No silêncio, entre cadáveres


Pedro Correia,

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Albert Camus escreveu um dos mais fabulosos textos que conheço para uma alocução proferida em Novembro de 1948, num encontro internacional de escritores.

 

Este texto, intitulado “O Testemunho da Liberdade”, tem uma espantosa actualidade perante os vertiginosos acontecimentos que se sucedem no mundo de hoje. É uma reflexão que devia constituir uma espécie de código de conduta para todos os intelectuais contemporâneos.

 

Passo a transcrever alguns trechos*:

 

«Os verdadeiros artistas não dão bons vencedores políticos, pois são incapazes de aceitar levianamente, ah, isso sei eu bem, a morte do adversário! Estão do lado da vida, não da morte. São os testemunhos da carne, não da lei. (…) No mundo da condenação à morte, que é o nosso, os artistas testemunham o que no homem é recusa de morrer. Inimigos de ninguém, a não ser dos carrascos! (…) Um dia virá em que todos o hão-de reconhecer e, respeitadores das nossas diferenças, os mais válidos de nós deixarão então de se dilacerar, como hoje o fazem. Hão-de reconhecer que a sua profunda vocação é a de defender até ao fim o direito dos seus adversários a não terem a mesma opinião que eles. Hão-de proclamar, consoante o seu estado, que mais vale uma pessoa enganar-se, sem assassinar ninguém e permitindo que os outros falem, do que ter razão no meio do silêncio e pilhas de cadáveres.»

 

Hoje, mais que nunca, estas palavras devem merecer-nos profunda meditação.

 

* Tradução (excelente) de Luiza Neto Jorge e Manuel João Gomes para a editora Contexto (2001)

8 comentários em “No silêncio, entre cadáveres”

  1. “Ter razão no meio do silêncio e pilhas de cadáveres”
    Esta passagem do precioso texto leva-me uma vez mais a citar Sun Tzu:
    “Se um comandante avança sem buscar a fama pessoal e retrocede
    sem se eximir da responsabilidade; se sua preocupação é proteger a
    população e a segurança das pessoas e promover os interesses do
    soberano, então, aí está um chefe que é tal qual uma pedra preciosa
    do Estado.”

  2. “Eu acredito na justiça, mas vou defender minha mãe antes da justiça.”

    Esta frase atribuída a Camus, que tem em contexto específico e é citada por vezes de forma diferente, (entre a justiça e minha mãe, eu escolho minha mãe) por exemplo, é uma bela e simples explicação do ser humano.

  3. todo o ditador tem sempre razão: os inimigos devem ser abatidos
    há múltiplas formas de morte entre nós existem os mortos-vivos ou mortos de fome
    neste momento existe quem tenha o poder somente pelo poder
    não vejo a mínima capacidade para criar riqueza
    se tivesse menos 70 anos ia fazer turismo

  4. Arrepiante! E muito verdadeiro também, para todo o homem são de espírito.
    Camus também tem uma frase que , quanto a mim, encaixa em Putin que nem uma luva: O homem não é nada em si mesmo. Não passa de uma probabilidade infinita. Mas ele é o responsável infinito dessa probabilidade.

  5. Quando chegar a hora do rescaldo vão faltar sacos para tanta gente meter as suas violas de vários modelos e feitios.

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