é evidente que isto é uma generalização, mas estatisticamente fundamentável. Deste modo, e para além da relativa especialização em questões “políticas” / “desenvolvimentistas” desses profissionais, podemos ver como assumem relevância no discurso público segundo tendências ideológicas dos diferentes quadrantes: costuma-se dizer que o PS no poder privilegia uma ciência social (a sociologia) enquanto o PSD privilegia outra ciência social (a economia – ainda que muitos ignorantes apartem a economia das ciências sociais, estupidificados pela utilização de números/modelos matemáticos, que julgam “exactos”).
Mas será importante notar que de facto o tal discurso público (na imprensa e na política) não está dominado por “sociólogos” (ou especialistas de outras disciplinas), ainda que alguns o habitem (António Barreto, por exemplo), que possam ser considerados como “intelectuais públicos” como antes se dizia. De facto reinam generalistas (publicistas, antes ditos plumitivos) de verve rápida (na tv, nos jornais, nos cargos políticos). E mesmo os que ascendem na política abandonam, acima de tudo por estratégias de curto prazo para êxitos particularistas (e pessoais), a prática da reflexão disciplinar problematizadora – veja-se o caso de Augusto Santos Silva, um intelectual enorme transmutado num pérfido (perigoso) político.
4) de facto são as características (decadentes) do sistema político-partidário que afastam os especialistas das ciências exactas, e também das ciências sociais, do exercício de um verdadeiro discurso público com repercussões políticas. Os especialistas não ascendem aos cargos políticos – e mesmo ao topo da atrapalhada carreira do funcionalismo. Veja-se o caso catastrófico da ministra da agricultura (uma autarca que se arrasta num cargo diante do incómodo de qualquer especialista das áreas da sua tutela). Enfim, fico por aqui, que o comentário já vai longo e até tive de o dividir.
Tem toda a razão assim como o meu comentário sobre a Alemanha é abusivo pois há muito mais do que apenas o palco que se dá (ou não) a umas ou outras ciências. Uma diferença entre Portugal e a Alemanha que faz toda a diferença é que por lá ainda há uma cultura de mérito em que os especialistas podem e chegam efetivamente aos tais cargos que refere já por cá a cultura vigente é a da troca de favores e compadrio e isso faz toda a diferença. Enfim por aqui me fico pois já nada tem que ver com o post original.
Enfim tem razão quando fala da direita e da economia que acaba por ser, de grosso modo, uma forma de validar matematicamente (em parte) aquilo em que acreditam, ou seja, a ideologia que os move.
Sobre os assuntos sociais até se percebe que a bioquimica, eng civil, etc, etc, fiquem mais à margem mas o problema é que se discutem demasiadas vezes as mesmas coisas (se bem que discutir não é de todo ter um marmelo na TV a debitar ideologias e a culpar outros sem direito ao contraditório) ignorando sempre, ou quase sempre, as ciências ditas exatas e as questões a elas relacionadas as quais, são uma componente muito importante de qualquer economia e sociedade evoluídas. A Alemanha não se tornou o motor da economia europeia apenas a olhar para as questões sociais nem tão pouco apenas com espaços mediáticos controlados por experts em ciências sociais, não! A Alemanha é o que é muito graças aos engenheiros do ramo automóvel, químico, biológico,… Não foram com malta das ciências socicias (ou não apenas com eles) que se construíram os colossos BASF, Bayer, VW, Bosch, Mercedes Benz, etc, etc, se calhar devíamos olhar mais para o valor das ciências exatas por cá (digo eu) e menos para as teorias sociais que nos são vendidas a toda a hora e que têm sido utilizadas muitas vezes não para o avanço da sociedade mas sim para a discórdia e fratura da mesma com este sr Boaventura a ser um excelente exemplo disso mesmo.
“Não tem nada que ver com o post mas não deixa de ser curioso como as ciências exatas estão praticamente sempre de fora das decisões e dos movimentos deste país… “
É assim porque a única função do jornalismo é ser catalizador da ultima religião que resta do Ocidente: A Política na qual o objectivo único é a distribuição forçada de recursos e produção.
As ciências exatas só são chamadas à Ágora apenas quando ajudam a esse propósito. E quando o são. tornam-se logo muito menos exactas por lhe serem pedido exactidões que estão muito longe de terem…
Tenho seguido estes seus postais sobre a nova” Questão Coimbrã” com muita satisfação, já que nunca fui apreciadora do tipo de “genialidade” do dito cujo, jpt. É importante constatar que já muitos abriram os olhos ao facto de que o rei vai nu há muito tempo. Que os mantenham bem abertos para prevenir futuras desilusões geniais.
“Desilusões geniais” está muito bem, até fico invejoso de não me ter ocorrido… Quanto ao resto que diz: eu não acredito – exactamente pelo que digo no postal – que esta mole de (tão tardios) subscritores (as aleivosias pessoais deste traste são consabidas há décadas, e repito-me, vivi duas décadas no estrangeiro) que surgem agora agarrados ao “estilo activista” que ele plantou tenham “aberto os olhos”. Nesta filiação à tal retórica o que mostram é que quanto muito pestanejaram, assustados. E muitos, decerto, assustados porque temendo que com esta bronca os fluxos financeiros se reduzam.
-Pimba! Este aqui já era…
Começa a coisa a limpar-se!
ouvia dizer quando andei em Coimbra há 20, da antropofagia do guru protegido pelo eixo ps-be
dizia-se que houve quem gostou de ser ‘comida’
xarneca faz lembrar o outro, anda por todo o lado.
Mas há 20 não estava longe da republiqueta ?
xa-r-neca
in oculum descansum est
Sempre vem ao caso o quanto de consumo de palavras povoa a política e a dita intelectualidade de esquerda,
Impor a retórica parece concentrar todo o esforço, com total descuido de que tal traduza ou projecte uma qualquer realidade.
BSS é, nas lutas da esquerda, o mais credenciado fornecedor e praticante de tretas, no seu sentido original de artifício de luta.
Machismo e sexismo, tiveram sucesso adequado.
A razão para isto ter acontecido só agora é simplesmente a velhice do BSS.
O poder foge do Rei, os delfins preparam-se para a guerra de quem vai liderar o Politburo do CES.
O Prof. António Manuel Baptista, já desaparecido, sempre denunciou o charlatanismo deste pássaro-bisnau . mas a prostituída , ignorante e ideologiicamente orientada ” comunicação social” cá da paróquia sempre assobiou para o lado…
A propósito, talvez seja pertinente recordar a definição do Grande Ausente quanto à Sociologia : um híbrido de socialismo e astrologia…
JSP