No plano de resposta à crise existem duas visões muito distintas na União Europeia sobre o que deve ser a intervenção dos Estados nestes tempos dificeis. Por um lado os países do sul, liderados por uma França que vê no aumento brutal da despesa e no investimento público a resposta aos problemas que nos afligem, por outro lado os países do norte, liderados por uma Alemanha que se revê nas contas públicas controladas e questiona o que será de uma Europa super endividada em caso de crise prolongada.
Este artigo do International Herald Tribune explica na perfeição a batalha que ocorre nos corredores do poder europeu no momento actual. Portugal, para não variar, faz parte do grupo de países que, segundo o artigo, "apoiariam regras menos apertadas por parte da UE para acomodar as suas elevadas dívidas públicas ao invés de adoptarem reformas estruturais que seriam inaceitáveis aos olhos da opinião pública durante estes tempos de rápido desaceleramento da actividade económica".
É certo que reformas estruturais neste período podem parecer impossíveis de levar a cabo, mas não é menos verdade que se já não as implementamos foi por irresponsabilidade dos actuais politicos que nos governam. Nada que se afigure como novidade na política nacional: na década de oitenta do século passado os políticos só conseguiram agir quando estavam a coberto das exigências do Fundo Monetário Internacional (FMI).
A Bloomberg dá conta que a União Europeia está pronta para sair em socorro de qualquer país da zona euro em dificuldades antes destes terem de recorrer ao FMI. Reparem nos quatro países referenciados, são sempre os mesmos em quase todos os artigos sobre o assunto: Portugal, Espanha, Grécia e Irlanda. Porque será?
A verdade é que se os políticos se afiguram uns incapazes e o povo não o percebe de outra forma, a intervenção externa no caso português poderá mesmo ser uma alternativa a que teremos de recorrer. A fuga em frente, de que este governo é perito, não é solução, mas tão só o adiar do problema. E quando o problema não pode ser adiado…

Apesar de a crise em Espanha ter atingido proporções astronómicas, não deixo de me espantar por ver os nossos vizinhos metidos no mesmo saco.
Por outro lado, é curioso registar como o tão propalado “exemplo a seguir” irlandês foi sonho que virou pesadelo…
Os quatro países em causa têm todos o mesmo problema: uma balança de transacções correntes largamente deficitária, ao que se junta uma cada vez maior dificuldade de acesso ao crédito, bem como aumento do custo deste (coisa que com a adesão ao Euro estes países assumiram que não se iria verificar). É por isso que a descida do rating português de crédito foi particularmente grave, apesar de desvalorizada pelo governo (coisa para a opinião pública ouvir).
Aliás, o que a Espanha atravessa agora não é muito diferente do que Portugal enfrentou logo no inicio do século (o período de expansão espanhol apenas durou mais do que o nosso sonho com a expansão guterrista, mas ambas as expansões foram altamente artificiais – o mercado depois trata de ajustar-se com os custos que se conhecessem).
Quanto ao caso irlandês, é certo que foi um sonho que virou pesadelo, mas convém ter em atenção que ainda falta muito para estes baixarem ao nosso nível. É muito diferente ter problemas com o nível de desenvolvimento irlandês, do que ter problemas com o nosso nível de desenvolvimento (se a Irlanda vive um pesadelo, o que dizer de Portugal?).
Muito bem, Jorge. Ou antes: muito mal.