Não precisava de ser “formatado”


Pedro Correia,

 

Escutem com atenção os 23 minutos iniciais do frente-a-frente que opôs Freitas do Amaral a Mário Soares na primeira volta das presidenciais de 1986. Qualquer deles precisava de derrotar o outro neste debate antes de o conseguir nas urnas, por intervenção dos eleitores. Soares, com o seu conhecido instinto político, acertou na estratégia: atirou-se – metaforicamente falando – à jugular do opositor logo na sua primeira intervenção. Oitenta segundos depois, Freitas já estava encostado às cordas. Com uma frase demolidora do adversário: “Eu não tenho dúvidas em reconhecer que o Dr. Freitas do Amaral é democrata, embora não tenha feito nada pela democracia.”

Não precisou de estar “formatado” – como agora se diz – por nenhum especialista em comunicação política. Bastou-lhe ser ele próprio. Consciente, como poucos, que nenhuma guerra se ganha sem travar batalhas.

Andam agora aí uns meninos cheios de pós-graduações académicas a pretender ensinar aos políticos como devem comportar-se em confrontos televisivos. Eu se fosse a eles mostrava-lhes este vídeo. Não pode haver melhor aula prática.

0 comentários em “Não precisava de ser “formatado””

  1. Bom dia. Tem razão, creio eu, particularmente quanto à “tralha” que por aí se acotovela. Cumprimentos.
    António Cabral

  2. Pedro, poderei ser injusto com o que vou dizer mas não fosse Sá Carneiro ter morrido prematuramente e daquela forma e não teria ficado para a história como um paladino da democracia portuguesa, ao lado de Mário Soares. Impressiona – me pela coragem todos os advogados portugueses que defenderam presos políticos, durante a ditadura, como Soares, Salgado Zenha, Jorge Sampaio, e muitos outros. Mas há um nome que nunca apareceu. O de Sá Carneiro. Sá Carneiro não será mais um mito que realidade quando se fala nas figuras fulcrais de oposição ao regime do Estado Novo? Sá Carneiro também não tinha a agudeza de espírito de Soares, basta recordar a sua tentativa de ilegalização do PCP, precisamente o que os comunistas pretendiam, pois pelas urnas os comunistas nunca chegariam ao poder, apenas pela luta armada. Se ilegalizados os comunistas teriam constituído decerto grupos armados do tipo ARA e dificilmente os pós 25 Novembro teria sido um mar de rosas

    1. Populista, Mário Soares? O mais antipopulista dos políticos portugueses, que navegou contra a corrente dominante e as sondagens e as “tendências” expressas nas manchetes da véspera.
      Se fosse populista tinha firmado a “Frente Popular” com o PCP em 1974. E teria abraçado o Conselho da Revolução em 1975. E teria permanecido no V Governo do Vasco Gonçalves. E teria recusado formar um governo minoritário em 1976. E jamais teria feito a coligação com o CDS em 1977. E não teria pedido a adesão à CEE quando por cá estava na moda o “terceiro-mundismo”.
      Etc, etc.

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