A miúda da limpeza, antes tão antipática, agora presenteia-me com um belo sorriso sempre que nos cruzamos no átrio do prédio. Também o porteiro mais sisudo dos cinco que aqui rodam por turnos já não me responde com um grunhido quando lhe dou os bons-dias. Sente-se no ar um certo sentimento de irmandade entre os que resistem ao confinamento doméstico.
Na semana passada, quando soou o alarme por incúria de um dos inquilinos e todos os que se encontravam no edifício tiveram de descer, é que percebi quantas pessoas permanecem aqui. Contei pouco mais de vinte, quando nesta torre de doze andares trabalhavam várias centenas, que por sua vez recebiam em consultas, ou reuniões outras tantas. Entre população fixa e flutuante, por cá circulavam milhares de pessoas por dia.
Agora a minha rotina é simples. Entro, desinfecto-me, instalo-me à secretária frente ao computador. Ao escritório não vai mais ninguém. Tenho os gabinetes todos para mim, por isso quando falo ao telefone aproveito para fazer footing. Do fundo do meu gabinete até à sala de reuniões são 26 passos. Do gabinete contíguo ao meu até à porta de entrada, são 15.
Ja comparei a vista que todos os gabinetes têm para a rua. Em boa verdade já o tinha feito assim que para aqui nos mudámos, há cerca de um ano. Mas agora sei exactamente quais são os melhores ângulos de cada janela para ver o que se passa no exterior.
É estranho voar à solta dentro desta gaiola, mas mais estranho será quando voltarmos ao normal e nos juntarmos. Possivelmente de máscara e com desinfectante à porta, como nos laboratórios. A analogia é apropriada, pois teremos muito que testar ao nível da gestão das distâncias e dos protocolos sanitários.
Eu, que sempre me queixei da mania tuga de espetar com dois beijos em quem não se conhece, assim que somos apresentados, dou comigo a antecipar a nostalgia do beijinho entre outras manifestações que me parecem já tão distantes no tempo.

O que é footing?
Caminhada. A expressão é mais usada no sentido de treino desportivo.
(1) Para que é que a Teresa se desinfeta quando entra, se está basicamente completamente sozinha no edifício?
Eu também o fazia ao princípio, mas agora já desisti. Acho que é um esbanjamento de álcool.
(2) A Teresa não tem medo de estar assim sozinha num edifício tão grande? Não receia que alguém se esconda algures para a assaltar?
As minhas mãos podem estar contaminadas quando venho da rua, por isso lavo-as assim que chego e desinfecto o telemóvel, que transporto dentro da mala, onde tenho o porta-moedas, que é uma possível fonte de contágio.
Esta torre de escritórios tem gente na portaria 24 h. É segura.
Imagine o que é o/a caixa de supermercado a desinfectar cada moeda e cada nota que recebe que, também, é uma possível fonte de contágio.
A vida não está fácil para ninguém.
Va
Nós ficar (quase) todos bem.
Errata:
“Vamos ficar (quase) todos bem.”
Também eu desconfio que a máscara e o desinfectante nos acompanharão durante muito tempo. Isto está para durar, desejemos que se mantenha estacionário, pois assim a vida regressará aos poucos ao normal. Mas só com máscara e desinfectante.
Pior que a máscara e o desinfectante será o receio instintivo de nos chegarmos ao outro e a inibição de nos manifestarmos de um modo mais caloroso quando a ocasião o justificar. Receio, Cristina, que isto vá deixar marcas fundas na forma como nos relacionamos socialmente. É triste.
Não creio.
Dentro de algumas semanas, calculo, o vírus estará reduzido à sua expressão mais simples. Os mídia deixarão de falar nele. As pessoas abandonarão o pânico irracional que nelas foi instilado.
Não faz qualquer sentido que pessoas de meia idade vivam no pânico de contrair uma doença que mata muitíssimo menos que outras causas muito corriqueiras de morte.
Bom texto — lembrei-me um bocadinho dos monólogos do Süskind
Obrigada 🙂
Existem pessoas que vivem numa bolha e este texto descreve isso muito bem.
WW
Footing?
Então, somos portugueses…
Vamos lá acabar com o squat, Abs, flexs e outras tangas importadas para dar fashion ao lifestyle.
Ficam os runners, que não chegam a corredores, com as suas fatiotas fluorescentes e auriculares.
Descobri há uns tempos que uns sujeitos que dizem que vão fazer treking para o Nepal querem dizer que vão andar à pata no Nepal. Coisa que já o meu avô fazia lá na aldeia. Só não sabia que fazia treking, ele pensava mesmo que estava a andar à pata.
https://en.wikipedia.org/wiki/Couch_surf ing
Muito mais in que “abancar no sofá”.
Adoro os runners, que acham que a invenção da corrida é mais ou menos contemporânea à chegada do facebook. Isso, e o “trail”.
Allgarve 4 ever.
Emoji de beringela, emoji a rezar
Para o anónimo das 20.59:
Touchée 😉
Não resisto a citar um texto de Joaquim Letria no blogue Sorumbático, dia 10 de Abril, com o título Poliglotas. Vão lá lê-lo.
É, Teresa, entre outras coisas somos um povo de incorrigíveis beijoqueiros. E damos pela falta quando algum nos tarda, já dizia o poeta.
Pois, Sérgio, só damos valor ao que perdemos 😉
Permito-me perguntar porque vai a Teresa fazer telefonemas e trabalhar ao computador nessa torre, sozinha, quando poderia ficar a fazer isso em casa. O seu patrão força-a a ir para a torre? Como controla ele que a Teresa lá está? Porque não permite ele que a Teresa teletrabalhe?
Ou é porque a Teresa não gosta de, ou não tem condições para, trabalhar em casa?
A minha patroa é fixe, não me obriga a nada. Tenho possibilidade de trabalhar em casa, mas só às vezes, porque há programas (de edição e paginação, por exemplo), a que só consigo aceder no escritório.
Na verdade não tenho de vir todos os dias, passei a fazê-lo por opção. Sem as distrações domésticas, inevitáveis, concentro-me melhor.
Eu acho que nunca mais seremos as mesmas pessoas depois da pandemia do coronavírus passar,acho que andaremos sempre com medo de um novo surto aparecer ou surgir,pelo menos,é o que eu penso sobre o assunto!!