O acessório e o essencial


Pedro Correia,

Esquecemo-nos com demasiada frequência de que os políticos são gente comum, com qualidades e defeitos como qualquer de nós. E por vezes com dramas íntimos que merecem o nosso respeito e o nosso apoio. Reflicto nisto a propósito de Bernardino Soares, ex-líder parlamenter do PCP e actual presidente da Câmara de Loures: ele e a mulher, Marta, têm um filho que nasceu há três anos com grave insuficiência respiratória devido ao parto prematuro. Acederam agora a partilhar a história do pequeno Francisco com os espectadores da SIC, numa reportagem que merece aplauso. E que nos faz reflectir sobre a urgência da aprovação do Estatuto de Cuidador Informal neste país que tanto se ocupa com o acessório enquanto vai esquecendo o essencial.

17 comentários em “O acessório e o essencial”

  1. Excelente post, caro Pedro Correia. Parabéns pela empatia demonstrada e pela ainda mais empática chamada de atenção para uma omissão (será?) que a todos nós deveria envergonhar enquanto grei que se deseja e se quer solidária.

    1. Fez-me pensar, esta reportagem. Precisamente no que ponho em título: andamos tantas vezes enredados no acessório que não nos sobra tempo nem paciência nem capacidade de atenção para o essencial.

      1. O que verdadeiramente nos passa ao lado – e muitíssimas mais vezes do que as que seriam toleráveis – é a nossa supostamente partilhada humanidade, caro Pedro Correia.

    1. Sei também, muito de perto, o que esse drama é. E o brutal desgaste que causa. E a incapacidade total do “Estado Social” que temos para acorrer a ele e minorar os danos.

  2. não conheço as leis francesas, mas tenho uma prima que vive por lá e tem 2 filhas e 1 filho. O Alexandre é autista, mas, apesar das inúmeras demonstrações de inteligência e de fazer sempre um esforço para verbalizar tudo o que sente (e, quando visita Portugal, fazer o mesmo, com visível esforço, sem desistir), foi dado como “deficiente mental”, na primeira creche que por lá frequentou. A minha prima moveu-se, abdicou de x horas no trabalho, com a consequente quebra no ordenadomensal, mas obteve os apoios necessários, no que à parte estatal diz respeito, e ele é agora um menino francamente estimulado, com enormes progressos, o que permitiu que a minha prima não tivesse que abdicar do trabalho a tempo inteiro (isto deprime qualquer pessoa, é sabido).

    agora, o Alexandre monta mas também fala com os cavalos, frequenta uma escola especial que não o força a nada, mas onde existe autoridade e ele sabe-o, tem amigos e, surpresa das surpresas, está na idade do armário, com os sinais todos à vista: a prova de tanta coisa que a minha prima precisava, mas que não direi, de tanto que está à vista, quando os apoios são efectivos e tão, mas tão valiosos!

    1. Que diferença, Alexandra. A França tão perto mas afinal tão longe.
      E quase nunca se fala destas coisas num país que tem pelo menos 800 mil “cuidadores informais” dentro das paredes domésticas. Andamos demasiado entretidos com a espuma dos dias e com as “cenas fofinhas” que pululam na Net.

  3. A grande maioria das famílias possuem problemas, especialmente de saúde, que sem terem meios financeiros para recorrer ao privado, são uma verdadeira dificuldade para resolver. O Estatuto do Cuidador Informal deve ser uma das premissas para podermos todos ajudar essas famílias, especialmente, por exemplo, no caso concreto dos idosos.

    1. É a altura certa para trazer estas questões à superfície. No momento em que se discute o Orçamento do Estado, que atira dinheiro sempre para cima dos mesmos enquanto omite questões muito importantes apenas porque não têm destaque mediático. Como esta.

  4. a 200% consigo, Pedro Correia, quanto à parte final do post.

    os políticos vs a pessoa que são e/ou a vida que têm já é outra coisa…

    é uma coisa assim como o Lobo Antunes ter escrito tão bem mas tão bem até a “As Naus” e ser, ao mesmo tempo, tão mas tão parvo (to say the least).

  5. É tocante, como todos podem confirmar e, ainda mais, todos os que são pais. Eu sei que parecerá deselegante no âmbito do teu elevado postal mas fico à espera, depois de conhecer esta reportagem e a difícil situação da família de Bernardino Soares (à qual desejo, com toda a sinceridade, as maiores felicidades e sucessos no controlo dos problemas de saúde do filho), das acusações de Porfírio Silva, bloguista, professor universitário e actual assessor do actual primeiro-ministro, bem como de outros seus apaniguados, que invectivarão esta utilização de uma doença familiar para efeitos eleitoralistas. Fizeram-no com Passos Coelho, deverão fazê-lo agora …

    1. Registei também a contenção, o delicado pudor tão fora de moda, de ambos nesta delicada abordagem à situação familiar.
      Só posso desejar rápidas e boas melhoras ao pequeno Francisco.

      1. Sim, o pudor e a contenção, mas também a mãe, a Marta, no limite da exaustão emocional e física, isto tocou-me tremendamente, o evitar das lágrimas que me pareceu quererem sair em cascata, a qualquer momento. As que botaram foram de imediato apagadas por uma mão lesta, que sabe que não pode (mas deveria poder, sim, chorar de cansaço e insegurança e abandono por parte dos Eternos Ausentes Formais…).

        Quantas vezes um Cuidador Informal está tão ou mais necessitado de apoio que o doente que ampara, dia após dia, prescindindo de si? Faz-se com desvelo, amor, os afectos todos, mas o desgaste acumulado tem as suas consequências.

        O próprio Bernardino mostra-se em estado de enorme fragilidade. Eventualmente, sentirá alguma culpapor não estar mais presente, mas aqueles cento e tal euros de apoio e o desemprego de Marta farão sempre com que não possa estar tão presente quanto desejaria.

  6. Uma pergunta, Pedro: estaríamos sequer a falar deste tema se não fossem o Francisco e o Bernardino e a Marta? Se não fosse o filho de um jovem e promissor político da nossa praça, talvez esta questão dos Cuidadores nem sequer fosse ventilada, caindo no esquecimento imediato como tantas outras boas reportagens sobre temas assim tocantes.

    Mas amanhã este tema perder-se-à perante “a actualidade” voraz da comunicação social ou das redes sociais. E os Cuidadores continuarão a ser invisíveis para o Estado, tal como os centros de cuidados especiais ou os cuidados continuados continuarão a ser largamente garantidos pelas redes particulares de apoio. Há temas que deveriam fazer parte da Ordem do Dia todos os dias até algo mudar.

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