Natal é mesmo quando um homem não quer


Teresa Ribeiro,

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Como faço anos em Novembro, desde há muito que acolho os primeiros sinais de Natal com rancor. Durante a infância aquele era o meu mês e só a seguir vinha o estrilho natalício, que arrancava pontualmente a 1 de Dezembro.

Apesar da pressão consumista me ter apanhado já crescida, senti este acelerar de calendário como uma invasão de território, pois se há coisas que queremos bem preservadas são as que estabelecemos na infância. Esta troca de fusos só agravou o desencanto que fatalmente fui sentindo à medida que deixava a meninice para trás.

A magia do Natal perde-se junto com a inocência (perdi-a quando cacei os meus pais a esconderem os presentes na despensa). Perdi-a, mas quis que ela continuasse, ao menos a fingir, e por isso afastei-me pé ante pé para que não me apanhassem a espiar a realidade por uma fresta.

Só voltei a delirar com o Natal quando tive filhos. Não hesitei em atulhá-los de fantasia. Sabia que um dia, tal como eu, se desiludiriam, mas enquanto dura é tão bom!

É tão bom que hoje, já sem crianças na família de olhitos a cintilar e sem os crescidos da minha infância de volta de mim, dou comigo a fingir que detesto o Natal. A queixar-me da pressão consumista, da despesa, do trabalho, do trânsito, enquanto lá longe, onde os meus demónios perderam as botas, vibram ainda cordas antigas a propósito de nada. De uma canção natalícia que ouço de passagem e fico a trautear, do espectáculo de gente atarefada a passar cheia de embrulhos, das ruas iluminadas. São voos breves, mas de que regresso sempre com um embrulho que aproveito para deixar no meu sapatinho. 

7 comentários em “Natal é mesmo quando um homem não quer”

  1. compreendo este seu texto tão bem Teresa, porque parece algo que eu seria capaz de escrever. Aquela que diz que no Natal não se comemora nada a não ser pertencer, ter laços, fazermos parte de algo a que chamamos família, que é contra o consumismo exagerado e o pratica moderadamente, a mesma que bufa com falta de tempo para decorar, para cozinhar, por trabalhar, correr, stressar… É a mesma que chora copiosamente a um acorde ou um aroma que lhe façam vibrar a corda sempre tão tensa das recordações felizes.
    Obrigada Teresa, adorei ler.
    Festas Felizes e um grande beijinho.

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