Negar o negacionismo


Pedro Correia,

_110668777_gettyimages-89277106-1.jpg

Sobreviventes de Auschwitz, um dos campos da morte nazis

 

Uma das características do nosso tempo é a contínua deturpação ou imprecisão da linguagem. Tenho pensado nisto a propósito da vulgarização da palavra negacionista. Abrangendo desde aqueles que classificam de mera epidemia os efeitos globais do novo coronavírus até aos que exprimem sérias dúvidas sobre as reiteradas restrições aos direitos, liberdades e garantias como os que experimentamos desde há um ano em Portugal, onde ontem o estado de emergência voltou a ser alargado, desta vez até 15 de Abril. Abrangendo desde aqueles que, por questão de princípio, recusam as vacinas até aos que advogam o direito de resistência – previsto na Constituição da Repúlica – a medidas tão diversas como o uso obrigatório de máscaras na via pública, a circulação entre concelhos vizinhos com índices de transmissão do vírus abaixo dos padrões de risco ou até a prática de pesca desportiva, que deve ser uma das actividades mais solitárias do mundo, como ontem lembrava José Gomes Ferreira na SIC.

 

Todos quantos fogem ao padrão dominante são hoje “negacionistas”. O termo banalizou-se de tal maneira – e eu próprio, mea culpa, também já o utilizei aqui – que acaba por perverter o seu significado original, até no plano jurídico: o daqueles que negam expressamente o Holocausto, provocado pela barbárie nazi ou qualquer outro extermínio sistemático de populações inteiras. Por declarações negacionistas, Jean Marie Le Pen – pai de Marine Le Pen – foi condenado há cinco anos num tribunal de Paris. A negação do genocídio cometido pelo regime nacional-socialista está proibida na Alemanha, implicando sanções penais até aos cinco anos de prisão

Por cá, qualquer um é hoje apontado como “negacionista”, até em títulos de jornal, por contestar a «existência de um facto documentado» ou propor «interpretações não fundamentadas de fenómenos históricos já estudados», como assinala o impreciso dicionário da Porto Editora, sempre pronto a acolher a última moda lexical.

A desconfiguração do significado genuíno da palavra produz um péssimo efeito: a proliferação de “negacionistas”, conduzindo à negação do negacionismo. 

 

Por casualidade, ando a ler um excelente livro da escritora romeno-germânica Herta Müller, galardoada em 2009 com o Nobel da Literatura. Recorda ela, nestas páginas d’O Rei Faz Vénia e Mata (Texto Editora, 2011), que muitos presos políticos na Roménia de Ceausescu eram executados pela sinistra Securitate e atirados ao rio em simulação de afogamento. Em conversa com um amigo estrangeiro, já no exílio, ele questionou, aludindo ao idioma romeno: «Mas que língua é essa que nem tem uma palavra para cadáver de pessoa afogada?»

É este também o tempo de inventarmos novas palavras para novas situações. E de recusarmos com firmeza a perversão de outras, desviando-as do seu sentido original.

46 comentários em “Negar o negacionismo”

  1. Excelente post.
    Os sobreviventes de Auschwitz na fotografia estão com bom aspeto, alguns deles gordinhos, sorridentes e altivos. Não foi certamente neste estado que foram encontrados em Auschwitz. A fotografia deve ter sido montada muito mais tarde.

    1. Quando chegaram os soviéticos não era este o estado das pessoas. Mesmo a foto das mulheres nos beliches foi feita com prisioneiros de outros campos.
      Isabel

  2. Concordo inteiramente consigo.
    Só utilizo a palavra negacionista para me referir aos que negam o holocausto.\
    Já me têm chamado negacionista a propósito das alterações climáticas, não porque eu as negue mas porque costumo exprimir uma opinião que não coincide com a geralmente aceite ou porque mostrei pouca simpatia com Greta Thonberg. Quando utilizam aquela palavra em relação á minha pessoa apetrece-me sempre dar uma resposta que não transcrevo aqui porque não gosto de escrever palavras feias num blogue. Mas que merecem uma resposta ordinária, lá isso merecem.

  3. ontem o estado de emergência voltou a ser alargado

    Vale a pena referir que atualmente a epidemia está em Portugal no mesmo estado, em número médio de novos casos diário, que a 10 de setembro de 2020, altura em que todos íamos felizes à praia e o país estava quase totalmente descontraído e livre.

    Isto mostra como os atuais Governo e Presidente da República estão completamente enlouquecidos pelo medo, incapazes de ver a situação real do país, obcecados com medos completamente irracionais de uma situação passada que não regressará. Em vez de agirem em função da situação real e objetiva da país, atuam regidos pelo medo.

    São sem dúvida o pior Governo e o pior Presidente da República que Portuhal já teve desde o PREC.

    1. Estamos a falar de menos de 10 mortes por dia num país com 10 milhões de habitantes.
      É a insanidade total e completa.

    2. “São sem dúvida o pior Governo e o pior Presidente da República que Portuhal já teve desde o PREC.”

      O problema é que a cultura socializante criada pelo jornalismo está formatada para qualquer um dos anteriores se ter comportado da mesma maneira.

  4. 1. O problema está no «código» que usamos para descrever e comunicar o Real.
    2. O problema está na insuficiência e no erro que a Linguagem nos obriga a cometer.
    3. Está nessa sua incompetência em conseguir que o “nome” seja “a coisa nomeada”.
    4. Uma coisa é a “vida vivida”, outra a “vida experienciada”, e outra a “vida narrada, dita”. Para duas Pessoas diferentes, o mesmo facto-fenómeno provoca essas três diferenças.
    5. Um problema que já tinha referido, aqui no Delito de Opinião, a propósito dos “chavões” no Post “Dez anos sem Artur Agostinho, Pedro Correia, 23.03.2021”.
    6. A linguagem (juntamente com a língua e a fala) são a razão que nos conduzem à ambiguidade, à auto-referência, ao relativismo, e à crítica que Pedro Correia faz neste Post.
    7. Só através de um «código» melhor, do que aquele que a linguagem é actualmente, poderemos ultrapassar essa lacuna.
    8. Foi para isso que foi criado o método, que o acrónimo SAP2ii designou por “Impronuncialismo”. E foi esse método que introduziu uma nova definição heptadimensional de coisa/objeto/realidade, que ajuda a ultrapassar o problema que Pedro Correia refere neste Post.

    1. ” introduziu uma nova definição heptadimensional de coisa/objeto/realidade”
      Eu próprio já introduzi uma coisa parecida mas com uma diferença: é octodimensional. Isso torna-a muito mais eficiente.

        1. Senhor SAP2!!
          Admira-se? Pois estou a trabalhar na versão octodimensional mas esta apresenta dificuldades que até agora não consegui ultrapassar. Penso, apesar disso, que estou no bom caminho. Se o Senhor ficou satisfeito e parou com a hepta é lá consigo.

  5. Há é uma grande confusão entre negacionismo e cepticismo.
    Neste momento não há interesse em esclarecer, em especificar, em esmiuçar, nada, a ordem vigente é para confundir, baralhar, insinuar, acusar,em suma, o objectivo é simplesmente para desviar as atenções.
    Conseguem através do medo paralisar qualquer reacção do povo, conseguem através do caos aprovar leis que em condições normais não passariam, e conseguem através da chantagem moral modificar comportamentos.
    É a manipulação de massas em todo o seu esplendor.
    Não nego que haja uma pandemia, o que eu nego são estas medidas absurdas de contenção que provocam mais danos do que o próprio vírus.
    Com tanta polémica há uma pergunta que me atormenta. Será que se fosse hoje o Galileu também era considerado negacionista?

    1. Leis como a proibição de os portugueses atravessarem concelhos durante a próxima semana, mas os estrangeiros o poderem fazer?
      Credo, como somos mansos. Somos um povo que ansiava por uma nova ditadura.

      1. Eu não creio que isso seja assim. Qualquer pessoa (portuguesa ou estrangeira) pode atravessar fronteiras concelhias para se deslocar para um hotel no qual tenha reservado estadia. Uma vez lá chegada, qualquer pessoa (portuguesa ou estrangeira) não pode atravessar concelhos, a não ser para ir trabalhar.
        Creio que é essa a norma que vigora.

      2. A maior aberração é incluírem os Açores e a Madeira para a determinação do (Rt) e com isso justificarem o confinamento no Continente. Não só é ridículo como é insultuoso ao fazerem os portugueses parvos.

  6. A frase do J.G.Ferreira, não é totalmente verdade. Antes da pandemia,no Parque das Nações,era ver grupos de pescadores em amena cavaqueira.

  7. Estrangeiros, emigrantes ou residentes na Madeira e nos Açores poderão, no período da Páscoa, circular entre concelhos no continente português para se deslocarem a hotéis ou estabelecimentos de alojamento local onde tenham feito reserva, mas esta regra não se aplica aos portugueses com residência no território nacional.

    Começo a ficar farto desta palhaçada. Não deve haver país nenhum na Europa com estas medidas draconianas desde janeiro. Prometeram ser mais lestos nos contactos estabelecidos entre os doentes/infectados e as outras pessoas de modo a controlar precocemente as cadeias de transmissão. Não vejo nada disso. Este Estado de Emergência sine die é próprio de países, governos que:
    1- não têm a menor ideia do que estão a fazer
    2- de países sem estruturas ou serviços públicos à altura
    3- 1+2
    4- não há quatro

  8. Vale a pena notar que o negacionismo em Portugal já não é somente uma palavra feia com que se acusa os outros, ele é também motivo para saneamentos políticos, ao estilo do que se fazia no PREC ou no tempo do fascismo.
    A Ordem dos Médicos (que é dominada pelo PSD e insuspeita de simpatia pelo Governo) impediu uma médica de exercer a sua profissão por ela ser negacionista. E, hoje, um juiz foi impedido pelo Conselho Superior da Magistratura de exercer a profissão dele, também por negacionismo.
    É muito triste o estado semi-ditatorial em que o país se encontra.

    1. “E, hoje, um juiz foi impedido pelo Conselho Superior da Magistratura de exercer a profissão dele, também por negacionismo.”
      Segundo li, ele queria que nas audiências as pessoas tirassem a máscara. Isso é ilegal e é espantoso que venha de um Juiz. Além de ser ilegal põe em risco a saúde dos outros. Quanto à médica, a situação é semelhante. Uma médica não pode pôr em risco daquela maneira a saúde dos outros.

      1. Então e o presidente não pôs em risco a saúde do Papa quando esteve ao pé dele sem máscara?
        E também não pôs em risco a saúde dos outros quando andou a viajar, com os portugueses obrigados a ficar em casa?
        Ou será que as medidas de contenção são só para os totós?

      2. Se o juiz queria que nas audiências as pessoas tirassem a máscara, estava efetivamente (creio eu) a cometer uma ilegalidade. Que tal ilegalidade possa ser motivo para a sua suspensão, já não me parece.
        Quanto à médica: divulgar opiniões não põe em perigo a saúde dos outros.

      3. “Uma médica não pode pôr em risco daquela maneira a saúde dos outros. “
        Só pode estar a gozar. As máscaras afinal já não dão uma falsa sensação de segurança?
        E não sabe que os médicos têm diversas opiniões sobre os mais variados actos médicos?

      4. Resposta a J. 26.03.2021
        Em julgamento o juiz tem valorizar cada testemunha pelo que diz e como o diz, podendo a expressão facial ser um factor decisivo . Isso não é possível com máscaras.
        Há que avaliar coisas diferentes. Se o juiz ordenou que a testemunha e/ou o advogado tirassem a máscara; se ordenou (não parece ter sido o caso) ou permitiu que todos os presentes que quisessem tirassem a máscara (parece que foi o caso) e se ele juiz faz todos os julgamentos sem máscara.
        Por outro lado, um dos resquícios do salazarismo é o respeito pelas autoridades que se implantou fortemente quando o Estado era pessoa de bem. Mas eu pergunto: o Conselho Superior da Magistratura não foi a desculpa da Van Dunen para a escolha do procurador europeu? Qual a legitimidade de um CSM que aceita julgamentos com testemunhas com máscara sabendo que isso limita a capacidade de apreciação do juiz?
        As limitações e supressões de direitos individuais que já valeram a Portugal a descida de ranking no Economist com a actual classificação de “democracia com falhas”, não poderão ser questionadas e até justificarem o exercício do Direito à Revolta?
        Mesmo os Estados de Emergência claramente previstos para situações intensas mas de curta duração, prevalecem sobre todos os direitos individuais de deslocação, de reunião, etc. sem limite de tempo (vamos no 14º!)?
        E será que um decreto governamental ou, se calhar, nem isso pode estabelecer regras a cumprir dentro de um tribunal onde o juiz é um orgão de soberania tal como o governo?
        Pois, crucifiquem o juiz, mas não se admirem do que por aí pode vir.

  9. Eu nunca percebi bem o que se entendia por negacionista no contexto da pandemia. Até porque não há nada nesta epidemia que seja “um facto documentado”. Penso que seria apenas mais uma forma de tentar desvalorizar o pensamento dos outros. Como chamar fascista a qualquer pessoa não socialista. E digo-lhe, que muito me surpreendeu o Pedro usar esse termo no início. Ainda bem que já se deixou disso.

  10. É muito pior do que o texto aventa.
    Chamar “negacionista” é já testemunho de uma cultura totalitária.
    É o caminho para a seguir começarem as penalizações a “dissidentes” e “contra-revolucionários”.

  11. Boa noite ,
    Caro Pedro Correia , vai-me desculpar a linguagem , mas estamos fodidos.
    O que foi dito ontem no Eixo do Mal , sobre as pessoas que participaram na manifestação em Lisboa contra o confinamento , foi aterrador .
    Luis Almeida

  12. O totalitarismo supremacista cultural esquerdalho deu nisto: toda a gente pensa e age como um esquerdalho, ainda que nem se dê conta. Estão, de forma literal, mentecaptos.

    E como é totalitarismo, nenhum aspecto da vida social ou individual está a salvo.

    A.Vieira

  13. “Negacionismo” é acreditar que a evidência é evidente.
    “Negacionismo” é acreditar no que as fotos mostram.
    “Negacionismo” é acreditar no que as palavras dizem.
    “Negacionismo” é a alucinação da certeza.
    “Negacionismo” é a fé na verdade.

  14. Não nego absolutamente nada. As vacinas existem, incluindo as que dizem ser para o bichinho. Se são para o bichinho, dêem-lhe a vacina. Eu não consentirei em mim.
    Não nego a pandemia, mas recuso-me a seguir certas normas, incluindo o uso de máscara na rua, desde que não me associe a grupos. Continuo a dar abraços e a cumprimentar, e desinfecto as mãos antes e depois de cada aperto.
    Não nego os holocaustos, porque eles continuam a existir. Estes não são produto somente do nazismo. E não nego que existe um holocausto em Portugal pela inépcia governamental nos serviços de saúde: uns morrem por falta de assistência em tempo útil e outros ficam com danos irreversíveis.
    Mas nego o estado-de-emergência, porque estado de emergência e de sítio implicaria outras regras que não as que vigoram.
    Se me for permitida uma linguagem bizantina, aqui vai: puta que os pariu.

    1. De facto, a ignomínia (“negacionismo”) é a que cometemos ao dizermos: «Foram os outros!».
      O “negacionismo” é fingirmos que há um “Outro”.
      Que o holocausto foram os outros que o fizeram, aqueles a quem chamamos “nazis”.
      Como se não tivéssemos sido «Nós», os Humanos.

  15. A palavra negacionista está a ser inteligentemente usada para promover uma caça às bruxas.
    Veremos o resultado dentre de anos.
    A palavra posiciona-se para separar nós e eles.
    O passado prova que quando chegamos ao ponto de ter apenas preto e branco, nós e eles, estamos a caminho de uma ditadura.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *