Li atentamente a entrevista de Fernando Nobre ao Expresso e tive de imediato a sensação que algo não batia certo. Diz ele que decidiu concorrer ao Palácio de Belém depois de ouvir durante "dois ou três meses" várias personalidades, entre elas os ex-presidentes Ramalho Eanes e Mário Soares. "Falei com toda a gente, não houve nenhum sector da política portuguesa que eu não tenha abordado", diz o presidente da Assistência Médica Internacional.
Ora aqui está o que não bate certo: para quem falou com dezenas de pessoas, do CDS ao Bloco de Esquerda, é estranho ter deixado de fora Manuel Alegre. Nem sequer teve curiosidade de saber se o poeta tencionaria recandidatar-se à presidência.
Não por acaso, e com uma evidência exemplar, Alegre é praticamente o único alvo de críticas nesta entrevista. De Cavaco Silva, afirma Fernando Nobre que é "uma pessoa digna e séria, responsável", acentuando que o "roteiro da inclusão" foi "um ponto muito positivo" do seu mandato.
Nada mais esclarecedor para início de conversa.
ADENDA: Leio a entrevista de Fernando Nobre à edição de hoje do i . Repete-se o padrão: elogios a Cavaco ("um homem digno, responsável e crente nas pessoas") e críticas a Alegre. Desta vez com requintes de linguagem: "Picadelas de mosquito não me importunam. Eu só reagirei se for mordido por um crocodilo." Para mais tarde recordar.


Outro dado curioso é que 60 minutos depois de se apresentar como candidato, Alegre ataca-o como sendo uma “marioneta” soarista divisionista.Tanto Alegre como Cavaco estão assustados. Nobre não é Pintassilgo dos 7%. Nobre é um corredor de fundo a querer disputar a presença na 2ª volta.
Olhe que não, meu caro. Alegre não é pessoa para se assustar com facilidade. Já demonstrou isso “mesmo na hora mais triste, em tempo de servidão”.
Então não se percebe o nervosismo do candidato após o anúncio de Nobre! Deveria acolher o adversário com simpatia.
Como é óbvio, meu caro, a crítica (elegante) de Alegre não visou Fernando Nobre mas Mário Soares. Mais que óbvio até.
Contaminação precoce.
Arriscamo-nos a perder um bom médico e a não ganhar um bom presidente? Também creio que sim.
Talvez, Mike. Não quero fazer juízos definitivos, até porque ainda há muita água para correr debaixo das pontes. Mas Fernando Nobre começou mal, inequivocamente.