
Neste corropio que é o hoje duas ideias são constantes: que o que acontece é novidade (ao que se junta a atribuição de “genialidade” à aparente inovação); que o que acontece é um anúncio escatológico. Não sou especialista mas sempre me parecem frutos da influência bíblica. O antropólogo David Graeber afirma este amarelismo francês como um movimento social sucedâneo dos “ocupas” americanos – o tal princípio – e diagnostica que lhe é própria a desnecessidade de uma teoria, que acção e teoria lhe(s) são conjuntas. E que aos intelectuais, assim desapossados do seu estatuto “orgânico”, lhes cumpre menos falar e muito escutar.
Enfim, talvez seja. Mas Steiner escreveu um dia que “já não temos inícios“. E, por outro lado, a descrença no Apocalipse vem-se espalhando, pelo menos numa Europa relativamente livre dos evangelistas que se incrustaram no poder nos EUA e Brasil, e dos coranistas que pululam nas suas vizinhanças.
Talvez por isso me lembre do Buzinão, em 1994. Quando, inopinadamente, por iniciativa de alguns camionistas, tudo trancou no acesso a Lisboa, e a revolta da população veio ao de cima, potenciada por uma década do poder de Cavaco Silva. Sem ser preciso sms (nem sei se na altura havia telemóveis no país) ou similares formas de convocatória. O país cruzara uma década de enormes transformações, a redução da população no sector primário tinha sido gigantesca, enorme o incremento das condições de saúde e de educação, etc., coisas da entrada na CEE. Mas talvez ainda maior tivesse sido o crescimento das expectativas iludidas. Sabe-se o que aconteceu, de seguida o PSD foi derrotado. Tal como Cavaco Silva nas presidenciais e a sua carreira política terminou para sempre. Ou, pelo menos, assim se disse.
Mas o que me é relevante é a memória de um brilhante texto de Pacheco Pereira, uma crónica num diário lisboeta – eu julgo que está publicado no seu livro “O Nome e a Coisa”, mas não tenho comigo os meus livros; e googlei mas não encontro nem o texto nem qualquer referência – sobre a vida de um casal na Outra Banda, uma imensamente feliz forma de tentar consciencializar políticos e comunicadores da Boa Banda do “estado da arte” populacional. Para que pudessem entender, pelo menos alguns deles, parcelas do país que geriam e que desconheciam (e desprezariam, muitos deles com toda a certeza).
Não me vou meter a perorar sobre o conteúdo sociológico ou ideológico do Buzinão de 1994. Mas lembro-me do acontecimento por três coisas: talvez tudo isto não seja assim tão novidade, uma importação “born in USA”, tão dependente de novas formas de entendimento da política, tão “movimento social”. Que talvez o mundo, como o pensamos e sentimos, talvez não vá acabar, se calhar até ao fim do ano. E que sim, que são os “intelectuais” – mas muito dificilmente os avençados da Boa Banda – que podem falar, mostrando a opacidade que a partidocracia cria em seu torno, para se reproduzir. Assim fenecendo.
E nada disto leva a concluir que as reclamações/propostas (essa amálgama teoria/prática que o conhecido antropólogo propõe como frutífera) destes “movimentos sociais” sejam “justas”. De facto, como mostrou a história portuguesa, muitas vezes são apenas uns dealers a protestar com a redução dos lucros mensais. E, em geral, são apenas um gritado, ululado, (…)Não. E de Nãos está o inferno a abarrotar.
Falta pensar. Estrategicamente. Este é um bom contributo.

O Apocalipse, Revelação, já há muito foi feita. O que agora ocorre são revelaçõezinhas a trás de revalaçõezinhas até mesmo para indicar ao Reino Unido a oportunidade de sair já da UE. Os Ingleses nisto são pragmáticos, mesmo os oposicionistas ao Brexit. May sairá vitoriosa.
O grave problema da intelectualidade que por aí pulula deve-se ao facto de comentar de barriga cheia, paga pelo(s) regime(s). Eles sabem que precisam estar com um pé na eira ensolarada e outro no nabal regado pela chuva. Sabe-se lá o que pode acontecer!
Não sei o que acontecerá no governo/parlamento inglês. O que me parece sobre o Brexit, independentemente dos méritos da permanência ou saída da G-B da UE, é que é uma medida reactiva, um voto reactivo, não correspondendo a um projecto interno para inserção num novo contexto e para um outro enquadramento produtivo, comercial e cultural. Aliás, julgo que foi na BBC que ouvi, alguém perguntava “onde está David Cameron”?, desaparecido em acção (tanto que poderá vir a ser um verdadeiro “soldado desconhecido”). Neste contexto “sair vitorioso” só se for por serendipidade.
Quanto à intelectualidade – diz-se que perdeu o seu papel histórico nestas sociedades de comunicação de massas. É compósita, nisso diversificada. Como tal não se reduz ao que o Vento diz. Há muito “avençado”, mas de facto a maioria desses avençados são profissionais da comunicação, não são “intelectuais” – ainda que haja intelectuais que acumulem. Talvez um dos grandes problemas não seja a intelectualidade “que por aí pulula” mas as expectativas que por aí pululam sobre o seu papel, e que acabam por marcar as posições públicas: pede-se-lhes (e muitos aceitam) o papel profético de oráculos, que anunciem o futuro. Ora o que podem fazer é falar sobre o passado, o que vem sendo, e que daí se tirem conclusões sobre o que será possível ou previsível. Mesmo sobre o presente – que é futuro, dado que a sua compreensão exigirá distância no tempo – é incomensurável a distância entre o que se diz e o que se poderá dizer daqui a uns tempos. Aceitar o papel de oráculo conduz ao constante desfazamento entre o que se diz e o que vai acontecer.
Depois há outra coisa, a tentação do discurso do “dever ser”, as causas avulsas que se impõem à compreensão do real. São bactérias ou vírus (expliquem os especialistas) que promovem bastante miopia e muito mais astigmatismo
Compreendo a sua perspectiva com a qual concordo em geral. Porém a questão da intelectualidade não se referia em concreto aos profissionais da informação ou, melhor dizendo, do jornalismo, que já resta muito pouco.
O Brexit, que nunca será exit, acontecerá. E isto não é uma resposta reactiva, é um enquadramento para o futuro. Dedilhar agora os caminhos a percorrer, seria especular muito sobre o tema. O que é importante realçar é que o UK estrategicamente tem de se vir livre de amarras. Estes nós serão desatados paulatinamente.
Bem, quando eu falo de “intelectuais”, no sentido profissional do termo, não me refiro exactamente a jornalistas – e isto não é desmerecê-los, é apenas tentar descrever estatutos profissionais. Apenas refiro que muitos “intelectuais” (e o termos também não implica mérito, apenas actividade profissional) actuam na comunicação social (colunistas em registo lite na imprensa escrita, paineleiros na radiotelevisão).
O Brexit é reactivo pois é mais do que óbvio que os seus proponentes nem tinham um plano para sair nem outro para desenvolver a seguir. Se será positivo para a GB ou não isso é assunto que me ultrapassa; Estou comos os Farages, os Camerons e os Boris – não faço a mínima ideia de que como resolver o assunto. A diferença é que não o provoquei
Jpt, claro que há recomeços. Basta apagarmos, esquecermos, o Passado. Lembra-se do dito?
O Homem é o animal que tropeça duas vezes na mesma pedra.
Lembra-se? a Grande Guerra para acabar com todas as guerras? Quanto tempo passou até vir a segunda?
É uma fatalidade. Há coisas que para serem percebidas têm de ser vividas. Os vindouros serão também eles neófitos de coisas antigas.
Recomeços? Sim, todos os dias. Inícios é que não, disse o homem. E também me parece que, pelo menos, eles escassearão.
Jpt , não é a Era da Informação, a da Internet, um começo?
Em termos de reivindicações ,que levam aos motins, elas são sempre semelhantes. Até o feminismo. A primeira, Lisistrata….bem mais radical e efectiva
A Revolução foi ,também, a forma encontrada pela história para chegarmos ao sítio, exacto, de onde partimos. À semelhança da Terra também nós somos regidos por forças ocultas. O que foram todas as revoluções senão repetições daquela dos irmãos Graco?
Motins, revoltas, não são revoluções.
Fiz há pouco um apelo à reflexão. Dirigido aos leitores, aos bloguistas, a quem ainda conseguir pensar no meio da inércia e da confusão lado a lado instaladas. Basicamente, é isto que escreveu (sem as ligações, uma pena só as ter lido agora). Mas peço mais, peço a cada um pensante que o faça alto e envolva um vizinho – mesmo sabendo-nos, à maioria sem peso, líderes de nada, pensar alto ajuda a abafar as palavras de (des)ordem que, tonitruantes, nos aborrecem e apagam se as deixarmos. A discussão tem de ser pública, visível, sem acusações mas com elevação: a cristalizar no longo prazo, pois para o curto trazem os exaltados a gasolina – o óleo da fritura, como disse o jpt algures. De outra forma, não vejo muito bem como seguirão os líderes qualquer estratégia, isolados em mundos próprios já há tanto tempo.
Sim, mas há uma coisa sobre os líderes que me parece importante referir. Veja o que se diz em Portugal sobre os líderes franceses – já que tudo isto vem a reboque da actualidade francesa – desde há muito tempo (fundamentalmente desde que se disseminou a comunicação social privada na TV, que trouxe muito mais gente para a palavra pública, e depois com a internet): são todos maus! Chirac era menor, medíocre, fumos estranhos no seu governo de Paris, etc. Comparativamente a Miterrand um desastre (mas atenção, depois sobre este começaram as críticas: mulherengo, desleal, florentino, maquiavélico e, mais recentemente … europeísta). De Sarkozy ainda se disse pior do que de Chirac, incapaz etc; De Hollande idem (e este, francamente, a merecer todas as críticas). Agora vem este e também não presta. Há aqui uma ideia subjacente: um surpreendente bonapartismo (pois muitos dos locutores destas jeremíadas nem se percebem enquanto tal). E deixa-se escapar algo fundamental – é que a constante afirmação da mediocridade dos líderes políticos (não só em França) só pode remeter, para além de considerações sobre a sociologia da acção política (quem vai para a política e que condições para bem suceder nas organizações políticas), para as condições estruturais do exercício do poder político. Nestes tempos em que a capacidade interventiva, dos partidos, seus líderes, dos governos e seus líderes, é muito menor do que foi em tempos. E isso associado à sua muito maior visibilidade, frenética até, devido a esta comunicação digital, à miríade de opinadores e aparentes escrutinadores. Claro que diante disto é muito mais fácil dizer que os tipos são todos maus, medíocres. E, como corolário, acabar (como vejo tantos) a elogiar De Gaulle – que teve méritos, decerto, mas, francamente, será que as pessoas que elogiam De Gaulle têm a mínima noção do que foi ele no poder?
Mas os únicos líderes considerados bons são os mortos, faz parte da tradição portuguesa glorificar quem em vida desprezou, e com o Grande Advento das redes que tolhem em vez de serem suporte a tradição agilizou-se.
Seriamente, embora atrás tenha apenas semi-brincado, desde que existe que se associa poder à comunicação. A ilusão de poder, de contar, de ser tido em conta!, é tal, que conta mais a emissão do que a mensagem, e nisto dos líderes ou mesmo dos políticos pois nem todos líderes, quanto mais negra melhor.
Repare que o primeiro que defender uma acção de um líder é imediatamente conotado, rotulado e por vezes fuzilado como seu apoiante – a apreciação é feita pela pele, não se vai à carne e menos ao osso, portanto uma imagem vale pelo filme todo. E se dantes se escolhia a melhor, agora é moda o inverso, O Independente e o CM com alguma responsabilidade na criação de tais hábitos. Isto para responder que não, não sabem o que é o gaullismo nem quem foi De Gaulle. Nem sabem quem foi Cavaco, jpt, só assim consigo justificar as suas duas PR…!
Creio que está omitido alguma coisa:
“Talvez por isso me lembre do Buzinão, em 1994. Quando, inopinadamente, por iniciativa de alguns camionistas, tudo trancou no acesso a Lisboa, e a revolta da população veio ao de cima, potenciada por uma década do poder de Cavaco Silva. “
Está a esquecer o papel do Armando Vara e dos manos – Gonçalves creio – camionistas cadastrados. De movimentação espontânea – com a SIC a filmar em directo o bloqueio “espontâneo” na ponte do Pragal – teve muito pouco…
Aliás movimentações espontâneas – entenda-se as correntes movimentações francófonas – são muito, muito raras…
Concedo que o meu texto não esteja muito explícito Mas recorri à breve reportagem da rtp para lembrar os visitantes do que aconteceu (da história sobre Vara confesso que não me lembro). E o meu objectivo é o que diz, lembrar, a propósito desta actualidade francesa, que o “espontâneo” tem muito que se lhe diga, ainda que esteja presente. Quanto aos camionistas eles estão referidos no texto e lembrados, na sua agenda bem pouco cristalina, no seu final. Obrigado pelo comentário
A comparação da revolta dos gilets jaunes com o bloqueio da ponte é útil e esclarecedora.
Mas há uma diferença importante. A ponte 25 de abril já se encontrava, basicamente, paga, pelo que não havia de facto qualquer razão económica para que os moradores da Margem Sul passassem a pagar mais por atravessá-la. No caso do gasóleo francês, o dano que ele causa ao ambiente e à saúde são continuados: de cada vez que se utiliza gasóleo, causa-se dano. Pelo que, há toda a razão económica (internalização de externalidades) para que o preço do gasóleo seja aumentado.
“No caso do gasóleo francês, o dano que ele causa ao ambiente e à saúde são continuados: de cada vez que se utiliza gasóleo, causa-se dano. Pelo que, há toda a razão económica (internalização de externalidades) para que o preço do gasóleo seja aumentado.”
Falso, aposto que as vantagens que causa para o ambiente e saúde são muito maiores que as desvantagens. Podemos começar pela facilidade de deslocação para o hospital nem caso de um acidente…ver as pessoas de que gostamos com mais frequência…
Isto sem falar da piada de mau gosto que impostar ainda mais o gasóleo implica mais violência de ainda mais dinheiro a um dos maiores consumidores de gasóleo: O Estado.
E claro o Luís Lavoura como socialista auto intitulado “liberal” não fez as contas para nos dizer se o valor do imposto já cobre a sua suposta perniciosidade pois o que interessa é sempre cobrar mais indulgências ao “pecado”. Para o Estado claro.
Nem o destino do imposto interessa claro…que as indulgências depois têm o destino que o padre lhes quiser dar…
Você pelos vistos não sabe o que são externalidades.
Se uma pessoa usa o gasóleo para ver os amigos ou ir para o hospital, percebe a aproveita as vantagens de usar o gasóleo. Ver os amigos e ir para o hospital são vantagens para a pessoa que usa o gasóleo.
A externalidade é um custo para a sociedade (sob a forma de poluição) que não impacta (diretamente) a pessoa.
Para que a externalidade (o custo para a sociedade) entre na conta económica, ela deve ser internalizada, no sentido de a pessoa que gasta o gasóleo passar a sentir-lhe o impacto, ou seja, passar a pagá-la.
“…De facto, como mostrou a história portuguesa, muitas vezes são apenas uns dealers a protestar com a redução dos lucros mensais….”
Pode-se escrever o mesmo do 25 de Abril…
Essa é mesmo reaça