Na terra do nunca


Teresa Ribeiro,

O mal estar é geral. A diferença, quando oiço críticas, está na forma como as questões de fundo são enquadradas. Uns preferem analisar o descalabro apenas a partir dos últimos cinco anos, outros deitam contas à governação na última década. E há até quem recue vinte anos para concluir que os nossos governantes nunca sabem resolver os nossos problemas orçamentais a não ser à custa do contribuinte. Nunca. Este nunca para mim tem sido importante, porque não me distrai do essencial.

Quando vejo na televisão gente que já teve responsabilidades governativas a revoltar-se contra “o estado a que isto chegou”, gente do PS, do PSD, do CDS, tanto me faz, este nunca começa a ressoar-me na cabeça. Nunca, nunca nunca. Levanto-me do sofá a ver se empurro com uma água das pedras esta palavra enorme e a irritação que me provoca tanta gente inocente e ofendida. Portugueses a criticar portugueses segundo o velho método da auto-exclusão: apontam a falta de coragem e seriedade dos outros como se nunca, nunca, nunca tivessem tido responsabilidades ao mais alto nível. Vejo-os e penso: nisto é que somos bons.

18 comentários em “Na terra do nunca”

  1. “Portugueses a criticar portugueses segundo o velho método da auto-exclusão: apontam a falta de coragem e seriedade dos outros como se nunca, nunca, nunca tivessem tido responsabilidades ao mais alto nível. Vejo-os e penso: nisto é que somos bons.”

    E não somos bons no seu contrário? Isto é, a diluir responsabilidades atirando-as para cima de todos, pelo que nunca, nunca, nunca há um culpado pelo que quer que seja?

    1. Obrigada, José António Salcedo, por esta valiosa partilha. Se não fosse um texto tão extenso faria já um post com a sua transcrição Assim, resta-me recomendar aos leitores que aqui vierem que não percam uma consulta ao documento que linkou.

  2. Na ‘terra do nunca’ batem-se hoje sucessivos recordes. Nunca o desemprego foi tão alto, nunca a dívida externa foi tão galopante, nunca o défice das finanças públicas foi tão astronómico, nunca o saque fiscal foi tão escandaloso, nunca a expressão “crescimento negativo” foi tão popularizada, nunca as expectativas dos portugueses estiveram tão baixas. Nem o mais fanático defensor do (des)governo nega esta evidência: 2011 será um ano de penúria. Palmas para o ministro desta pasta, para o chefe dele e para o Supremo Avalista do Sistema que se gaba de em cinco anos nunca ter vetado uma lei do Executivo. Toda esta gente merece ser reconduzida nas urnas pelos brilhantes serviços prestados à pátria.

    1. Afirmar que os problemas que nos conduziram até esta situação miserável começaram muito antes de Sócrates chegar a primeiro ministro não é eximi-lo das suas responsabilidades. Também eu estou zangadíssima com este executivo. Nada que me impeça, porém, de ficar profundamente enjoada com as virgens ofendidas que andam por aí a desabafar como se nunca tivessem tido responsabilidades na área governativa.

  3. E nunca, nunca, nunca, que me lembre, foi tão descarada a falta de consideração por quem trabalha e paga os seus impostos, cada vez mais de corda ao pescoço, para pagar o nepotismo reinante e os favores aos boys & girls do sistema. Isto é o mais revoltante, porque é público e notório que o sacrifício “a bem da nação” não é para todos. Pior: não é para aqueles que deviam dar o exemplo.

      1. “…I have nothing to offer but blood, toil, tears and sweat. …”

        quem isto disse tinha a dignidade e a grandeza que arrastou e exaltou um povo,perante a tragédia e adversidade. A este povo resta a adversidade e a tragédia. Quem nos “governa” manifestamente não possui nenhuma das qualidades desse valoroso político…

    1. Claro, Ana, nunca foi tão mau porque andamos a viver acima das nossas possibilidades há décadas. Agora a corda rebentou. Nada que não se adivinhasse. Quanto à desigualdade de tratamento a que este governo “socialista” nos está a submeter para enfrentar a crise já é outra conversa: tanto despudor anda a revolver-me as tripas. Para apaziguar os contribuintes o mínimo que se poderia esperar era algum cuidado nesta matéria. Mas não, nas tintas. Também aqui a tradição continua a ser o que era.

      1. É verdade, Teresa, o mal vem de trás e nunca foi corrigido. Não só vivemos acima das nossas possibilidades há décadas como não aumentamos a nossa produtividade, a não ser fora do país (onde ela é bem alta, misteriosamente). Mas o mínimo que se espera de um governo SOCIALISTA é que tenha preocupações sociais, e que não seja tão descaradamente corrupto, despesista e indiferente ao povo como este tem provado ser.

      2. Gostei muito do que li, e também gostei deste seu comentário, ” porque andamos a viver acima das nossas possibilidades há décadas”. Esta é outra verdade nua e crua, e todos nós temos responsabilidade, o acesso ao Crédito, tão facilitado!, o compre agora e pague depois, nunca foi boa política!
        Foi o meu professor de Economia que me ensinou, teria eu 17 anos, e já nessa altura, ele não se cansava de repetir, Temos de Poupar, consumir por consumir, não!
        Sábias palavras, as dele… Infelizmente, no nosso dia-a-dia, isso não acontece. Comigo sim, porque eu tenho um só gestor, o multibanco!
        Beijinhos, e continuem….

        1. Ilda, o despesismo de que fala foi apenas um dos nossos pecados mortais. Junte-lhe o nepotismo, o facilitismo, a corrupção e fica com o retrato completo (espero não me ter esquecido de nada 🙂 ).

          1. Acertou na mucha, Teresa! Lol, não é necessário lembrar mais seja o que for!, o quadro está completo. Sabe, eu sempre vivi de mãos dadas com a corrupção, com o facilitismo, com o nepotismo!, e acredite, revolta, mas revolta tanto, sofrer em silêncio, ficar calada, ser actriz principal, de um papel que não se quer representar! Ser o isco…! Eu trabalhei 12 anos num Despachante Oficial, na Alfândega do Porto, mais alguns, onde estou actualmente, numa empresa que comercializa ouro, e dói, mas dói mesmo, não fazer nada, rigorosamente nada… :((

  4. Textualmente identifico-me com todos que a partir da análise da TR deram a sua opinião, por isso vou falar da imagem que muito bem enquadra o texto.

    Também eu me sinto como o pobre moço verde, a beber chá numa caneca, onde nem o smile consegue rir.
    A única diferença é que as minhas pantufas são ligeiramente mais quentes, em vez de 2 ratitos roxos, são dois cães peludos que chegam ao calcanhar.
    Antevejo também alguma dificuldade para o cabelo perder o arrepio…

    Enfim, tempos difíceis que por aí vêm, a diferença está é que vão continuar mais do mesmo para alguns, nomeadamente aqueles que nunca tiveram muito.

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