Nem pensar


Pedro Correia,

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Li há dias, no editorial de um jornal muito influente, em prosa assinada pelo respectivo director, que um óbvio substantivo é afinal… um adjectivo. Vinha logo na primeira frase.

Isto sem qualquer sombra de ironia da parte do articulista.

 

Quando se chega a este ponto, quase tudo se torna possível.

 

Mas não só no jornalismo (mea culpa, quanto à profissão que exerço) a iliteracia galopante é cada vez mais notória.

Reparo que muitos escritores consagrados cometem erros de palmatória. Alguns fariam corar pessoas comuns, com o diploma da quarta classe antiga. E validados por prestigiadas editoras nacionais.

 

Lamento escrever isto, mas é verdade.

Cada vez estou mais convencido de que estes assuntos devem ser debatidos na praça pública, sem tabus nem “respeitinho”. Doa a quem doer.

Aliás vamos respeitar o quê? O analfabetismo pintado de sabedoria?

Nem pensar.

54 comentários em “Nem pensar”

  1. “O analfabetismo pintado de sabedoria?”

    É preciso é bons pintores que saibam ser analfabetos disfarçados de sábios.

  2. Voltámos ao assunto, infelizmente, e é mesmo preciso. A coisa está de tal maneira que já temos medo de falar e escrever correctamente… já temos vergonha de corrigir quem fala com erros crassos… Isto para além de já termos que lutar contra um computador que, ao contrário do dono, aderiu ao AO. Quanto ao resto, faz lembrar a célebre anedota atribuída a Américo Thomaz: “Só tenho um adjectivo: gostei”.

  3. Quando temos um PM que não sabe falar e uma ministra da “coltura” como a actual está tudo adjectivado

    Pedro Cunha

  4. Infelizmente isto é apenas o resultado de um problema cujo enunciado agora toda a gente diz desconhecer.
    Tal como em Odemira toda a gente ficou indignada com o cerco sanitário, mas parece que o verdadeiro problema de Odemira já era conhecido há vários anos.
    Se não fosse o cerco sanitário, alguma vez, alguém iria tentar resolver o problema em Odemira?
    Com a iliteracia acontece exactamente o mesmo.
    Programas escolares desadequados, formação cívica nula, e muita, muita corrupção.
    Talvez quando se fizer um cerco sanitário às bibliotecas o problema da iliteracia seja resolvido.

      1. Nada, apenas serviu como exemplo português típico de resolução de problemas.
        Nós nunca agimos, reagimos, e esse foi sempre o nosso mal.
        Com a iliteracia é o mesmo. Ficamos incomodados com os pontapés na gramática, resolvemos um pequeno problema aqui, um pequeno problema ali, mas nunca conseguimos resolver o problema de fundo.
        Tem de haver, tal como em Odemira, algo que provoque um abanão, para que as pessoas se apercebam da verdadeira dimensão do problema.

          1. Tá bem pronto, eu não falo mais em Odemira.
            Então como é que explica que um director de jornal sofra de iliteracia e que esse problema se esteja a alastrar a todos os sectores de actividade incluindo as novas gerações?

          2. Tá bem, isso é um facto, e agora?
            Metemos a cabeça na areia, e não tentamos ver o porquê?
            Ou é melhor continuar a criação de burros e tentar apurar a raça?

          3. Não me diga que o problema de Odemira é o covid? E também não me diga que o problema da iliteracia é o facto de promoverem os burros?
            Se for isso diga que eu vou embora pra Pasárgada.

          4. Pois, desvie a conversa. O problema da iliteracia é a promoção dos burros.
            Os burros que temos não foram criados cá, vieram de Marte.
            A ração que lhes deram na infância não conta para o seu desenvolvimento. Foram todos criados com palha de primeira qualidade.
            Interessa é dizer mal, são todos uma cambada de analfabetos e o meio envolvente e a sociedade não tiveram culpa de nada.
            Soluções? Não há, a malta diz que o gajo é burro e pronto tá resolvido o problema.

          5. Outros, como você, preferem que não se nomeie o burro nem a burrice.
            Fica tudo a zurrar em total impunidade.
            Na melhor das hipóteses, o culpado será o D. Fuas Roupinho.

            (Caramba, tanto comentário desperdiçado sem escrever nada de jeito…)

          6. Para si não tem interesse saber porque é que o Manuel é analfabeto, tem mais interesse é em chamar burro ao Manuel.
            São pontos de vista, respeito.

  5. A propósito da iliteracia e de quão mal se escreve hoje em dia, nem há cinco minutos li no DN o seguinte título ” Polícia e 14 mortos em tiroteio no Rio de Janeiro”. Tentando abster-me da desgraça humanitária e vendo isto só de um ponto de vista linguístico, alguém me pode explicar se são 14 já com o polícia? Afinal são 15? Ou no fim foi o polícia que matou os 14?
    A minha vida são só dúvidas!
    Inês

  6. A propósito, li há dias – penso que na página do Henrique Monteiro, no Expresso – que há uma universidade inglesa que vai começar a aceitar, ou já está a aceitar, erros gramaticais nos trabalhos apresentados pelos alunos. Não me lembro agora com exatidão qual é o argumento mas penso que anda à volta da ideia de que a ortografia, tal como está consagrada, não passa de uma imposição ditatorial por parte do homem branco; creio que é mais ou menos isto.

    Cumprimentos

  7. Inês Pereira, se não fosse trágico, seria para rir a frase, pois também se pode “ler” que foram os 14 mortos que andaram aos tiros, juntamente com o polícia. Repare que, uma vez que o verbo está subentendido, posso optar entre “ser” e “estar”:
    Polícia e 14 “foram” mortos em tiroteio / Polícia e 14 mortos “estavam” em tiroteio. É surrealista, bem sei, mas a 2ª hipótese é a mais plausível gramaticalmente. Semanticamente só um Ionesco, admito…

  8. A obra donde sacou tais emergências fora publicada depois de 68?
    Então benefeciou da revolução libertadora do Maio de 68 em Paris da França.
    A proibição de proibir aplicava-se às regras gramaticais. O acordo otográfico foi o dealbar da maior trasformação expressiva,quer nos editoriais queira nas obras primas.
    Os vetustos autores outrora apertados pelas reguadas e pelas negas nos exercícios aproveitaram os ares frescos.Obras ao vento.Bananas ao vento,cantava o do tropicalismo.
    Colhamos,este som, os benefecios.

      1. O seu texto reenviava também para “escritores consagrados” com a respectiva ligação.
        Talvez o erro seja meu e tivesse entendido mal a publicação anterior.Se assim foi então devo louvar tal “consagração” de autores e obras por si sublinhados?
        Qual seja o seu entendimento tal não prejudica o gosto que tenho em o ler.

        1. Esse meu texto que menciono em ligação, como contributo para o debate, alude a um romance português escrito antes do Maio de 68, embora publicado em 1969.
          O Maio de 68, se me permite, explica muito pouco da época actual – em grande parte remando até em direcção oposta. Começa logo pela qualidade literária de muitas das palavras de ordem dessa revolução parisiense, que começou nos bancos universitários. Podia ser acusada de muita coisa, mas não de iliteracia ou de proto-analfabetismo.

  9. Como não sei o que é um adjetivo, abstenho-me de comentar.

    Vão por mim, ainda vamos regressar ao tempo da linguagem por símbolos.
    Emoji triste, emoji pensativo, emoji beringela, emoji triste

  10. à la Correio da Manhã:
    “Entre as 17 vítimas, um bebé, que ainda era criança!”

    E mais não digo

    Leão do Fundão

  11. Eu colocaria a hipótese de o autor ter querido usar uma outra palavra e ter acabado por baralhar-se, um pouco ao estilo do nosso querido Jorge Jesus.
    Porque, seja com “adjectivo” seja com “substantivo”, a frase não faz grande sentido. Quem é que tem medo de um adjectivo/substantivo?…
    Já andei a experimentar com parónimos e afins, mas ainda não encontrei um vocábulo que consubstancie a minha suspeita. Todavia, ela mantém-se.

  12. Calma também não é preciso esconjurar o homem. Ele se calhar estava a referir-se a um substantivo adjectivado ou a um adjectivo substantivado. Como era um editorial se calhar estava a escrever só para meia dúzia de pintores.

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