O mal estar é geral. A diferença, quando oiço críticas, está na forma como as questões de fundo são enquadradas. Uns preferem analisar o descalabro apenas a partir dos últimos cinco anos, outros deitam contas à governação na última década. E há até quem recue vinte anos para concluir que os nossos governantes nunca sabem resolver os nossos problemas orçamentais a não ser à custa do contribuinte. Nunca. Este nunca para mim tem sido importante, porque não me distrai do essencial.
Quando vejo na televisão gente que já teve responsabilidades governativas a revoltar-se contra “o estado a que isto chegou”, gente do PS, do PSD, do CDS, tanto me faz, este nunca começa a ressoar-me na cabeça. Nunca, nunca nunca. Levanto-me do sofá a ver se empurro com uma água das pedras esta palavra enorme e a irritação que me provoca tanta gente inocente e ofendida. Portugueses a criticar portugueses segundo o velho método da auto-exclusão: apontam a falta de coragem e seriedade dos outros como se nunca, nunca, nunca tivessem tido responsabilidades ao mais alto nível. Vejo-os e penso: nisto é que somos bons.


“Portugueses a criticar portugueses segundo o velho método da auto-exclusão: apontam a falta de coragem e seriedade dos outros como se nunca, nunca, nunca tivessem tido responsabilidades ao mais alto nível. Vejo-os e penso: nisto é que somos bons.”
E não somos bons no seu contrário? Isto é, a diluir responsabilidades atirando-as para cima de todos, pelo que nunca, nunca, nunca há um culpado pelo que quer que seja?
Essa é uma variante do mesmo método, Mr Brown, já que serve o mesmo objectivo. E sim, claro que também somos bons nisso.
Recomendo vivamente esta leitura edificante: http://www.inverbis.net/opiniao/miguelre is-orcamento-clientelas-partidarias.html#j c_allComments
Obrigada, José António Salcedo, por esta valiosa partilha. Se não fosse um texto tão extenso faria já um post com a sua transcrição Assim, resta-me recomendar aos leitores que aqui vierem que não percam uma consulta ao documento que linkou.
Na ‘terra do nunca’ batem-se hoje sucessivos recordes. Nunca o desemprego foi tão alto, nunca a dívida externa foi tão galopante, nunca o défice das finanças públicas foi tão astronómico, nunca o saque fiscal foi tão escandaloso, nunca a expressão “crescimento negativo” foi tão popularizada, nunca as expectativas dos portugueses estiveram tão baixas. Nem o mais fanático defensor do (des)governo nega esta evidência: 2011 será um ano de penúria. Palmas para o ministro desta pasta, para o chefe dele e para o Supremo Avalista do Sistema que se gaba de em cinco anos nunca ter vetado uma lei do Executivo. Toda esta gente merece ser reconduzida nas urnas pelos brilhantes serviços prestados à pátria.
Afirmar que os problemas que nos conduziram até esta situação miserável começaram muito antes de Sócrates chegar a primeiro ministro não é eximi-lo das suas responsabilidades. Também eu estou zangadíssima com este executivo. Nada que me impeça, porém, de ficar profundamente enjoada com as virgens ofendidas que andam por aí a desabafar como se nunca tivessem tido responsabilidades na área governativa.
E nunca, nunca, nunca, que me lembre, foi tão descarada a falta de consideração por quem trabalha e paga os seus impostos, cada vez mais de corda ao pescoço, para pagar o nepotismo reinante e os favores aos boys & girls do sistema. Isto é o mais revoltante, porque é público e notório que o sacrifício “a bem da nação” não é para todos. Pior: não é para aqueles que deviam dar o exemplo.
Nunca tão poucos mentiram tanto aos portugueses.
“…I have nothing to offer but blood, toil, tears and sweat. …”
quem isto disse tinha a dignidade e a grandeza que arrastou e exaltou um povo,perante a tragédia e adversidade. A este povo resta a adversidade e a tragédia. Quem nos “governa” manifestamente não possui nenhuma das qualidades desse valoroso político…
Fernando, esse senhor que cita ficou para a História como um dos grandes estadistas europeus, nada que se tenha visto alguma vez por cá.
Claro, Ana, nunca foi tão mau porque andamos a viver acima das nossas possibilidades há décadas. Agora a corda rebentou. Nada que não se adivinhasse. Quanto à desigualdade de tratamento a que este governo “socialista” nos está a submeter para enfrentar a crise já é outra conversa: tanto despudor anda a revolver-me as tripas. Para apaziguar os contribuintes o mínimo que se poderia esperar era algum cuidado nesta matéria. Mas não, nas tintas. Também aqui a tradição continua a ser o que era.
É verdade, Teresa, o mal vem de trás e nunca foi corrigido. Não só vivemos acima das nossas possibilidades há décadas como não aumentamos a nossa produtividade, a não ser fora do país (onde ela é bem alta, misteriosamente). Mas o mínimo que se espera de um governo SOCIALISTA é que tenha preocupações sociais, e que não seja tão descaradamente corrupto, despesista e indiferente ao povo como este tem provado ser.
Gostei muito do que li, e também gostei deste seu comentário, ” porque andamos a viver acima das nossas possibilidades há décadas”. Esta é outra verdade nua e crua, e todos nós temos responsabilidade, o acesso ao Crédito, tão facilitado!, o compre agora e pague depois, nunca foi boa política!
Foi o meu professor de Economia que me ensinou, teria eu 17 anos, e já nessa altura, ele não se cansava de repetir, Temos de Poupar, consumir por consumir, não!
Sábias palavras, as dele… Infelizmente, no nosso dia-a-dia, isso não acontece. Comigo sim, porque eu tenho um só gestor, o multibanco!
Beijinhos, e continuem….
Ilda, o despesismo de que fala foi apenas um dos nossos pecados mortais. Junte-lhe o nepotismo, o facilitismo, a corrupção e fica com o retrato completo (espero não me ter esquecido de nada 🙂 ).
Acertou na mucha, Teresa! Lol, não é necessário lembrar mais seja o que for!, o quadro está completo. Sabe, eu sempre vivi de mãos dadas com a corrupção, com o facilitismo, com o nepotismo!, e acredite, revolta, mas revolta tanto, sofrer em silêncio, ficar calada, ser actriz principal, de um papel que não se quer representar! Ser o isco…! Eu trabalhei 12 anos num Despachante Oficial, na Alfândega do Porto, mais alguns, onde estou actualmente, numa empresa que comercializa ouro, e dói, mas dói mesmo, não fazer nada, rigorosamente nada… :((
Hum… testemunha privilegiada de muita trapalhada, estou a ver 🙂
Textualmente identifico-me com todos que a partir da análise da TR deram a sua opinião, por isso vou falar da imagem que muito bem enquadra o texto.
Também eu me sinto como o pobre moço verde, a beber chá numa caneca, onde nem o smile consegue rir.
A única diferença é que as minhas pantufas são ligeiramente mais quentes, em vez de 2 ratitos roxos, são dois cães peludos que chegam ao calcanhar.
Antevejo também alguma dificuldade para o cabelo perder o arrepio…
Enfim, tempos difíceis que por aí vêm, a diferença está é que vão continuar mais do mesmo para alguns, nomeadamente aqueles que nunca tiveram muito.
Mais do mesmo? Acho que está a ser optimista, cr.