É preciso manter o foco. N sabe-o, mas os dedinhos dos neurónios estão sempre a puxá-la para baixo. Tempos houve em que se via como uma mulher de sucesso, eficiente no trabalho e despachada na cama. Agora envergonha-se das baixas sucessivas e para escapar a indagações isola-se. Já correu metade dos psiquiatras da praça, mas para aquela tristeza funda não há cura.
A escassez de serotonina no sistema nervoso central está para o seu humor, como uma fractura num pé para uma bailarina. Ambas as situações são incapacitantes, mas ao contrário da bailarina que contará com a simpatia e compreensão dos outros, no seu caso o padecimento será fonte de desconfiança até para si própria.
Às vezes N repete os sintomas da depressão como um mantra em que se embala para combater a insónia, noutras ocasiões parte-se em duas e cita-os de si para si para apaziguar a sua permanente sensação de culpa. Esta actual cultura do faça-se você mesmo dificulta-lhe ainda mais as possibilidades de recuperação.O paleio dos gurus da psicologia positiva, as entrevistas das figuras públicas nas revistas, fotografadas em shorts proactivos e decotes desafiantes a dizer em Ariel “A felicidade constrói-se”, confirmam-na como uma inútil, incapaz de reagir.
Quando se pode atribuir à depressão uma causa concreta é mais fácil combatê-la, mas a tristeza dela é endógena. Aprendeu-a em pequena ou até antes. Provavelmente já lhe vem no sangue, um orh tristíssimo que um dia expurgou a N colorida e bem sucedida.
Na vida ficcional de todos os dias N não tem lugar. No emprego hostilizam-na. A família e até alguns médicos olham-na de esguelha, os amigos desmobilizaram. Só nas estatísticas e nas notícias de jornal N faz sentido.


Como se o cérebro não fosse um orgão do corpo. Como se não fosse passível de adoecer. Como se as doenças tivessem todas de doer no corpo. Como se a febre só se medisse em graus Celsius. Como se fossemos nós sempre fora do corpo.
Belíssimo texto.
Obrigada. A Cristina põe o dedo na ferida quando afirma “como se o cérebro não fosse um órgão do corpo”. A dificuldade que existe em perceber isto é extraordinária.
É isso mesmo, Teresa: essas teorias dos “gurus” do pensamento positivo só servem para pôr uma pessoa que sofre de depressão ainda mais depressiva. Porque lhe causam sentimento de culpa, ao não ser capaz de pensar positivo e de “construir a sua felicidade”.
Essas pessoas precisam, acima de tudo, de quem as COMPREENDA. Expressões do tipo: “força, tens de reagir” são, normalmente, contraproducentes.
Precisam de quem as compreenda e as aceite. Não de quem as censure. Há psicólogos capazes disso, mas, pelos vistos, nem todos…
Este novo comércio da “felicidade” irrita-me tanto, Cristina.
Ui. Arrepiante de tão verdadeiro e tão comum, Teresa. Este país está cheio de Ms, homens e mulheres que vão cedendo à adversidade e ao cansaço. Incluindo os das revistas, quando despem os shorts proactivos e os decotes desafiantes e desaparecem os flashes. Estamos mergulhados em impotência e desânimo, nós que já somos dados à melancolia. Não há que ter vergonha disso, porque o isolamento ainda agrava mais a situação.
Gostei muito de ler-te.
Obrigada, Aninhas. Estamos mergulhados em impotência, desânimo e muita hipocrisia.
É verdade. E esses mercadores de felicidade em pó só fazem com que as pessoas se sintam mais impotentes ainda.
Felicidade em pó? Eheh! Gostei.
Muito bem, Teresa. Triste e dura e desoladora realidade.
Este post é dedicado a uma amiga que se debate com este drama há muitos anos. É duro, sim. Sou testemunha. E o que mais custa é a injustiça. Ser apontada como uma pessoa que não reage, que não quer trabalhar, é terrível.