Faz-me impressão este muro de Berlim que existe entre a esquerda e a direita quando se discutem fenómenos como os que agitaram algumas cidades inglesas. Dos comentários sobre os motins, que se leram e ouviram nos media e na bloga, ressalta o clássico diálogo de surdos: a esquerda desculpabiliza as “vítimas da sociedade” desvalorizando os actos de vandalismo, a direita não quer saber das razões que possam explicar estas erupções e apela à repressão policial.
Das suas trincheiras ideológicas não arredam pé, apesar de enfrentarem um problema comum. Só que nem a alergia às análises sociológicas, nem o desprezo pelas acções policiais contribuem para algo que nos possa, ainda que timidamente, conduzir a um novo patamar civilizacional. Dias depois do Reino Unido, eis que é Madrid que entra em ebulição. O pretexto não podia ser mais absurdo. Sim, acredito que a iminente visita do Papa foi um pretexto para libertar tensões, porque Espanha é um país marcadamente católico, o que significa que o catolicismo faz parte do ADN dos espanhóis, mesmo os que não perfilham a religião. Uma visita papal, noutras circunstâncias, jamais traria um mar de gente em protesto para a rua.
A crise está a transformar a Europa num barril de pólvora, essa é a verdade. Muito longe dos níveis de violência de Inglaterra, as Puertas del Sol pareciam, ontem, uma réplica sísmica do mesmo abalo social. Era bom que se discutisse e percebesse isto, sem tabus ideológicos, antes que seja tarde demais.


Concordo contigo, Teresa, esta divisão entre a esquerda e a direita para mim não faz sentido, mas isso sou eu que tento ver o mundo além de partidarites. Há que registar que algo mudou e que algo tem mudar quando garotos de onze anos saem à rua para fazer o que fizeram. Em relação a Espanha é legítimo que se manifestem.
A História já nos demonstrou que não devemos ignorar os sinais, mas teimamos em não querer aprender com ela.
Eu fui adolescente nos 60’s, e vivi no que me foi possivel as grandes transformações dessa epoca. Para fazer do mundo um lugar melhor para se viver, e no nosso caso em Portugal, para o advento da Democracia que acabou por nos cair no colo vinda de onde menos se esperaria: dos militares.
Quarenta e tal anos e seis filhos depois, todos os dias me pergunto que raio de mundo, de país e de vida, é que nós os entusiastas/revoltados dessa epoca, deixamos às novas gerações. Apontar culpas e culpados, é talvez a melhor maneira de se “sacudir a água do capote”. Acharia eu, na minha modesta opinião, que fosse talvez melhor começarmos a meditar no que correu mal dentro das nossas casas, das nossas familias, e que valores transmitimos aos nossos filhos. Por outro lado, deixarmos de eleger vendedores de banha da cobra que fiquem bem na tv, para nos governarem.
Provavelmente, estes “fenomenos” sociais acontecem, porque tambem os mais novos já perceberam que o sistema faliu. E que o mundo de conforto e consumo que lhes prometeram e a que se habituaram, muitas vezes proporcionado sabe Deus com que sacrificios, já não passa de uma miragem.
Caro Alexandre, será o consumismo o caminho para a felicidade e bem estar?
Será que por ter um Mercedes topo de gama, um apartamento no Algarve em condomínio fechado, o telemóvel do último modelo, as pessoas são mais felizes? E tudo isto porque o fulano de tal o tem?
Gosto de tudo isso mas não invejo nem me seduz essa felicidade de revistas cor-de-rosa.
Creio que a almejada felicidade não está nos bens materiais, mas sim na capacidade de nos encontrarmos a nós próprios e sabermos sem interferência de outros, planear e decidir o que queremos, o noso futuro.
Porque no fundo, tanto quanto me é dado perceber, todas as revoluções, transformações, etc. que até hoje aconteceram, tiveram sempre como justificação a melhoria de bens materiais. Quando houver uma a reclamar outro tipo de bens, estaremos no bom caminho.
Meu caro conterraneo, nada no meu comentario o pode levar a concluir que eu defendo o consumismo como via para a felicidade. Longe disso. No entanto, remeto-o para a “Reflexão do Dia”, postada pelo Pedro Correia mais acima, e que reproduz um artigo do Luis Amado ex ministro dos Negocios Estrangeiros no JN, e que por palavras diferentes ( e melhores tambem) das minhas, acaba por dizer o mesmo que eu. Quem é que explica às gerações mais jovens que o mundo que eles pensavam que tinham pela frente, afinal é outro, para muito pior?
E meu caro também conterrâneo, quem é que iludiu os jovens e os levou a pensar assim?
Já agora, subscrevo o que o nosso outro conterrâneo Singularis disse.
Singularis: temo que já tenhamos passado a fase em que o que se discute é a posse de pequenos luxos. E quando há fome, desemprego e desamparo na velhice e na doença, não há elevação que resista.
É isso mesmo, caro Alexandre: “começarmos a meditar no que correu mal dentro das nossas casas, das nossas familias”. Entre o desculpabilizar as “vítimas da sociedade” e o apelar à repressão policial, esquecemo-nos de olhar para dentro de casa, onde começam a maior parte dos problemas. Não estou a menorizar a crise. Mas será ela razão para se exercerem actos de vandalismo em massa?
Algo vai mal nas famílias e era altura de começar a reflectir sobre isso.
As famílias espelham também os valores da sociedade. É uma pescadinha de rabo na boca. Nada disto é linear.
Também é verdade.
Impunha-se uma séria reflexão sobre todos estes tópicos que aqui nos deixou, mas a cegueira ideológica não tem ajudado ao debate público.
Uma coisa é certa, se não se protestar, em pouco tempo andaremos na rua( como hoje ouvi na tv uma mulher dizer) com uma pasta debaixo do braço com um atestado passado pela junta de freguesia, ou passado por qualquer outra identidade, atestando que somos pobres e que temos direito a pagar menos uns cêntimos pelos transportes ou por qualquer outro serviço público.
Mcastro
Sim, ainda ontem escrevi aqui sobre os novos ricos e os novos pobres para concluir que em muitos casos os que são considerados oficialmente pobres terão menos dificuldades que muitos cidadãos de “rendimento médio”.
Creio que é um exagero dizer que há esquerda ou direita e muito mais exagerado que algum destes lados defenda qualquer causa.
As causas são hoje uma espécie de nichos de mercado. Descobre-se ou inventa-se uma causa e faz-se o mesmo que qualquer empresário ou candidato a empresário: vende-se o produto.
O único objectivo é a obtenção de um fundo de sobrevivência. Com sorte sai-lhes o euromilhões ou, vá lá, o totoloto.
É a isto que estão reduzidos os partidos, sobretudo os pequenos e a maioria dos sindicatos. “Lutam” pela sua própria causa, ou seja, o ordenado ao fim do mês.
Os partidos de governo não lutam por causas, governam-se.
O que se passou em Inglaterra e Espanha não tem nada que ver com esta “crise”.
Em Espanha a razão é óbvia: A Política agora chega a todo o lado. Diminui-se cada vez mais a zona onde estão todos de acordo.
Teresa, concordo contigo: essa divisão é puramente artificial. Os partidos de esquerda e de direita (se é que esses conceitos ainda subsistem, no sentido das velhas “barricadas”) podem aproveitar-se de temas que nos atormentam a todos para esgrimirem diferenças. Mas o drama é cada vez mais universal, e a solução – será que ela existe? – terá de ser encontrada em consensos e conjugação de esforços. E é aí que reside o problema: apontar culpas cegamente à esquerda e à direita não adianta nada, e ainda reforça a ideia errada de que é possível compartimentá-lo. Assim não vamos a lado nenhum.