“Novo paradigma”, patati-patatá


Pedro Correia,

Esta semana semana passei uma tarde a ouvir umas quantas luminárias discorrer sobre questões de magna irrelevância perante um reduzido auditório. E de novo pensei como se fala cada vez pior: o vocabulário está infestado de estrangeirismos dispensáveis, modismos de todo o tipo, eufemismos que dão vontade de bater em retirada. Uma espécie de linguajar de gestor bancário cruzado com jargão de treinador de futebol contamina o nosso léxico comum. Complicando o que é simples. E tornando demasiadas frases quase incompreensíveis.

Temos o fatal “colocar” usado e abusado, com exclusão total do claro e eficaz verbo “pôr”. Ou “arrancar”, que parece ter destronado por completo o singelo “começar”. Ou “distinto”, na sua ambiguidade semântica, como obstinado substituto de “diferente”. E por aqui me fico: a lista seria imensa.

Fui ouvindo penosamente aquele patati-patatá infestado de conteúdos, disruptivo, perfomativo, implementar, sustentabilidade. Por parte de quem se propunha colocar a questão, abrir janelas de oportunidade, deixar tudo em cima da mesa, analisar o estado da arte, entoar hossanas ao novo paradigma. 

De repente parecem todos perorar à maneira do professor Boaventura numa prelecção do Centro de Estudos Sociais, em Coimbra.

Saí de lá com esta convicção: qualquer dia desaprendo de falar.

19 comentários em ““Novo paradigma”, patati-patatá”

  1. E não esquecer que a antiga prática de dar simplesmente as notícias foi substituída pelo tique de as anunciar previamente: “O dia ficou marcado por…”, “Uma notícia que marca o dia é…”, “A marcar o dia há o facto de…”
    Fico sempre a pensar que dirão os dias, cheios de riscos e amolgadelas

    1. Outros modismos idiotas: dizer “ao dia de hoje” (em vez de simplesmente “hoje”), que alastra como praga; e começar frases com os verbos no infinitivo, à professor Karamba (“digo que” passou à história, agora é “dizer que”, sempre com sujeito indeterminado).

  2. até violam a língua … de porco ou vaca
    acabam a arrancar os tomates … se não lhes der o mal murcho.
    e as siglas? PqP

  3. E vai piorar.
    O “correio manhoso” sempre aplicou nas suas páginas as desgraças caricatas e a lei da selva jornalística.
    O matou, morreu, apanhado, violou, roubou é o que está a dar, acompanhado com as pérolas de registrado, esfaqueado com faca em cozinha, morreu queimado em fogo, violou a
    filha menor 537 vezes, é o que está a dar e vender com umas páginas de anúncios e fotografias picantes.

      1. Apanhei a boleia e por tabela dei no manhoso.
        Um emigrante que visite Portugal passado anos, leia o manhoso e veja a tv do manhoso fica com pouca vontade de cá ficar.
        Para lá das desgraças nas páginas do jornal, os locutores das notícias aplicam palavras num português estranho.

  4. > cruzado com jargão

    Dantes tínhamos de nos contentar com “calão”.

    Estou a ver que já houve “upgrades” ao vocabulário autóctone.

    1. passante, jargão e calão não têm exactamente o mesmo conteúdo semântico. Se quis passar por aqui para protestar estatelou-se nessa passagem

  5. Olhe que ainda não peroram exatamante (graças a Deus, diga-se!) à maneira desse professor (ou da verborreia por ele defendida), caso contrário teria ouvido pérolas como aquela imitação rasca de novilíngua para a igualdade de género, com os patéticos pronomes neutros ou as palavres a acabar em “e(s)” e não em “o(s)” ou “a(s)”, por exemplo. Mas receio que lá chegaremos pois em várias academias já temos os futuros doutores e engenheires (olhe a tal novilíngua a virar frangos) a usar com frequência esta palermice pegada e a levarem autênticas “injecções de cavalo” acerca da suposta justiça e vantagens de se utilizar esta coisa.


      1. Enfim, pregam o combate ao machismo e a igualdade mas depois usam e abusam da posição previligiada que têm na academia para se esticarem para cima do tal género oprimido, que falta de vergonha e honestidade!
        Mas pronto ao menos e, segundo consta, o sr não é racista pois tanto se estica com portuguesas como com estrangeiras, ao menos aí é coerente com a verborreia que passa a vida a pregar.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *