O abismo depois do êxito, esse velho impostor


Pedro Correia,

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A trágica morte de João Rendeiro ilustra melhor do que mil sermões como é ilusório o clarão dos holofotes, que iluminam por instantes e logo se apagam, deixando a vedeta da véspera submersa na penumbra. À glória fácil sucede-se a queda sem remissão. Aconteceu com o banqueiro que teve parte da classe dirigente e da constelação jornalística a seus pés, quando ganhou fama de multiplicar os dividendos de ricos e poderosos. Triste ironia, terminar os seus dias tão longe desse mundo de seda e cetim, num país distante, entre os escorraçados da sociedade.

Os mais cínicos dirão que o lisboeta João Manuel Oliveira Rendeiro, nascido há 69 anos em família de classe média oriunda de Aveiro e agora encontrado sem vida numa cela sul-africana, por aparente enforcamento, teve o que merecia. Mas num país que se orgulha de haver abolido o tratamento prisional desumano, práticas de tortura em estabelecimentos estatais e a pena de morte, é imoral alguém congratular-se com o desaparecimento seja de quem for, sobretudo em circunstâncias destas. Trate-se de um milionário caído em desgraça ou do mais humilde varredor de ruas.

 

É verdade que Rendeiro, fundador e antigo homem forte do Banco Privado Português, promovido com a ajuda de muitas figuras mediáticas e habituado durante anos a gerir fortunas, criou um monstro financeiro que acabou por devorá-lo. Já era assim, em estrito rigor, quando as manchetes da imprensa mais complacente lhe colavam o rótulo de «banqueiro dos ricos».

Cometeu, sem dúvida, vários pecados capitais – incluindo o de acreditar no seu próprio mito. E era um foragido à justiça: fora condenado, em última instância, num dos processos criminais que lhe haviam sido instaurados. Neste caso, a cinco anos e oito meses de prisão efectiva por falsidade informática e falsidade de documentos

Escapou para a África do Sul, perante a chocante benevolência de um sistema judiciário que lhe concedia garantias sem lhe impor deveres, e só viria a ser localizado pelas autoridades policiais após uma célebre entrevista que assinalou o início das emissões da CNN portuguesa. Expondo a nossa investigação criminal ao ridículo.

Como outras opções que foi tomando, numa vida que dava um filme sem final feliz, também esta se revelou desastrosa. Dizia agir «em legítima defesa», recusando ser «bode expiatório do sistema financeiro nacional». Sem perceber que continuava a dar passos na direcção errada.

 

Poucas derrocadas pessoais terão sido tão abruptas. Dos supostos milhões que haveria amealhado nas Ilhas Virgens britânicas, enquanto gestor das ilusões alheias, à quase-indigência que nem lhe permitia pagar os serviços jurídicos da advogada sul-africana. Também sem assistência consular, como se fosse apátrida.

De algum modo, teve o destino que escolheu. Até em sentido literal, enquanto reverso do êxito, esse velho e astuto impostor. Como escreveu o poeta espanhol Juan Bonilla, «todo suicidio es un crimen pasional. / El suicida se sacrifica siempre / por un amor no correspondido.»

 

Texto publicado no semanário Novo.

27 comentários em “O abismo depois do êxito, esse velho impostor”

  1. A trágica morte de João Rendeiro

    Trágica porquê? Não há, em minha opinião, tragédia nenhuma. Suicidou-se, prontos.

    1. A morte dele foi trágica.
      Dramático é constatar o enigmático desaparecimento do Luís Lavoura, que comentava aqui todos os dias até que desapareceu para nunca mais voltar.

      1. Mas foi substituído por um eventual avatar, igualmente a atirar para o “levezinho”, se me faço entender.

        Abraço, Pedro

    2. Qual suicidou-se qual carapuça. Acabou o dinheiro vivo a que conseguia aceder. Acabou a protecção na prisão que ele tinha de pagar. Limparam-lhe o sebo. Clarinho como água.

      Lembremos que ele próprio disse que não voltaria a Portugal porque estava a ser ameaçado e provavelmente não iria conseguir sobreviver naquela prisão.

  2. Os mais cínicos dirão que […] teve o que merecia

    Ele não teve o que merecia, teve o que escolheu. Foi ele quem escolheu fugir, foi ele quem escolheu a África do Sul, foi ele quem escolheu suicidar-se. Foram tudo atos da vontade dele. Ninguém o fez morrer, foi ele quem livremente optou por isso.

  3. Corre o boato que foi tudo encenação daí a dificuldade em trazer o corpo para Portugal. Com os milhões que ele tinha não me admiro nada. Só acredito quando vir o corpo.

  4. E assim o país perde mais um dos nossos banqueiros sérios, seguros e confiáveis de que nos falavam tão amiúde entre 2008 e 2012.
    Lembram-se? A economia mundial estava a colapsar e a do país com ela, mas no caso português não tinha nada a ver com bancos, era o Estado, esse malandro, e os cidadãos que se endividaram loucamente e viviam acima das suas possibilidades, os bancos coitados, eram entidades sérias que não se metiam em falcatruas.
    Se tivesse 1 euro por cada vez que ouvi isto, tinha a reforma assegurada.

    1. Lembro-me bem desses tempos, Jô.
      Os colaboradores bancários vestiam de negro, eles de fato, camisa e gravata negra, elas de vestido negro, tocavam às campaínhas às quatro e cinco da manhã, obrigavam os cidadãos em pijama a assinarem contratos para comprar casa, carro ou férias a pagar em 10, 20 ou 50 anos
      O cidadão coitado, arrancado do sono, não tinha culpa.
      A culpa era dos bancos, do estado, do FMI, da troika, dos blogs, do balio, enfim, a culpa é sempre de todos excepto do “povo”.

      1. Pensava que estes grandes gestores recebiam milhares pelas suas grandes capacidades de avaliarem os credores antes dos empréstimos. Pelos vistos poderiam ter dado o trabalho de verificar o crédito ao contínuo, fazia um trabalho tão mau como eles, mas era mais barato e menos vaidoso.
        Os grandes incumpridores não foram cidadãos comuns, ao contrário do que parece acreditar não foram os créditos à habitação e para compra de carro que estoiraram em grande escala. Foram os empréstimos que estes senhores de negro com ordenados milionários deram à família e amigos. Foi uma gestão tão má que quando os bancos implodiram sabia-se que havia dívidas para o contribuinte pagar mas não se sabia quem devia. Foram as “liberalidades”, foi um Banco de Portugal mais interessado em defender os bancos que os contribuintes que deixou bancos falidos fazerem aumentos de capital, e não teve nada a dizer quando das compras de ações a bancos com empréstimos dos próprios bancos.
        Tudo gente séria segura e confiável, amigos dos seus amigos e dados à caridade – neste caso a caridade começou em casa.

        1. Se os “grandes gestores” avaliassem o credores Portugal não teria 130% de dívida e os Jo deste mundo esteriam a falar de discriminação financeira.
          E também vimos o filme das Agência de Rating. Piores que Nazis coma Merkel.

          Agora pagas com inflação e escassez que é para aprenderes.

          1. Defende então que um banco deve emprestar a qualquer um que lhe peça dinheiro, sobertudo aos familiares dos gestores e às empresas detidas pelo próprio banco, como foi o caso português?

          1. A crise do subprime não começou cá. Falo do caso português e dos nossos excelsos banqueiros cujos desmandos nós pagamos com os nossos impostos.
            E sobretudo dos nossos especialistas que diziam que o que nos salvava da crise era a qualidade da nossa banca. Ainda não vi ninguém explicar porque fizeram essa afirmação falsa tão veementemente.

  5. Um caso cujo desfecho se deve ao estado da Justiça em Portugal. Lenta, leniente, com sobregarantias, tudo o que permite intermináveis histórias por diferentes tribunais e inúmeros recursos, até que muitos anos depois se chegue finalmente a alguma conslução mas sem justiça em tempo útil, seja por prescrições, morte natural de réus ou dos queixosos… histórias que se repetem noutros casos bem conhecidos e mediáticos: um punhado de nada até agora.

  6. “….agora encontrado sem vida numa cela sul-africana, por aparente enforcamento, teve o que merecia….”
    Teve o que merecia?
    Pedro Correia é favor da pena de morte por burlas bancárias?

  7. Os banqueiros feitos “nas coxas” nestes 40 e tal anos, dá a ideia que são “as almas do outro mundo” daqueles bancos nacionalizados no PREC e enfiados em Caxias.
    Têm tanta maldade que a massa desaparece e ninguém a vê nem se sabe para onde foram os biliões.
    Não são banqueiros, são fantasmas.

  8. Não se sabe se foi suicídio. Sabemos que foi morte e violenta. Às mãos de outrém ou às suas próprias, morreu. Pode ter sido um trafulha, ter cometido crimes graves. Pergunto-me se não há por aí quem tenha feito igual ou semelhante – e mesmo de mais largo espectro – e ande como que satisfeito consigo, talvez em prisão domiciliária ou por aí. Veio do nada, era inteligente, subiu. E deslumbrou-se. Mas, quem vem de baixo tem mais invejas que amigos e, quem sabe, ele nem os fez, não tinha tempo, andava ocupado a adquirir conhecimentos importantes que o descartaram com brevidade. Nem sequer lhe conheço a vida, era-me estranho. Contudo, desde que o processo foi propalado nos media, parecia uma pessoa só, cada dia mais só. Como se confirmou.

    1. Terá sido mesmo suicídio pois estava numa cela individual quando morreu. Inaceitável é ver as turbas das redes ditas sociais celebrar a morte de alguém, como agora aconteceu.
      Isto diz muito sobre os “valores” vigentes no nosso tempo.

  9. A história, passo a expressão, de João Rendeiro é de facto uma tragédia escrita em vários actos que terminou de uma forma indigna do ponto de vista humano.
    A mim, confesso, apesar de tudo o que lhe possamos apontar e é muito, fez-me muita impressão ouvir certos comentários/opiniões perante a forma como morreu.

      1. O nome disso é “ausência de compaixão” .
        E sinto sempre uma aragenzinha gelada, quando pressinto, ou julgo reconhecer, alguma manifestação dessa nefasta particularidade da natureza humana.
        Xô ….!!!

  10. Cheira a encenação, não acredito que se suicidou, cá para mim o homem está vivo como o Elvis Presley. Provavelmente faz uma operação plástica a cara e ao rabo e toca a bailar num país qualquer.

  11. Pelo que nos dão a conhecer o melhor ´fugir da justiça, como me dizia um dos vários juízes que conheci.
    Quem pôs milhões nesse banco tinha o objectivo de arrecadar uma boa recompensa.
    O sentido injustiça é pesado.

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