Não citarás Beauvoir em vão


Rui Rocha,

Cécile Kyenge, ministra italiana da Imigração, tem sido alvo dos actos mais abjectos. Há dias, Roberto Calderoli, vice-presidente do Senado, chamou-lhe orangotango. Na passada sexta-feira, atiraram-lhe bananas. Estes actos definem, naturalmente, apenas e só quem os pratica. A barbárie vem à superfície, desta vez, por Cécile Kyenge ser negra. A ministra da Integração poderia ter respondido, por exemplo, citando Simone de Beauvoir: não podemos deixar que os nossos carrascos nos criem maus hábitos. Poderia e teria razão para isso. Todavia, Cécile Kyenge preferiu outro caminho. A citação seria um mero recurso retórico. Cécile meteu o discurso na realidade: com tantas pessoas a morrer de fome por causa da crise é triste desperdiçar comida assim. O sentido democrático e a maturidade cívica também são isto. O desapego de si, da sua posição formal como ministra e a sensibilidade que permite pensar em terceiros mesmo sob fogo cerrado. Acossada, não se defendeu a si própria, mas remeteu para o sofrimento de outros, ridicularizando assim, ainda mais, o gesto obsceno dos que a pretendiam ofender. Na resposta, Cécile foi simplesmente Cécile. Trata-se, obviamente, de uma chapada de luva negra que estalou na face dos energúmenos. Mas é, também, um exemplo para quem, a uns milhares de quilómetros de distância, ainda há umas poucas semanas, com altivez, desvio corporativo e insuflado sentido da própria honra, citou Beauvoir para chamar carrascos, de forma absolutamente desproporcionada, aos cidadãos que se manifestaram nas galerias da casa que se diz ser a da nossa democracia.

18 comentários em “Não citarás Beauvoir em vão”

  1. Infelizmente, mermão, estes actos ditos de intolerância simplesmente revelam-nos que há algo no ser humano que tem momentos próprios para se revelar. E estamos, por muito que se tente eludir, a atravessar um desses momentos que nos revelará as trevas que ainda habita o homem. Isto aplica-se a todos os homens de todas as raças e credos. Nem a dita “evolução”, “educação” e “cultura” são suficientes para branquear esta outra natureza; É necessário algo mais.
    Alterando a ordem da afirmação das “Simones”, também eu digo: não podemos deixar que o carrasco que nos habita continue com os maus hábitos.
    Preparemo-nos, porque o que por aí já anda, e desde há muito, só com gente firme será contrariado.
    Mas deixe-me dizer-lhe que há muitas formas de racismo: Há também racismo social, cultural, judicial etc. etc. etc. O preconceito é algo transversal a todos, e ninguém se sinta diferente só porque o seu racismo é diferente do vizinho.

  2. Desculpe que lhe diga, Rui Rocha, mas não concordo com a sua interpretação das palavras da Assunção Esteves. Mais, parecer-me-ia impossível houvesse que alguém capaz de interceptar tão acertadamente o desabafo da ministra italiana, com a qual concordo inteiramente, viesse dizer que a nossa presidente da Assembleia da República chamou “carrascos” àqueles autênticos arruaceiros, capitaneados por sindicalistas que não deveriam ter tais comportamentos, mais próprios de extremistas.
    Será que o Rui Rocha não sabe o que é uma metáfora?

  3. Os energúmenos que atiraram bananas à ministra fizeram-no pelo simples facto de ela ser negra. Os que se manifestaram nas galerias da assembleia, cumpriam a agenda de um partido com assento nessa mesma assembleia, logo posso inferir que se manifestaram pelo simples facto de a presidente da assembleia ser de um partido diferente do deles. É aquilo que se chama racismo político.

  4. Entendi… e peço desculpa:

    O postista: O Grande Chefe Rocky Sioux, aproveitou a deixa para atacar a chefona da tribo dos Caras Laranja!

    Malandrote!

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